Atenção para as Doenças de Final de Ciclo (Soja)


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Publicado em: 01/02/2003

Atenção para as doenças de final de ciclo

Carlos Alberto ForceliniFaculdade de Agronomia e Medicina Veterinaria da Universidade de Passo Fundo E-mail: forcelini@upf.tche.br

A cultura da soja é afetada por várias doenças causadas por fungos, bactérias e vírus. Conforme a parte da planta afetada, estas doenças podem ser agrupadas como podridões de semente e da plântula, podridões de raízes, doenças da haste e do colo e doenças foliares. As doenças foliares mais importantes são o oídio, as doenças de final de ciclo (crestamento foliar, mancha parda e antracnose) e, mais recentemente, a ferrugem asiática.

A intensidade das doenças e os danos por elas causados variam em função da região, do clima, da época de ocorrência, do cultivar e das doenças predominantes. Em média, as doenças reduzem o rendimento da cultura em 20%, dos quais 11% podem ser devidos às moléstias foliares. O componente do rendimento mais afetado é o peso do grão, uma vez que as doenças foliares provocam a senescência (morte) antecipada da folha, encurtando o ciclo da planta e determinando a formação de grãos pequenos. Em geral, cultivares de soja de ciclo longo tendem a ser mais afetados por doenças, uma vez que permanecem mais tempo expostos às mesmas.

O controle das doenças da soja envolve, primeiramente, a adoção de medidas preventivas, tais como a rotação de culturas, a escolha de cultivares resistentes ou tolerantes, o uso de sementes de boa sanidade e tratadas com fungicidas, adubação equilibrada, melhoria da estrutura do solo para reduzir a compactação e a realização da semeadura na época recomendada. A utilização de fungicidas representa uma medida de controle complementar, a ser adotada em lavouras com bom potencial de produtividade. Uma vez que a cultura foi estabelecida a campo, a aplicação de fungicidas é a única medida que resta disponível e seu efeito é sobre as doenças foliares (oídio, doenças de final de ciclo e ferrugem). Na maior parte dos casos, lavouras conduzidas sob rotação de culturas apresentam melhor resposta à aplicação de fungicidas que aquelas sob monocultura de soja. Assim, ocorre porque plantas sadias tem maior potencial de rendimento.

Quanto ao controle de doenças em soja, os questionamentos mais freqüentes estão relacionados aos danos causados por estas doenças, à viabilidade técnica e econômica do tratamento químico e à época de sua realização. Estes pontos serão discutidos nesta matéria, tendo como base resultados de pesquisas conduzidas na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, nas últimas safras. Antes, porém, apresenta uma descrição das principais doenças foliares da soja.

Oídio

O oídio (Figura 1) é causado pelo fungo Microsphaera diffusa, podendo ocorrer a partir dos estádios de crescimento vegetativos (antes da floração) até a fase final da cultura, especialmente em verões secos e amenos (temperatura entre 18 e 24°C). O oídio é facilmente identificado pelo crescimento branco-acinzentado do fungo sobre as folhas. A ocorrência do oídio predispõe (torna mais sensíveis) as plantas às doenças de final de ciclo. Controle do oídio é feito através do uso de cultivares resistentes (ex: BRS 154, CEP 33 e outros) e da aplicação de fungicidas (ex: triazóis, triazóis + estrobilurinas ou truazóis + benzimidazóis).

Doenças de final de ciclo (DFC)

O complexo de doenças de final de ciclo (Figura 2) é composto pelo crestamento foliar, pela mancha parda e pela antracnose, as quais tem como agentes os fungos Cercospora kikuchii, Septoria glycines e Colletotrichum truncatum. No Planalto Médio gaúcho, o crestamento foliar e a antracnose são as doenças predominantes. As doenças de final de ciclo tem esta denominação por que sua manifestação se torna mais visível, nas camadas superiores de folhas, ao final do ciclo da cultura, quando o seu controle através de fungicidas já não é mais viável. Na verdade, as DFC ocorrem nas plantas desde os estádios vegetativos, uma vez que os fungos que as causam estão presentes nas sementes e nos restos culturais. As doenças de final de ciclo são mais intensas em verões úmidos e quentes (23 a 30 °C), especialmente naqueles sob efeito do El Niño. Como medidas de controle, recomenda-se a rotação de culturas, o tratamento das sementes e a utilização de fungicidas (ex: triazóis, estrobilurinas, benzimidazóis ou misturas). Infelizmente, não se dispõe de cultivares de soja resistentes ao complexo de doenças de final de ciclo.

