ESPECIAL — A Revolução da Palha (em 30 anos, Sistema Plantio Direto atinge 20 milhões de hectares no Brasil)


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Publicado em: 01/02/2003

A revolução da palha - em 30 anos o Sistema Plantio Direto atinge 20 milhões de hectares no Brasil

Em outubro de 2002 o Plantio Direto completou 30 anos de existência no Brasil. Durante essas três décadas o sistema ganhou espaço e derrubou tabus. Passou de 200 hectares em 1972 para quase 20 milhões de hectares de área plantada no ano passado. Um crescimento de 100 mil vezes no período. A história do desenvolvimento dessa técnica de produção agrícola no Brasil é muito rica, mas pode ser contada através da história de um de seus precursores. É que a trajetória do plantio direto no Brasil se confunde com a história de vida de um agricultor do norte do Paraná, responsável pela chegada da tecnologia ao País. Descendente de alemães, Herbert Arnold Bartz é um desses casos de homem que faz história e que se transforma em personagem de passagens folclóricas ao mesmo tempo. Com 65 anos, ele introduziu o plantio direto no Brasil e dedicou quase metade da vida à defesa do sistema como única alternativa sustentável para a agricultura mundial. Para Bartz, o plantio direto deixou de ser uma técnica de produção agrícola para se transformar em uma exigência da sociedade atual, que não aceita a produção de alimentos a qualquer custo, principalmente se ela prejudicar o meio ambiente.

As inúmeras ”batalhas” que tem travado nesses 30 anos em defesa da mudança nos conceitos do uso racional de recursos naturais pela agricultura o transformou, além de respeitado especialista em plantio direto, um personagem de embates curiosos. O mais conhecido deles foi quando ao falar em um evento técnico onde pesquisadores concluíram que no norte do Paraná o plantio direto era inviável por conta da compactação em solos argilosos, Bartz disse que para descompactar o solo há várias alternativas, mas concordava que a compactação é um problema sério quando atinge o cérebro das pessoas. Pode parecer desaforo um agricultor, ”sem estudo”, fazer uma afirmação dessa a uma platéia seleta de pesquisadores e engenheiros agrônomos de vários institutos de pesquisa e de extensão rural do Brasil. Desaforo maior, diria ele, é ter que ouvir que o plantio direto gera compactação em solos argilosos depois de 24 anos plantando e colhendo sem aração nem gradagem em terras do norte do Paraná, mais precisamente no município de Rolândia, portanto, terras argilosas.

A primeira vez que Herbert Bartz fez plantio direto em terras argilosas foi em outubro de 1972 e nos anos 90 havia pesquisadores que ainda duvidavam da viabilidade da técnica de produção agrícola sem o revolvimento do solo e com conservação da palhada sobre a terra. O produtor diz que esses são tempos passados. Hoje, tanto as pesquisas oficiais quanto a feita por empresas de insumos e implementos agrícolas assimilaram o plantio direto. Não há mais polêmica entre os produtores pioneiros e a pesquisa. ”Aquilo que nós intuíamos no início, hoje tem comprovação científica, seja no que diz respeito à fertilidade do solo, viabilidade econômica e controle de pragas e doenças, sem dúvida os pesquisadores têm colaborado para acelerarmos o avanço do plantio direto às mais diversas condições e tipos de lavouras”, diz.

Mas não pense que o velho alemão desistiu da guerra. Ele apenas trocou a frente de batalhas. Agora, os adversários são os que ele chama de ”egoístas” da Agricultura Orgânica. ”Eles são egoístas porque não conseguem entender que produzir sem insumos químicos significa reduzir a produção mundial e aumentar a fome, enquanto no plantio direto – sem fundamentalismos - estamos conseguindo reduzir cada vez mais o uso dos recursos sintéticos e barateando a produção de alimentos ao mesmo tempo”. Para Bartz, há duas perguntas que a Agricultura Orgânica não consegue responder. A primeira é o fato de os insumos orgânicos das lavouras serem gerados em outras áreas. ”Não há equilíbrio porque a lavoura ‘rouba’ nutrientes de outro lugar, além de muitas vezes não haver garantia sobre a procedência desses insumos”, diz. Além disso, não se pode defender uma técnica de produção que encarece de 50% a 100% o preço dos alimentos. ”Só uma minoria terá acesso aos alimentos orgânicos”.

