Efeito da palha na análise de solo com trado calador
Pedro Alexandre Varella Escosteguy1; Daniel Henkin2; Márcio Henkes Caldeira3;Jair Pimentel4 e Adriana Pezarico Arns51Professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo. Caixa Postal 611, 99001-970, Passo Fundo, RS. E-mail: escosteguy@upf.br. Autor para correspondência.2Aluno de Graduação, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo. 3Aluno de Graduação, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq.4Engenheiro agrônomo, assessor técnico da empresa Serrana Fertilizantes, Porto Alegre, RS.5Mestranda do PPG-Agronomia, Universidade de Passo Fundo – UPF. Bolsista Capes.Trabalho apresentado na IV Reunião Sul-Brasileira de Ciências do Solo, Porto Alegre, 2002. Sociedade Brasileira de Ciência do Solo-Núcleo Regional Sul.
Resumo
A amostragem adequada é um dos pressupostos para a avaliação da fertilidade do solo realizada com base nos resultados da análise de solo. Uma das características do sistema de plantio direto (SPD) é o acúmulo de palha na superfície do solo. As recomendações técnicas preconizam que esse material seja removido antes da retirada da amostra de solo. No SPD, alguns produtores preferem coletar o solo sem a remoção da palha da superfície do solo, alegando que a influência da palha na disponibilidade de nutrientes para a cultura sucessora, principalmente, o nitrogênio, poderia ser subestimada quando esse material é removido. Neste trabalho, estudou-se a influência da remoção da palha da superfície do solo amostrado no resultado da análise de solo. Dois procedimentos de amostragem foram comparados: (i) coleta de solo após a remoção da palha da superfície do solo e (ii) coleta de solo sem a remoção da palha da superfície do solo. Esses procedimentos foram testados em solos contendo baixo e alto teor de argila, coletados com o calador, após o cultivo de soja e de milho. A presença da palha nas amostras de solo não influenciou na interpretação dos resultados obtidos na análise de solo e nas recomendações de adubação e calagem para as culturas de inverno.
Introdução
O acúmulo de palha na superfície do solo é uma das características do sistema de plantio direto (SPD), que pode apresentar quantidades expressivas desse material quando manejado de forma adequada. A avaliação da fertilidade do solo nessas áreas deve ser realizada com base nos resultados da análise de solo, o que pressupõe a adoção de procedimentos adequados de amostragem do solo (COMISSÃO..., 1995). No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, recomenda-se que a palha da superfície do solo seja removida antes da coleta do solo (COMISSÃO..., 1995). No entanto, muitos produtores e agrônomos preferem amostrar o solo sem retirar a palha da superfície, alegando que a influência desse material na disponibilidade de nutrientes, especialmente o nitrogênio, é subestimada quando a palha é removida. Embora sejam conhecidos os efeitos da palha na ciclagem e na dinâmica de nutrientes no sistema convencional de preparo de solo (Bayer & Mielniczuk, 1999), estudos devem ser realizados para avaliar se a quantidade de palha presente na amostra de solo pode influenciar nos resultados da análise química deste. O trado calador tem sido uma das ferramentas utilizadas para a amostragem manual de solos no SPD. O uso desse trado dificulta a remoção da palha, principalmente, quando ele não apresenta uma extremidade cortante e a quantidade de palha é expressiva. Neste trabalho, foi estudada a influência da palha no resultado e na interpretação da análise de solo, comparando-se dois procedimentos de amostragem realizadas com o calador: (i) coleta de solo após a remoção da palha da superfície do solo e (ii) coleta de solo sem a remoção da palha da superfície.
Materias e Métodos
Os solos amostrados pertencem à unidade de mapeamento Passo Fundo (BRASIL, 1973), sendo classificados como Latossolo Vermelho distrófico típico (EMBRAPA, 1999). Eles estão sendo manejados há mais de oito anos no SPD e apresentam baixo (< 30 %) ou alto (50 a 60 %) teor de argila, tendo sido cultivados com soja e milho, no período anterior a amostragem do solo. As amostras de solos foram retiradas inteiramente ao acaso, na profundidade de 0 a 10 cm, em áreas de 5 ha. Nessas áreas, foram coletadas três amostras (repetições) compostas de dez subamostras. Na resteva de milho, as amostras foram retiradas da entre-linha para evitar a influência da adubação na linha; na resteva de soja, a adubação foi realizada a lanço, dispensando esse procedimento. Foi utilizado um trado calador, constituído por um tubo de aço inoxidável, leve (2,5 cm de diâmetro), com uma extremidade cortante, na forma de fenda lateral ao longo da profundidade amostrada (10 cm) e com uma outra extremidade onde há um cabo com formato em ”T”. As amostras foram coletadas utilizando-se dois procedimentos: (i) coleta de solo após a remoção da palha da superfície do solo e (ii) coleta de solo sem a remoção da palha da superfície. No primeiro procedimento, a palha foi removida manualmente, tendo-se o cuidado de não remover o solo superficial. Após a coleta, os solos foram secos à sombra e em estufa (450C, 48 horas), moídos e peneirados (malha de 2 mm). As análises químicas e do teor de argila foram realizadas conforme Tedesco et al. (1995). As palhas das culturas de soja e de milho foram coletadas utilizando-se um quadro de PVC, com largura e comprimento de 0,50 m e diâmetro de 1,25 cm. O número de amostras/gleba e de subamostras/amostra composta foi o mesmo utilizado para a amostragem do solo. Após a coleta das amostras, a palha foi seca em estufa a 550C (até peso constante), pesada e moída em moinhos de facas. A análise química desse material foi efetuada com digestão úmida, conforme Tedesco et al. (1995). O delineamento experimental foi completamente casualizado e a análise estatística foi realizada utilizando-se a análise da variância do efeito da palha em nível de 5 % de significância.
