As pragas de outono sob plantio direto
A fauna sob plantio direto se diferencia da de preparo convencional de solos pela presença de populações residentes na lavoura. O agricultor e os assessores técnicos devem conhecer as características biológicas das espécies residentes, o nível de dano econômico e adotar medidas de controle nos momentos de maior fragilidade da praga. Em lavouras sob plantio direto é necessário criar o hábito de amostrar e de monitorar as populações de pragas de solo.
Depois da colheita das culturas de soja de milho, de sorgo e de feijão, no início do outono, é o momento de monitorar e controlar os grilos, os corós e as formigas.
Os grilos
O grilo-marrom, Anurogryllus muticus (Figura 1), ocorre em vários países da América. Ele pode ser destacado como a principal praga de solo sob plantio direto. Muitos agricultores não percebem a presença da praga nas lavouras ou atribuem os danos a outros fatores.
O grilo-marrom permanece no interior da galeria subterrânea durante o dia, bloqueando a entrada com terra. Após as chuvas, os grilos depositam montículos de terra, resultantes da escavação, que caracteriza a presença da praga na lavoura. A galeria apresenta duas aberturas na superfície na forma de ”Y” e inclinação de 45o no perfil do solo.
No período entre abril e maio, a contagem de montículos permite determinar a população e a distribuição do inseto nas lavouras. Em cada galeria com montículo de terra vive um grilo até a oviposição e desenvolvimento inicial das ninfas, no início do verão.
O ciclo biológico completa-se em um ano. A postura ocorre nos meses de outubro a dezembro. As ninfas podem ser encontradas em grupos numerosos (mais de 100) nas galerias cavadas pelos adultos. No outono as ninfas aprofundam as galerias, onde armazenam alimento e passam os meses de inverno.
Nos meses de outono as ninfas atingem um centímetro de comprimento e cada grilo cava sua própria galeria. Depois dos primeiros períodos de frio, as ninfas cavam o solo, aprofundando as galerias e construindo ambiente para sobreviver no período de frio no sul do Brasil ou de estiagem nos cerrados.
O cultivo de nabo-forrageiro, com exuberante cobertura vegetal, cria ambiente de umidade elevada e de sombra na superfície do solo, favorável ao desenvolvimento de fungos patogênicos aos insetos praga e inóspito para os grilos e corós.
Se a população de grilos (montículos de terra) for elevada pode-se fazer a aplicação de inseticidas eficientes para grilos, evitando o dano o dano da praga nas culturas de inverno e de primavera.
Cada grilo consome 15 a 20 plântulas de trigo ou de cevada, e 5 a 8 plantas de milho, soja ou feijão.
Corós
Os corós pertencem a uma família com numerosas espécies com hábitos alimentares variados. Poucas espécies são consideradas pragas em lavouras. As que ocorrem no sul do Brasil, Argentina, Uruguai e sul do Paraguai, onde chove durante o ano todo, são diferentes das de regiões de clima tropical e seco no inverno, característico nos cerrados brasileiros.
No sul do Brasil é necessário diferenciar as espécies úteis, que consomem palha das espécies que podem causar danos.
Entre as espécies que cavam galerias verticais com diâmetro aproximado de 2 cm, destaca-se o coró-da-pastagem (Diloboderus abderus) e o coró-da-palha (Bothynus spp.), que não é praga. O coró-da-pastagem (Figura 2) é praga no Sul do Brasil e pode ser caracterizada pelo comportamento das larvas. Quando retiradas da galeria e colocadas na superfície, deslocam-se com as pernas e o dorso do corpo para o alto. Enquanto as larvas do coró-da-palha deslocam-se com o dorso do corpo voltado para o solo e as pernas para o alto.
As espécies que não cavam galerias e se deslocam em direção a base das plantas, no solo, e se mantêm em pequenas câmaras, pertencem aos gêneros Cyclocephala, que não causam danos e Phyllophaga (= Phytalus), coró-do-trigo, praga em culturas de inverno. As larvas podem ser diferenciadas pela distribuição de espinhos no ráster (parte ventral e terminal do corpo).
Cada larva de coró-da-pastagem ou de coró-do-trigo consome em torno de 10 plantas de trigo, de aveia ou cevada, em condições de campo, a partir de junho. Portanto, 10 larvas/m² consumirão 100 plantas e mais de 20 larvas/m² , consumirão todas as plantas cultivadas nos meses de inverno.