A preocupação de Bartz com o que ele chama de estreiteza de visão dos defensores fundamentalistas da agricultura orgânica não é sem motivo. ”Os organismos de fomento à agricultura mundial, tais como FAO e Banco Mundial, são fortemente influenciados por ONG’s de Agricultura Orgânica”. Uma prova disso Bartz conheceu no Congresso Mundial que discutiu a pobreza e a fome, realizado em Johanesburgo, África do Sul, em agosto do ano passado. O agricultor brasileiro tinha sido convidado para falar em duas mesas redondas sobre os avanços gerados pelo plantio direto à agricultura brasileira, em especial à pequena propriedade. Mas os seus espaços foram ”tomados” pela organização do evento por pressão de ONG’s ambientalistas que não aceitavam ouvir sobre uma tecnologia que utiliza produtos químicos para a produção agrícola. Na única oportunidade que teve para debater com defensores da agricultura orgânica, Bartz fez as duas perguntas relatadas acima sobre a origem dos insumos orgânicos e o custo do produto final. Sabe quais foram as respostas? Nenhuma. ”Fizeram um silêncio absoluto, mas mesmo assim eu me senti um pregador no deserto”.

Depois do congresso o produtor ficou mais dois meses viajando pela África e falando sobre o plantio direto a técnicos governamentais e produtores. Nesse período ele teve outra experiência com os ambientalistas ”egoístas”. Havia um navio com 30 mil toneladas de milho BT (modificado geneticamente para ser resistente ao ataque de brocas) doadas por países europeus para combater a fome em algumas regiões da África. O carregamento ficou no navio porque ONG’s ambientalistas não aceitavam que o produto fosse descarregado. ”Diziam que era melhor morrer de fome do que receber esse produto do mundo capitalista. Nesse caso eu acho que eles deveriam mesmo sentir fome para saber o quanto é ruim”, e completa, ”pena que não é essa gente que morre de fome na África, são inocentes, principalmente velhos e crianças, por isso os considero egoístas”.

Essas novas ”batalhas” do velho agricultor alemão em defesa das vantagens do plantio direto são diferentes das antigas, travadas com os pesquisadores. ”Antes era uma questão técnica, nós, os primeiros produtores que carregamos a bandeira do sistema, sabíamos que com o tempo o avanço das pesquisas derrubaria tabus e preconceitos, agora o problema do pessoal da agricultura orgânica é ideológico, e não existe experimento científico que vença a burrice gerada pelos argumentos puramente ideológicos”, lamenta.

As barreiras ideológicas também estiveram presentes na história do plantio direto no Brasil. Em 1982 o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), principal órgão de pesquisa agropecuária do Estado, foi proibido de dar continuidade aos trabalhos sobre o plantio direto com o argumento da Secretaria de Estado da Agricultura de que a técnica beneficiava apenas os grandes produtores. Prova de que se tratava apenas de argumentos ideológicos é que em 1994, apenas doze anos depois, o IAPAR foi o primeiro órgão de pesquisas a testar e validar implementos de tração animal e manual para o uso em áreas de plantio direto na pequena propriedade. A técnica, que nasceu na média e grande propriedade, mostrou ser muito mais útil para a viabilização do pequeno agricultor. Hoje, com a redução de custos provocada pelo uso de plantio direto, a pequena propriedade voltou a ser viável economicamente no sul do País.

Aliás, para Bartz, o principal responsável pela difusão do plantio direto nos próximos anos no Brasil será a pequena propriedade. ”Estou convencido de que a bagagem adquirida nessas três décadas pela tecnologia pode vir a ter um papel importante no programa Fome Zero que o novo governo pretende implantar”, comenta. ”O presidente Lula fala muito em viabilizar a pequena propriedade agrícola, a chamada produção de subsistência, e o plantio direto é uma peça chave nesse processo, estou muito confiante que o sistema crescerá ainda mais nos próximos anos, seja pela vontade política, seja pela compreensão que o novo Ministro da Agricultura (Roberto Rodrigues) tem da importância dessa tecnologia”.

Atualmente o plantio direto está em 20 milhões de hectares cultivados no Brasil. Isso representa cerca de 40% da área de produção nacional. Em alguns Estados, como o Rio Grande do Sul esse número passa dos 90%. Bartz acredita que se houver vontade política esse número pode dobrar nos próximos anos, com o plantio direto chegando a 80% da área cultivada brasileira. ”As duas grandes barreiras no campo ao sistema já foram vencidas”. ”A primeira foi adaptação da tecnologia aos implementos de pequeno porte para o uso em propriedades familiares e a segunda foi a entrada nos cerrados e no Brasil tropical”. Mais de um terço de todo o plantio direto feito no Brasil está localizado em áreas de cerrado.

