Considerações sobre a produção animal no sistema plantio direto para o inverno de 2003
Jair da Silva MelloEng.-Agr.Gerente Agrotécnico - Cotrijuí - E-mail: cotritec@pro.via-rs.com.br
1. Introdução
A utilização de espécies forrageiras de estação fria, especialmente a aveia preta e o azevém para produção animal, caracterizam a principal oferta forrageira do RS.
Porém, ao longo dos anos, a ”monocultura” da aveia preta, aliado à falta de adubação e manejo adequados, vem trazendo alguns problemas nas propriedades, tais como: compactação do solo, redução da cobertura vegetal, redução na fertilidade do solo e no rendimento das culturas de verão.
Portanto, estes fatores negativos tem sido atribuídos como desvantagens da produção a pasto (gado de leite e corte), quando na verdade, o problema está na interação homem-ambiente e na compreensão e uso das informações por parte dos produtores e assistentes técnicos.
2. Planejamento
É preciso planejar um sistema de rotação de culturas para a propriedade, que contemple a rotação de áreas de pastejo, espécies forrageiras e manejo da adubação. Deste modo pode-se trabalhar com consorciações de aveia + azevém + ervilhaca ou aveia + azevém + trevo vesiculoso, visando a produção de milho no verão, maximizando a produção animal e incrementando a produção de milho.
Outro ponto fundamental é ver a pastagem como uma cultura que precisa de nutrientes para crescer e produzir forragem. Aduba-se a soja, milho, trigo, etc., porém, quando se fala em pastagem a resposta é: ”o adubo é caro”. Realmente, será caro se não existir um planejamento do que se vai vender em carne ou leite, em cada área. É preciso calcular a relação custo-benefício da adubação. Adubar apenas para manter o peso vivo de algumas categorias que são mantidas na propriedade, não parece o mais lógico. Agora adubar a pastagem para novilhos em terminação, permitindo ganhos acima de 1,0 Kg/cabeça/dia ou 300 a 500 Kg/ha no período, é ser racional. Adubar para produzir 4.000 a 6.000 litros de leite/ha em 120 - 150 dias, é racional e mais econômico do que forragem conservada e ração, basta fazer os cálculos.
Conforme se observa na Tabela 1 e na Figura 1, o investimento em adubação deve ser acompanhado de um criterioso manejo da pastagem e dos animais, visando obter um ganho superior a 300 kg PV/ha, que aliado a um melhor preço do boi gordo na primavera, poderá se traduzir em um bom resultado econômico ao produtor.
Tabela 1. Estimativa da relação custo-benefício para a utilização de forrageiras de estação fria, inverno de 2003, na produção animal.
Rubricas
Aveia preta + azevém/ha
Aveia preta + azevém +trevo vesiculoso/ha
Insumos
Quant./ha
R$/un.
Produção de leite
Terminação novilhos
Produçãode leite
Terminação novilhos
Semente de aveia
80 kg
0,80
64,00
Semente de azevém
20 kg
1,25
25,00
Semente de trevo
10 kg
4,00
-------
40,00
Adubo NPK
250 kg
0,648
162,00
Uréia
200 kg
0,670
134,00
35,00
Operação de máquinas
03
-------
45,00
40,00
Custo total
--------
430,00
366,00
Perído de utilização
--------
120 dias
150 dias
Ganho animal - kg/ha
3.000 a 4.000 litros
300 a 350 kg peso vivo
5.000 a 6.000 litros
400 a 500 kgpeso vivo
Ganho animal - R$
1.225,00
560,00
1.925,00
720,00
Saldo R$
795,00
130,00
1.559,00
354,00
Cultura sucessora
soja ou milho
milho/milheto/sorgo
3. Dicas de manejo
a) Planejar um sistema de rotação, finalidade da pastagem e adubação adequada;b) Escolher a melhor consorciação para a propriedade. Ex.: aveia preta + centeio + azevém; aveia preta + azevém; aveia branca + ervilhaca; aveia preta + azevém + trevo vesiculoso, etc.;c) Escalonar as datas de semeadura;d) Trabalhar com pastejo rotativo, ajustando a oferta de forragem para utilizar 01 piquete por dia, principalmente com gado de leite;e) Iniciar o pastejo quando a aveia estiver com uma oferta de 900 a 1.000 g/m², que dará em torno de 1.500 Kg MS/ha;f) Manter altura de resteva de 7 -10 cm;g) Planejar bem o uso de nitrogênio, pois adubação na ordem de 100 Kg N/ha, praticamente dobra a produção de MS e conseqüentemente aumenta o ganho animal. Observando o custo da uréia e do boi gordo, atualmente investindo R$ 1,00 em N, ha um retorno de R$ 2,50 em peso vivo; h) No caso de áreas mais extensas, com animais em terminação usando pastejo contínuo, ajustar a carga animal de tal modo que mantenha um bom resíduo de forragem, observando que o animal não consuma todo o rebrote;i) A retirada dos animais da pastagem deve ocorrer entre 35 a 50 dias antes da semeadura da soja, para rebrotar e deixar uma forragem de cobertura, além de permitir uma certa descompactação do solo pelo sistema radicular. Este é o maior ponto crítico observado nas propriedades, pois com uma carga animal elevada, praticamente não ha rebrote, compactando o solo, ficando pouca palha e prejudicando a cultura de verão.
4. Considerações finais
É preciso planejar melhor o uso de áreas para a integração lavoura-pecuária, pois muitas vezes o produtor perde em rendimento com as culturas de verão, aquilo que ganhou no inverno com a pecuária.
Deve-se ajustar as consorciações, adubação, manejo da pastagem e manejo dos animais. Com isso pode-se garantir melhores ganhos e reduzir o risco das culturas de inverno, com agregação de renda.
Dados para Referências Bibliográficas:
Revista Plantio Direto, Ano XII, edição nº 74, Março/Abril de 2003. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.