O nível de dano deve ser estabelecido em função do potencial de produção da lavoura. Cada larva/m² poderá reduzir aproximadamente 4 % o rendimento de grãos de trigo ou de cevada. Em lavouras com elevado potencial de produção (60 sacos/ha) 2 corós/m2 poderão causar 8 % de perdas, compensando a adoção de métodos de controle. Em lavouras com potencial de 20 sacos/ha o nível de dano poderá ser elevado para 4 a 5 larvas/m2.
Os corós considerados pragas desenvolvem-se no solo em profundidades de até 40 cm no perfil de solo. A aração ou a escarificação (pé-de-pato) da lavoura, em geral, causa pouca mortalidade e apenas destruição da galeria ou da câmara onde a larva se encontra.
A gradagem após a aração pode causar a morte de corós na faixa onde passa a roda do trator. O solo desestruturado e solto é compactado com o peso do trator e causa a morte de aproximadamente 30 % dos corós da área. Para um controle efetivo seriam necessárias várias passadas de trator com grade. Portanto a aração e a gradagem são inadequados e ineficientes para o controle de corós na lavoura.
A aração, com o objetivo de expor os corós à radiação solar e ao consumo de aves é ineficiente no controle da praga. A aração expõe menos de 10 % das larvas de corós existentes até 15 cm de profundidade. As larvas expostas na superfície enterram-se até 25 minutos após a exposição. Tempo insuficiente para o ataque efetivo de predadores ou ação direta da radiação solar.
Formigas
As formigas são insetos com características muito diferenciadas de outras pragas de lavouras. Elas não consomem as folhas, mas transportam para os ninhos onde cultivam fungos para a nutrição da população do formigueiro.
As espécies do gênero Atta constroem grande número de panelas destinadas à inspeção e limpeza do material selecionado pelas cortadeiras, cultivo de fungo, depósito de lixo etc. Um formigueiro pode ter centenas e até milhares de panelas ocupando vários hectares.
O controle de formigas deve ser encarado como um método difícil. Elas estão presentes o ano todo nas lavouras mas, o período de maior eficiência no controle é o outono, depois da colheita da cultura de verão e, antes da germinação da cultura de inverno.
A época mais adequada para o controle de formigas é depois da colheita de milho ou de soja. Quando falta alimento para os insetos e os ninhos de formigas são localizados com maior facilidade. O intervalo entre a dessecação e o início de semeadura é o mais adequado para controle intensivo de formigas.
É muito importante usar iscas nos dias com maior atividade externa das formigas. Elas desenvolvem intensa atividade de transporte e armazenagem de folhas e outras partes de plantas para alimentar os fungos no período até três dias antes de chuvas ou entrada de frentes frias. Esse é o momento em que as formigas transportam maior volume de alimento e de iscas formicidas para os ninhos (Figura 3).
Deve-se evitar a aplicação de iscas no dia imediatamente anterior à chuva, nos dias de temperatura baixa e nos períodos de alta umidade no solo.
Nos períodos de germinação e de crescimento inicial das plantas cultivadas na lavoura, as formigas preferem esse alimento e evitam as iscas.
Para maior eficácia no controle de formigas a isca deve ser colocada depois da dessecação, quando falta alimento e antes da emergência das plantas cultivadas. Por isso, deve-se concentrar o uso de formicidas granulados nos períodos entre safras.
As iscas devem ser colocadas na borda das trilhas de transporte de folhas e próximo aos ”olheiros” de entrada do formigueiro. Nunca dentro ou sobre o olheiro de entrada do formigueiro. Deve-se tomar cuidado com o manuseio das iscas para evitar odores que as formigas poderiam rejeitar.
Os inseticidas na formulação pó seco são aplicados com bombas manuais ou motorizadas.
A aplicação de pó apresenta maior índice de ineficiência de controle do que o uso de iscas ou de inseticida nebulizado. Essa dificuldade de controle está associada à estrutura complexa dos formigueiros maiores que podem ter centenas de ”panelas” e estar situadas até 8 m de profundidade no perfil do solo.
O uso de inseticidas nebulizados para controle de formigas é antigo. No início foram usados com substratos queimados em fumigadores e bombeados para dentro dos formigueiros com fole manual.
A termonebulização pode ser feita com equipamentos adaptados a pequenos motores (moto-serra) ou acoplados ao escapamento do motor de tratores. A termonebulização é eficiente no controle de formigas, especialmente dos ninhos de tamanho maior. Deve ser feito nos momentos de intensa atividade das formigas e aplicado em diferentes pontos de entrada do formigueiro.
Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, Ano XII, Edição 74, Março/Abril de 2003. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.