Para comemorar as três décadas de plantio direto no Brasil Herbert Bartz está recuperando a primeira plantadeira adaptada ao sistema que chegou ao Brasil – importada por ele em 1972. A máquina tem seis linhas para o plantio de milho e oito para soja, além de um reservatório que permitia a aplicação do herbicida Atrazina junto com a semeadura. O detalhe é que àquela época a Atrazina ainda não tinha chegado ao mercado brasileiro e Bartz também teve que importar o produto. ”Vou colocar essa plantadeira em um local de destaque na minha propriedade, junto com a placa dos 20 anos de plantio direto no Brasil, que foi inaugurada em 1983”.

De técnica para combate a erosão, a base doconceito de sustentabilidade

Ex-presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, de 1998 a 2000, atualmente o presidente da Federação é o produtor gaúcho Ivo Melo, quando perguntado sobre o que mais o surpreendeu nesses 30 anos, o precursor do moderno sistema de cultivo no Brasil diz que foi a expansão ‘em profundidade’ que aconteceu. As várias ”camadas” de desenvolvimento do plantio direto começam nas questões técnicas, passam pelas econômicas, ambientais e chegam aos aspectos sociais. ”O surpreendente é que a técnica nasceu como uma forma alternativa de combate à erosão, passou por todas as outras etapas e hoje se transformou em uma filosofia para a agricultura sustentável”. Bartz diz que nem ele, nem nenhum dos outros precursores, tais como Nonô Pereira, Frank Dijkstra, Mauri Sade, e outros da região dos Campos Gerais que começaram a usar o plantio direto em 1976, conseguiam antecipar a importância da técnica para a agricultura brasileira. ”Tínhamos uma intuição, mas não poderíamos imaginar que práticas como a rotação de culturas, uso de coberturas verdes, técnicas alternativas de controle de invasoras e pragas, poderiam ganhar uma dimensão tão grande”.

A primeira ampliação do uso da técnica foi a dimensão ambiental. Descobriu-se que, entre outras coisas, o uso de plantio direto auxilia na redução do efeito estufa mundial. O efeito estufa, aquecimento da terra, é causado pela emissão de gases na atmosfera que reduzem a dissipação de calor para a estratosfera. Um dos principais responsáveis pela produção desses gases é o carbono lançado na atmosfera. Quando o agricultor usa o arado ou as queimadas em suas terras, expõe ao meio ambiente bilhões de formas de microorganismos que não estão adaptados ao novo ambiente. As altas temperaturas fazem com que eles morram e se oxidem. Assim como há oxidação na degradação da palhada que entra em contato com o solo após a incorporação. Todo esse processo libera carbono à atmosfera. Quando se usa o plantio direto, microorganismos do solo não são revolvidos, permanecendo em seu habitat natural. Além disso, a degradação da matéria orgânica sem incorporação gera menos oxidação, o que resulta no seqüestro de carbono atmosférico. ”Esse efeito de seqüestro do carbono pelo fim do uso de queimadas e de arações da terra eu considero uma benção divina”.

Em sua dimensão econômica, as vantagens são evidentes. Apesar da necessidade de se cultivar uma cobertura verde – normalmente de inverno – que não tem fins comerciais, a técnica mostra-se muito mais rentável. Só a redução de combustível nas lavouras, pela menor necessidade de máquinas, é de 65%. Há redução de mão-de-obra e de insumos químicos, principalmente os adubos sintéticos. Nos últimos anos a rotação de culturas e outras práticas alternativas têm colaborado para uma menor necessidade de agroquímicos. Por exemplo, as lavouras de soja na propriedade de Bartz não recebem nenhuma aplicação de inseticida químico. Ele usa apenas baculovírus. ”Descobri que com as folhas comidas pelas lagartas há mais aeração e ensolação das partes inferiores das plantas, o que ajuda a combater os fungos e melhora a produtividade”, conta.

Em sua dimensão social, o plantio direto ajudou a manter milhares de famílias de pequenos agricultores em suas propriedade familiares, colhendo milho, feijão e fumo de forma comercial. O que antes era inviável, passou a ser rentável graças a redução dos custos de mão-de-obra e depreciação de equipamentos. ”Nunca pensei que a realidade fosse ultrapassar as minhas expectativas, mas ela passou”.

