Níveis de dano de pragas em soja
Dirceu GassenGerente Técnico da Cooplantio - E-mail: dirceu@ginet.com.brO manejo de pragas é a combinação de práticas agrícolas com o objetivo de suprimir populações de insetos que competem com o homem na produção de alimentos. É elaborado com base no conhecimento do ciclo biológico da praga, dos fatores de supressão natural e da capacidade da planta em tolerar as injúrias do inseto.
As plantas de soja na fase de desenvolvimento vegetativo demonstram vigor e reagem a injúrias de pragas e doenças, quando as condições de clima, de fertilidade de solo e ambiente são favoráveis.
A decisão de controle com base no número de insetos, no nível de desfolhamento e no estádio da soja, algumas vezes pode levar a perdas no rendimento de grãos ou ao uso desnecessário de inseticidas.
O planejamento do manejo de pragas inicia na escolha da cultivar com base no grupo de maturação ou ciclo de desenvolvimento.
As cultivares de ciclo precoce são as mais eficientes na relação entre área foliar, tempo de desenvolvimento e produção de grãos. São plantas que exigem solos férteis, clima favorável e toleram menor desfolhamento.
As cultivares de ciclo tardio crescem por períodos prolongados, produzem maior área foliar e toleram maior desfolhamento.
Além dos aspectos relacionados com o número de lagartas (40 larvas com mais de 2 cm de comprimento/m2) e o índice de desfolhamento (30 % antes da floração e 15 % na fase reprodutiva), se deve considerar a condição geral da lavoura.
O índice de área foliar
O índice foliar de 4 m2 por m2 de área física é considerado ideal para a maior eficiência na produção de grãos. A falta de folhas determina a redução no rendimento de grãos. O excesso de folhas determina o acamamento e a queda de legumes na parte inferior da planta e cria ambiente favorável ao desenvolvimento de doenças.
As cultivares de soja de ciclo precoce, em períodos de estiagem e sob condições de solos com baixa fertilidade, apresentam índice de área foliar em torno de 2 m2, insuficiente para garantir elevados rendimentos. Nessa situação as pragas desfolhadoras e as brocas de ponteiras devem ser controladas logo no início da infestação.
No outro extremo, as cultivares de soja com ciclo tardio, cultivadas em solos férteis e em períodos com abundância de chuvas apresentam mais de um metro de altura e área foliar em torno de 8 m2. O excesso de folhas causa sombreamento, acamamento, queda de legumes e perdas no rendimento de grãos. Nessa situação o desfolhamento é desejável para melhorar a aeração e a penetração de luz na massa foliar.
Portanto, na decisão de controle de pragas desfolhadoras em soja é importante determinar o índice de área foliar (Revista Plantio Direto, n.61, 2001. p.24), além de contar o número de lagartas e estimar o índice de desfolhamento.
As brocas e as enroladeiras de folhas
A broca-da-ponteira da soja e a lagarta-enroladeira de folhas são pragas esporádicas e de difícil controle. As indicações de níveis de controle são de 30 % de incidência.
As brocas e as enroladeiras de folhas causam danos em cultivares precoces, sob condições de estresse e baixo índice de área foliar.
O posicionamento dessas pragas, broqueando a ponteira ou enrolando as folhas dos brotos, torna o controle difícil. Os produtos de ação sistêmica penetram na planta e circulam em direção ao ápice das plantas. Portanto não circulam para a base da planta nem controlam brocas ou percevejos na parte basal da planta.
As cultivares precoces sob estresse e índice de área foliar menor de 3:1, podem sofrer danos desse grupo de pragas. As lavouras com elevado índice de área foliar toleram o dano dessas pragas.
Os percevejos
Os percevejos, junto com as lagartas são as pragas de maior importância econômica em soja. As indicações para controle indicam populações de 4 percevejos/m2 para lavouras comerciais e 2 percevejos/m2 para áreas de produção de sementes.
Os percevejos causam danos maiores na fase de formação de legume e de início de enchimento de grãos. Os percevejos sugam em maior número de grãos com perdas acentuadas. Na fase de final de enchimento de grãos e na fase de maturação a capacidade de danos reduz nas lavouras destinadas à produção de grãos. Porém, mesmo na fase de grão seco os percevejos podem afetar a germinação da semente.
As cultivares tardias sofrem maior ataque de percevejos pela emigração de insetos de áreas adjacentes de cultivares precoces, já colhidas.
A aplicação de inseticidas
A aplicação de inseticidas em soja atinge, principalmente, as folhas jovens, na parte superior da planta. A lagarta da soja se alimenta dessas folhas e o controle se torna fácil. Na fase reprodutiva, quando cessa a formação de folhas na parte superior da plantas, as lagartas consomem os brotos e esporadicamente os legumes, na parte basal ou mediana das plantas. Nessa situação o controle da praga é difícil pelo posicionamento das lagartas e deposição de inseticidas na parte superior.
Os percevejos tem o hábito de intensa movimentação nas plantas. Pela manhã, na primeira hora de radiação solar, os percevejos sobem para a superfície superior das plantas, onde foi aplicado inseticida, tornando o controle eficiente.
A eficácia e a seletividade de inseticidas estão associados às características da espécie da praga e o posicionamento na planta.
As lagartas são de controle, relativamente, fácil e com opções de produtos seletivos. Os inseticidas denominados ”biológicos” (Baculovirus anticarsia e Bacillus thuringiensis) são eficientes e seletivos para inimigos naturais. Os inseticidas denominados ”fisiológicos” também são eficientes e apresentam maior seletividade do que os inseticidas fosforados e piretróides.
A mistura de inseticidas gera polêmica. A adição de doses reduzidas de inseticidas piretróides ou fosforados aos inseticidas biológicos ou fisiológicos, resulta na perda do benefício da seletividade. Mesmo as doses pequenas de produtos de amplo espectro de ação matam as lagartas pequenas, justamente as que os inseticidas biológicos e fisiológicos melhor controlam. Nas misturas os inimigos naturais também morrem, perdendo o benefício da ação seletiva. A reinfestação de pragas pode ocorrer.
É conveniente aplicar inseticidas biológicos e fisiológicos nas doses corretas e eficientes quando predominam as populações de lagartas pequenas. As lagartas a partir da fase de 1,5 cm de comprimento consomem 80 % da capacidade de alimentação até o fim da fase de larva. Nos casos de predomínio de lagartas de tamanho maior, sugere-se aplicar inseticidas de ação rápida.
Na fase reprodutiva da soja o controle de lagartas é difícil e exige doses mais elevadas, pela posição das lagarta no interior das plantas e pela ausência de folhas novas na parte superior da planta. As ações de práticas de manejo de pragas, de estimulo ao controle biológico natural e uso de inseticidas, devem ter como base o melhor retorno econômico.
Dados para referências bibliográficas:Revista PLantio Direto, Ano XII, edição 73, Janeiro/Fevereiro de 2003, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.