Resultados e Discussão
1. Solos com baixo teor de argila
Como ilustrado na Figura 1a, a palha de milho proporcionou um decréscimo de 0,15 unidades nos valores de pH SMP (de 5,37 para 5,23). Essa variação foi acompanhada de um pequeno aumento nos teores de H+Al, que variaram de 9,0 para 10,5 cmolc/dm3 (Figura 1b), o que resultou em um aumento da CTC (Figura 2a). Esse aumento da CTC deve-se aos maiores teores de H+Al, os quais são estimados pelo pH SMP. Esse procedimento é realizado para o cálculo da CTC em análise de solo, realizada nos laboratórios de rotina (Tedesco et al., 1995). O aumento da CTC proporcionou uma diminuição da saturação do K (Figura 2b), o qual não resultou de um efeito direto causado pela presença dessa palha nas amostras, mas do efeito indireto desse material no pH SMP e na CTC do solo.
A presença da palha de soja decresceu os teores de P e K nas amostras de solos onde esse material não foi removido da superfície (Figura 3). Entretanto, essa redução não foi suficiente para mudar a interpretação dos teores desses nutrientes tendo em vista a recomendação de adubação. Isso se deve às altas concentrações de P (>18,0 mg/dm3) e K (>80,0 mg/dm3) (COMISSÃO..., 1995) obtidas nas amostras coletadas com os dois procedimentos testados.
2. Solos com alto teor de argila
Os resultados obtidos na análise de solo mostram que a presença da palha de milho aumentou o teor de Mn (Figura 4a). Já, a presença da palha de soja causou um decréscimo no teor de P (Figura 4b). O acréscimo de Mn, obtido nas amostras com a palha de milho, e a redução de P, obtido nas amostras com a palha de soja, não foram suficientes para mudar a interpretação desses nutrientes na análise de solo tendo em vista a recomendação de calagem e adubação utilizando os critérios sugeridos por COMISSÃO...(1995). Isso se deve às altas concentrações de Mn e de P (Figura 4), obtidas nas amostras coletadas com os dois procedimentos testados. Como os resultados da análise da palha não mostram diferenças significativas entre o teor de P obtido na palha de milho e na de soja (dados não mostrados), o decréscimo desse nutriente nas amostras contendo palha de soja não deve estar relacionado a um efeito direto causado pela presença desse material nas amostras de solo.
3. Teor de matéria orgânica do solo
Embora tenha sido constatada diferença visual entre as quantidades de palha (milho e soja) presente nas amostras coletadas com os procedimentos testados, isso não foi suficiente para influenciar nos teores de matéria orgânica (MO) dos solos estudados. Esses resultados diferem dos obtidos com o trado mecanizado (Escosteguy et al., 2002). Essa diferença entre trados sugere que a quantidade de palha coletada com o calador não é suficiente para influenciar os resultados da análise de solo, como pode acontecer quando as amostras são coletadas com um trado mecanizado.
Conclusões
A presença da palha nas amostras de solo coletadas com o calador não influenciou na interpretação dos resultados das análises de solo quando eles são interpretados para fins de adubação e calagem dos solos estudados.
Referências BibliográficasBAYER, C., MIELNICZUK, J. Conteúdo de nitrogênio total num solo submetido a diferentes métodos de preparo e sistemas de cultura. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Campinas, v. 21, 235-239, 1999.BRASIL. Ministério da Agricultura. Departamento de Pesquisa Agropecuária. Divisão de Pesquisa Pedológica. Levantamento de reconhecimento dos solos do estado do Rio Grande do Sul. Recife DNPA, 1973. 431p (Boletim Técnico, 30).COMISSÃO DE FERTILIDADE DO SOLO, R. S. Recomendação de adubação e calagem para os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. 4.ed. Passo Fundo, SBCS-Núcleo Regional, 1995. 224p.EMBRAPA – Centro Nacional de Pesquisa de Solos (Rio de Janeiro – RJ). Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília: Embrapa. Produção de Informação: rio de Janeiro: Embrapa Solos, 1999. 412p.ESCOSTEGUY, P. A. V., HENKIN, D., CALDEIRA, M. H., PIMENTEL, J. & ARNS, A. P. A palha deve ser removida da superfície do solo antes da coleta de amostras com o quadriciclo? In: REUNIÃO SUL-BRASILEIRA DE CIÊNCIA DO SOLO, 4., Porto Alegre, 2002. Anais. Porto Alegre, Sociedade Bras. de Ciência do Solo-Núcleo Regional Sul, 2002. (CD).TEDESCO, M. J., GIANELLO, C., BISSANI, C. A., BOHNEN, H. & VOLKWEISS, S. J. Análises de solo, plantas e outros materiais. 2.ed. Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Agronomia, 1995. 174p. (Boletim técnico, 5).
Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, Ano XII, Edição 74, Março/Abril de 2003. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.