Ferrugem

A ferrugem asiática (Figura 3), causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, ocorreu em várias regiões de produção de soja do Brasil, na safra 2001/02. A ferrugem desenvolve rapidamente, podendo destruir as plantas em 2-3 semanas. A detecção inicial da ferrugem só é possível com o auxílio de uma lupa, observando-se as lesões no lado inferior da folha. A doença prefere temperaturas amenas, inferiores a 28 °C, e longos períodos de molhamento foliar. Como, até o momento, não existem cultivares resistentes à ferrugem, o seu controle é feito através da aplicação preventiva de fungicidas (ex: triazóis, estrobilurinas ou misturas), a partir do florescimento.

Dano causado por doenças foliares em soja

Em estudos conduzidos em Passo Fundo, com oito cultivares de soja (quatro suscetíveis e quatro resistentes ao oídio), com e sem a aplicação de fungicidas, o dano médio foi de 3,5 sacas/ha pelo oídio, 6,9 pelas DFC e 10,5 pelo somatório de ambas as doenças. Estes valores corresponderam a percentuais de 6,4%, 12,1% e 18,5%, respectivamente. Verifica-se, portanto, que as DFC causam mais dano que o oídio. Observou-se, também, que a maior parte deste dano ocorreu entre o florescimento (R 1) e a fase inicial de formação do grão (estádios R 4 a R 5.1).

Resposta à aplicação de fungicidas

A resposta da cultura à aplicação de fungicidas varia em função de vários fatores, entre os quais, o cultivar, a intensidade da doença e a época de realização do tratamento. Cultivares suscetíveis ao oídio e DFC respondem mais (média de 629 kg/ha) que aqueles apenas suscetíveis às DFC (média de 415 kg/ha) (Figura 4). A resposta é menor à medida que a aplicação é realizada após a formação do grão ter sido iniciada (estádio R 5 em diante). Melhores resultados são obtidos quando a aplicação é realizada entre R 3 (final do florescimento) e R 4 (vagens com 3-4 cm, grãos não perceptíveis ao tato).

Uma ou duas aplicações

Na ausência da ferrugem asiática, a melhor relação custo-benefício ocorre com uma aplicação de fungicida. Em trabalhos realizados na FAMV/UPF, uma aplicação de fungicida no florescimento (estádios R 1 a R 2) aumentou o rendimento de grãos em 507 kg/ha, contra 582 de duas aplicações (R 1 e R 4). Ou seja, o benefício da segunda aplicação foi de apenas 77 kg/ha. Nota-se que duas aplicações produzem diferenças visuais no controle das doenças, sem, no entanto, resultar em aumento significativo no rendimento de grãos. Portanto, uma aplicação de fungicida posicionada no estádio correto pode ser mais viável, técnica e economicamente, que duas aplicações. Havendo constatação de ferrugem na região, antes do estádio R 5.3 (maioria das vagens entre 25 e 50% da granação), recomenda-se uma segunda aplicação de fungicida.

Época de aplicação

A disponibilidade de modernos fungicidas, com longo efeito residual, como as estrobilurinas e alguns triazóis, permite antecipar a aplicação do tratamento em soja. Resultados obtidos na FAMV/UPF, com cultivares de ciclo curto, médio e longo, tem mostrado vantagens da aplicação no florescimento em relação aquela realizada após R 4. Contudo, para evitar fitotoxicidade dos fungicidas às flores (fato não observado por este autor), recomenda-se posicionar o tratamento entre os estádios R 3 e R 4, tanto para cultivares suscetíveis como resistentes ao oídio, independentemente do ciclo do cultivar. À medida que o tratamento é retardado, diminuem as respostas ao tratamento e as diferenças entre os fungicidas. Exemplificando, uma aplicação ao final do florescimento resultou em 539 kg/ha nos cultivares suscetíveis e 378 kg/ha nos resistentes ao oídio. A mesma aplicação no estádio R 5.1 (grãos perceptíveis ao tato até 10% de granação) resultou em 325 e 175 kg/ha, respectivamente (Figura 5). A antecipação da aplicação apresenta várias vantagens: melhor controle e menor dano pelas doenças, melhor desempenho dos fungicidas, maior segurança em relação à ferrugem e a possibilidade de conciliar a aplicação de fungicidas com inseticidas e/ou herbicidas.

Fungicidas

Face ao complexo de doenças foliares que podem ocorrer na cultura da soja e à possibilidade de antecipar o tratamento para o florescimento ou fase final deste, recomenda-se utilizar fungicidas e/ou misturas com efeito residual mais longo, tais como os triazóis, triazóis + estrobilurinas ou triazóis + benzimidazóis. Este autor não recomenda a utilização isolada de fungicidas benzimidazóis. As doses devem ser aquelas sugeridas pelos fabricantes. A utilização de uma sob-dose em aplicação antecipada, necessariamente implica em um segundo tratamento.

Finalizando, melhores resultados, técnica e economicamente, tem sido obtidos com uma aplicação de fungicida triazol, triazol + estrobilurina ou triazol + benzimidazol ao final do florescimento. Havendo ocorrência da ferrugem na região, recomenda-se uma segunda aplicação, duas semanas após a primeira.

Dúvidas sobre DFCHá, entre produtores e técnicos, uma grande preocupação com a incidência de doenças na cultura da soja. Para esclarecer dúvidas de nossos assinantes e leitores sobre o assunto, procuramos o Pesquisador Carlos Alberto Forcelini, da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo que nos concedeu uma breve entrevista.

Revista Plantio Direto - Por que as doenças de final de ciclo representam uma ameaça à produtividade da soja?

Carlos Alberto Forcelini - As doenças de final de ciclo (DFC) provocam a morte antecipada das plantas, resultando em grãos menores, com redução na produtividade. Em safras nas quais o clima mostra-se quente e úmido, como em anos de El Niño, as DFC adquirem maior importância e danos. As DFC são mais severas em áreas de monocultura de soja, sob plantio direto. As DFC se tornam mais evidentes quando atingem a camada superior das folhas, quando a adoção do controle químico pode ser tarde demais. Por este motivo, recomenda-se utilizar o tratamento químico, preventivamente, ao final do florescimento.

RPD - Os cultivares de soja apresentam resistência às doenças de final de ciclo?

Forcelini - As DFC constituem um complexo formado por três doenças, o crestamento foliar por Cercospora, a mancha parda de Septoria e a antracnose. Alguns cultivares de soja podem apresentar resistência ou tolerância a alguma destas doenças, mas não ao complexo, razão pela qual a maior parte dos cultivares responde positivamente ao controle químico.

RPD - Cultivares precoces e tardios diferem quanto à incidência de DFC?

Forcelini - Cultivares de ciclo longo tendem a apresentar maior intensidade de doenças, uma vez que permanecem maior tempo expostas aos patógenos que as causam.

RPD - Qual o momento para iniciar o controle das DFC?

Forcelini - Particularmente, recomendo efetuar a aplicação de fungicidas entre os estádios de crescimento R 3 e R 4, que correspondem ao final do florescimento e início da formação do grão. Uma aplicação de fungicidas triazóis, triazóis + estrobilurinas ou triazóis + benzimidazóis nesta fase, na dose recomendada pelos fabricantes, é suficiente para um ótimo controle do oídio e das DFC. Uma segunda aplicação só é justificável com a ocorrência da ferrugem. Também recomendo que fungicidas benzimidazóis (ex: carbendazim e tiofanato metílico) sejam usados em misturas com triazóis, não isoladamente.

RPD - O atraso na semeadura da soja pode ter alguma influência na ocorrência das DFC?

Forcelini - A cultura deverá ter um ciclo mais curto, com menor desenvolvimento. Quando a área foliar é menor, os cuidados com o controle das doenças foliares devem ser maiores, principalmente no sentido de aplicar mais cedo.

RPD - Qual sua expectativa com relação à ocorrência da ferrugem da soja nesta safra?

Forcelini - A ferrugem (asiática) da soja ocorreu em vários estados brasileiros na safra 2001/02, afetando principalmente os cultivos de safrinha. O fungo causador da doença sobrevive, principalmente, em plantas voluntárias (guachas, tigueras), muito numerosas em algumas áreas onde o frio foi pouco intenso e a utilização de herbicidas dessecantes não foi suficiente para elimina-las. Os esporos do fungo são disseminados pelo vento de uma região para outra e as condições climáticas, especialmente a freqüência de chuvas nesta safra, mostram-se favoráveis à ocorrência da ferrugem. Por este motivo é preciso estar atento, especialmente a partir do florescimento da soja. Se a ferrugem ocorrer a partir do estádio R 5.5 (grãos com 75% do seu tamanho já desenvolvido), o seu efeito sobre o rendimento deverá ser pequeno. Como uma medida de precaução, recomendo que a aplicação de fungicida para o controle do oídio e/ou DFC seja antecipada para o final do florescimento, auxiliando assim no manejo da ferrugem.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, Ano XII, edição 73, Janeiro/Fevereiro de 2003, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.