Biodiversidade da mente humana e agricultures loucos

Outra das frases folclóricas é usada por Bartz para justificar as restrições que a técnica ainda enfrenta por parte de alguns agricultores: ”essas restrições devem-se à imensa biodiversidade da mente humana”. Passados 30 anos após ter sido chamado de louco, Bartz foi convidado recentemente por um amigo agricultor do norte do Estado de São Paulo para dar uma palestra aos produtores dessa região. ”Ele me telefonou e disse: Bartz, preciso que você venha conversar com o pessoal aqui em um dia de campo porque plantei uma pequena área de milho pelo sistema direto e todo mundo está dizendo que eu enlouqueci”, e completa, ”a única explicação que tenho para isso é que algumas pessoas, órgãos de pesquisa e governos têm mais dificuldade para compreender as transformações”. De uma coisa ele tem certeza: loucos são aqueles que insistem em fazer uma agricultura predatória, só retirando da natureza, sem se preocupar com o respeito aos recursos naturais. É preciso ter uma visão ampla, holística, da agricultura para compreender os efeitos que uma ação predatória pode ter a longo prazo. ”Não há mais espaço para os ‘idiotas especializados’ que conhecem muito bem apenas uma pequena parte do processo, mas são completos ignorantes no restante, os agricultores precisam ter uma visão humboldiana”. O termo visão humboldiana nasceu do fato de um alemão de sobrenome Humbold ter gasto toda a sua fortuna no início do século XIX percorrendo as florestas tropicais da América do Sul. Na Alemanha ele foi considerado louco, mas pouco tempo depois os estudos sobre a fauna e flora sul-americanas feitos por Humbold anteciparam a importância dessa região para toda a humanidade. ”A vantagem em ser um humboldiano defensor do plantio direto é que ao invés de gastar fortunas – coisa que os agricultores brasileiros não têm – estamos conseguindo viabilizar técnica e economicamente nossa atividade”, completa. ”pois ‘dentro da porteira’ a agricultura brasileira é competitiva com qualquer país do mundo”. Tanto é assim que há alguns meses Bartz foi ao Maranhão falar a agricultores sobre plantio direto e a pessoa que foi apresentá-lo, funcionário de uma multinacional de insumos agrícolas, disse que tinha estado nos Estados Unidos poucos dias antes, quando realizavam-se discussões sobre subsídios agrícolas, e que percebeu que os americanos têm medo de apenas dois grupos de pessoas: de terroristas e de agricultores brasileiros. ”Não é muito agradável estar ao lado de terroristas, mas como agricultor brasileiro, apesar dos problemas financeiros pelos quais passamos, esse reconhecimento da nossa competência me deixa orgulhoso”.

As três décadas do PD no Brasil

1972 – o agricultor Herbert Bartz planta 200 hectares de soja sobre a palhada, sem fazer aração nem gradagem. Assim é introduzido o plantio direto no Brasil. Um ano ano ele havia comprado, ao preço de U$ 8 mil uma plantadeira norte-americana adequada para o plantio sobre palha, pois no Brasil não existia esse tipo de implemento. A idéia era fazer apenas uma experiência de 20 hectares em 1972. O problema é que houve uma geada forte naquele ano e Bartz perdeu toda a sua produção de trigo. Como não havia seguro ele foi obrigado a vender todos os seus implementos de plantio convencional para cobrir os prejuízos. A única coisa que sobrou foi a plantadeira americana de plantio direto que ainda não tinha chegado ao Brasil. Por isso ele foi ”obrigado” a cultivar toda a área de sua propriedade pelo novo sistema.

1975 – Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) firma o primeiro convênio com a multinacional ICI para pesquisas em sistemas de cultivo sobre palha no Estado. Agricultores da região dos Campos Gerais começam a usar a técnica de plantio direto como forma de controle da erosão.

1979 – É fundado em Ponta Grossa o Clube da Minhoca, que reuniu agricultores da região pioneiros na defesa do plantio direto como forma de melhorar a fertilidade dos solos arenosos da região.

1982 – dez anos após a primeira ”experiência” havia no Brasil cerca de 1.000 hectares cultivados por plantio direto. Foi nos anos 80 que começaram a acontecer os primeiros encontros nacionais sobre a nova tecnologia de cultivo, o que ampliou a divulgação do sistema para o sul do Brasil.

1992 – vinte anos após a chegada da plantadeira de Herbert Bartz já eram 1.000.000 de hectares em plantio direto, principalmente nos três Estados do sul do País. Nesse ano foi criada a Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha para representar o Brasil na CAAPAS (entidade latino-americana que reúne federações nacionais de agricultura conservacionista).

1994 – Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, IAPAR e multinacionais fabricantes de implementos agrícolas firmam convênio para desenvolver equipamentos de uso em áreas de plantio direto com tração animal, indicadas para a pequena propriedade.

1996 – Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha intensifica ações para difusão do sistema na região do Cerrado brasileiro. São realizados dois encontros nacionais, um em Goiânia e outro em Brasília. Isso fez com que fosse acelerado o crescimento da área com plantio direto no Brasil tropical.2002 – Trinta anos após o plantio dos 200 hectares, o plantio direto chega a quase 20 milhões de hectares no Brasil, cerca de um terço nas regiões de cerrado. Isso representa quase 40% do total de terras agricultáveis anualmente no Brasil.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, Ano XII, Edição 73, Janeiro/Fevereiro de 2003, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS