Principais grãos gaúchos: tendência desigual
Argemiro Luís BrumProfessor da UNIJUI, Chefe do Departamento de Economia e Contabilidade-DECon, coordenador, pesquisador e analista da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA).Soja
A tendência do mercado da soja, milho e trigo, para este ano de 2003, no mercado gaúcho, se mostra desigual. A soja, carro-chefe do agronegócio de boa parte do Estado, indica uma safra cheia que, na hipótese otimista, pode alcançar cerca de 8 milhões de toneladas após os 5,6 milhões na frustrada safra do ano anterior. No Brasil, em função das condições climáticas adequadas e do aumento na área plantada (a mesma cresceu 10%), as novas estimativas dão conta de uma colheita superando as 50 milhões de toneladas. Se somarmos o restante da América do Sul (Argentina, já indicando 34 milhões de toneladas; Paraguai com algo ao redor de 4 milhões de toneladas; e a Bolívia, perto de 1,5 milhão de tonelada) teremos uma produção total final, na região, ao redor de 89,5 milhões de toneladas. Pela primeira vez, a América do Sul irá superar largamente a produção passada dos EUA, a qual ficou em 74,3 milhões de toneladas (números já revisados pelo USDA).
Esta oferta significativa tende a derrubar os preços, como de fato já vem ocorrendo nas regiões do Centro-Oeste, onde a colheita se desenvolve. Com uma produtividade média, que em alguns pontos ultrapassa as 70 sacas/hectare, os preços naquela região, mesmo com apenas 15% colhido até o final de fevereiro/03 (as excessivas chuvas atrasaram a colheita em muitos locais), já estão em patamares de R$ 36,00/saco para os lotes em Ponta Porã (MS) e R$ 36,25/saco em Rondonópolis (MT). No final de outubro passado, estas mesmas praças indicavam preços de R$ 47,60 e R$ 46,65/saco. Ou seja, os preços já recuaram mais de 10 reais por saco. E isto que o câmbio praticamente, na comparação ponto a ponto, está nos mesmos níveis (ao redor de R$ 3,60). Ou seja, a pressão de uma colheita muito grande derruba os preços da soja em todas as praças do país. No mercado gaúcho, que colhe em abril, os preços tendem a cair abaixo dos R$ 30,00/saco ao produtor, especialmente no caso dos negócios a balcão. Isto em se mantendo a expectativa de safra cheia.
Em se considerando que a demanda se mantém firme, embora sem surpreender (o caso mais significativo se encontra na China, que aponta uma importação de até 15 milhões de toneladas do grão de soja), dois outros fatores podem alterar este quadro baixista para o primeiro semestre de 2003. O primeiro diz respeito ao plantio da nova safra nos EUA. Há uma expectativa de redução concreta de área, porém, nada por enquanto indica uma redução substancial. O relatório de intenção de plantio, previsto para o dia 31/03, dará a primeira informação plausível a respeito. No entanto, em ocorrendo clima normal nos EUA, as projeções indicam, ainda assim, uma safra próxima a 75 milhões de toneladas, ou seja, nos níveis da atual. Todavia, com o recuo da área plantada, o mercado ficará muito nervoso, pressionado pelo clima, entre maio e setembro próximos, podendo haver picos de alta em Chicago muito interessantes. Em segundo lugar, temos o câmbio no Brasil. O mesmo resiste em chegar ao patamar aceitável de R$ 3,00 a R$ 3,30. Agora, o motivo principal é a guerra entre EUA e Iraque (ainda indefinida no momento em que escrevíamos este artigo). Mesmo que haja um pico que leve a moeda nacional perto dos R$ 4,00 por um dólar, a lógica indica que o câmbio cederá logo, em especial se a guerra for de curta duração. Assim, é possível esperarmos um ano com o câmbio médio nos níveis deste final de fevereiro, isto é, algo entre R$ 3,50 e R$ 3,70. A não ser que o atual governo brasileiro modifique sua política econômica ortodoxa, o que não parece ser o caso. Sendo assim, os preços da soja não terão, desta feita, o componente câmbio como elemento altista, como se viu no final de 2001 e 2002. Mesmo assim, os preços médios tendem a ser interessantes no segundo semestre, em especial se houver frustrações na safra estadunidense, fato que elevaria para além dos US$ 5,60/bushel a cotação atual do grão de soja para outubro/novembro próximos.
Milho
Quanto ao milho, estamos entrando em 2003 com um mercado bastante apertado, apesar de uma recuperação na safra nacional. A redução na área plantada (cerca de 7,3% em termos de país e 10,4% em termos do Rio Grande do Sul) não permitiu uma produção suficiente. No total nacional, espera-se uma colheita de 25,76 milhões de toneladas na safra (redução de 2,94% em relação ao ano anterior) e algo em torno de 10,1 milhões de toneladas na safrinha (um crescimento de 47% sobre o ano anterior). Com isto, o total nacional chegaria a 38,9 milhões de toneladas em 2002/03 após 36,4 milhões na frustrada safra do ano anterior. Todavia, torna-se importante destacar que este aumento geral de 6,9% depende exclusivamente da safrinha que, pelo atraso no plantio da soja no Mato Grosso e outras regiões do Centro-Oeste, tende a não ser semeada nos níveis esperados. Além disso, a demanda de milho supera a oferta nacional, mesmo em se confirmando tais números, fato que deve levar o país a importar, talvez, perto de 2 milhões de toneladas. Para complicar a situação, muitas exportações ainda estão sendo fixadas, na esteira de um câmbio que se mantém positivo para o exportador.
Este quadro tende a ser mais apertado ainda no Rio Grande do Sul onde a safra passada sofreu forte frustração (4,3 milhões de toneladas) e a atual safra indica um volume muito próximo deste (4,48 milhões de toneladas). Com isso, os preços do milho, que recuam naturalmente no momento atual (colheita), pela maior pressão de oferta, deverão se elevar rapidamente (tudo indica que a partir da metade deste primeiro semestre), voltando a patamares próximos aos registrados nos bons momentos do ano de 2002. No final de fevereiro/03, os lotes do cereal, no Estado gaúcho, estavam ao redor de R$ 20,75/saco contra R$ 27,50 no final de novembro passado. Se considerarmos que o período é de colheita, os preços estão muito bons. Tudo agora irá depender da safrinha nacional, pela qual se projetam preços ao redor de R$ 15,00/saco no Centro-Oeste, e do comportamento do câmbio (um recuo do mesmo facilitaria as importações, segurando os preços internos). No entanto, é difícil os preços do milho recuarem muito, dada a demanda interna em crescimento (caso a guerra entre Iraque e EUA ocorra, é possível que as exportações de frango sofram uma freada no imediato pois o seu principal destino continua sendo os países do Oriente Médio). Além disso, a lógica indica uma recuperação até sensível dos mesmos no segundo semestre, especialmente se o conflito externo for solucionado e a economia brasileira crescer um pouco mais do que 2002, como se espera. A situação será ainda mais grave em caso de frustrações na safrinha deste ano.
Trigo
Quanto ao trigo, a realidade é diferente pois o mercado entra numa nova entressafra, após uma frustrada safra nacional, que apenas chegou a 2,8 milhões de toneladas contra expectativas que indicavam uma produção de até 4 milhões de toneladas em 2002. Assim, o quadro é ainda mais apertado do que o normal, devendo o Brasil importar cerca de 7,2 milhões de toneladas (senão mais, devido a baixa qualidade do produto colhido). Cerca de 95% deste volume deverá proceder da Argentina apesar do câmbio se manter relativamente elevado, porém, estável ao redor de R$ 3,60. Mesmo que se projete uma produção nacional superior a 4 milhões de toneladas (haverá aumento de área plantada em 2003), a mesma somente começará a entrar no mercado no final de setembro. No caso do Rio Grande do Sul, apenas em novembro. Desta forma, a tendência é dos preços se elevarem bastante para meados do ano. Aliás, este comportamento já começou, especialmente no Paraná, onde a tonelada do produto de qualidade superior passou de R$ 535,00 no final de dezembro para R$ 610,00 no final de fevereiro/03. Ou seja, em dois meses o cereal assistiu a um aumento de 14% naquele Estado. No Rio Grande do Sul, onde a colheita é mais tardia, os preços ainda demoram para reagir, permanecendo em R$ 525,00/tonelada no final de fevereiro/03 após R$ 535,00 no final de dezembro/02 e R$ 675,00/tonelada em meados de outubro/02. Mas a tendência é de alta, podendo até superar os melhores momentos de 2002, entre março e outubro próximos. Especialmente porque na Argentina a safra de trigo igualmente está sendo menor, com colheita projetada em apenas 12,5 milhões de toneladas neste momento após 15 milhões estimadas inicialmente.
Como se vê, o mercado nacional e estadual destes principais grãos parece ter superado aquele momento ”mágico”, vivido em 2002, quando os preços das três principais culturas estavam em elevação significativa e de forma concomitante. Uma acomodação para baixo, embora ainda em níveis interessantes, parece estar acontecendo e, especialmente para a soja, tende a ser a tônica em boa parte de 2003.
Dados para Referências Bibliográficas:
Revista Plantio Direto, Ano XII, edição nº 74, Março/Abril de 2003. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.