Amostragem de Pragas-de-Solo sob Plantio Direto (Dirceu Gassen)


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Publicado em: 01/12/2002

Amostragem de pragas-de-solo sob plantio direto

Dirceu N. GassenEngenheiro agrônomo, gerente técnico da Cooplantio (Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto)E-mail: dirceu@agri.com.brTomar decisões sobre o controle de pragas sem conhecer as características biológicas e a distribuição das populações na lavoura, pode ser comparado à administração de um negócio sem conhecer as características do produto e o estoque disponível.O conhecimento sobre a amostragem de populações é a base para a projeção de danos e o manejo adequado de pragas em agricultura.No passado, com a queima de palha e o preparo de solo não havia fauna para ser determinada ou monitorada até a semeadura, a instalação das plantas e o início do desenvolvimento vegetativo.Para facilitar a compreensão da amostragem e do monitoramento, as pragas associadas a plantas de lavouras podem ser agrupadas em imigrantes, associadas à cultura anterior, e residentes na lavoura.As pragas imigrantes não estão presentes na lavoura no momento da semeadura e invadem a lavoura na fase de desenvolvimento vegetativo das plantas. Algumas espécies voam longas distâncias (pulgões, as mariposas que põem ovos e dão origem a lagartas, a mosca-branca) e outras invadem a lavoura a partir de áreas vizinhas ou próximas (percevejos, vaquinhas, besouros, cigarrinhas e gafanhotos). Para esse grupo de pragas o monitoramento deve ser feito durante o desenvolvimento vegetativo da cultura e com base na ocorrência de surtos em regiões nas proximidades da lavoura.As pragas associadas à cultura anterior (aveia, nabo-forrageiro, azevém, milheto, pastagens, plantas daninhas etc.) e dessecada, imediatamente antes da semeadura sob plantio direto, têm fauna específica relacionada a cada planta hospedeira, que necessita ser monitorada para evitar danos na fase de germinação de plantas cultivadas.A fauna residente na lavoura (corós, grilos, lesmas, formigas, cupins e tamanduá-da-soja) apresenta ciclo biológico longo e está presente na lavoura o ano todo, em uma das fases de desenvolvimento do animal. Os danos causados pela praga ocorrem num período do ano ou numa fase de desenvolvimento do inseto. A fase de germinação das culturas com baixa população de plantas (milho, algodão, girassol, soja e feijão) sofrem os maiores danos de pragas-de-solo. Por exemplo, o adulto do tamanduá-da-soja causa danos em novembro e dezembro, o grilo em outubro a novembro, os corós no sul do Brasil em junho a setembro e nos cerrados em fim dezembro a março.Os corós podem ser agrupados em espécies que cavam e mantém galerias abertas e as que se movimentam na superfície do solo sem galerias. As espécies Diloboderus abderus e Bothynus spp., mais freqüentes em lavouras sob plantio direto, cavam galerias verticais e orifício de forma cilíndricaAs espécies de corós que não cavam galerias (Phyllophaga spp., Anomala spp., Liogenys spp., Plectris sp.) se encontram na camada superficial e desestruturada do solo, na fase em que causam danos. São facilmente localizados no processo de remoção de solo superficial com a enxada.Os grilos cavam galerias, porém se diferenciam dos corós por apresentarem na superfície duas saídas, na forma de “Y”. A galeria apresenta orifício de forma elíptica e ângulo de aproximadamente 45 graus em relação à superfície do solo.As espécies de ciclo biológico anual estão presentes na lavoura meses antes da semeadura e podem ter a população e a distribuição na lavoura, estimadas pela amostragem.O método de amostragem para decidir sobre níveis de danos e para tomar a decisão de controle, deve ser rápido, fácil de ser executado e oferecer segurança na estimativa de populações de pragas.As melhores estimativas de populações podem ser feitas a partir do conhecimento do hábitat e da biologia do inseto. Por isso, o plano de amostragem ideal deve ser desenvolvido por grupos de pragas com hábitos semelhantes, considerando o tipo de cobertura de solo, a sucessão de culturas, o grau de dependência do inseto relativamente à planta cultivada e a distribuição de plantas na lavoura.A peneiragem de amostras de solo, a lavagem com água, a extração de pragas com calor, com métodos químicos ou remoção manual são métodos usados em pesquisa. Porém, são impraticáveis para estimativas de populações pragas em lavouras extensivas.A pá-de-corte está sendo indicada para a amostragem de corós com as restrições de tempo longo para a coleta da informação e a perda de insetos que cavam galerias mais profundas do que o corte da pá.A enxada usada para capina manual de plantas daninhas foi adotada para a raspagem de solo superficial e para cavar galerias de pragas. As enxadas de tamanho menor, com lâmina de 12 a 15 cm são mais fáceis de serem manuseadas e facilitam o processo de localização das galerias.Com o objetivo de comparar a eficiência e o tempo necessário para tomar cada unidade de amostragem foram comparados os métodos da pá-de-corte e da enxada. O teste foi realizado em lavouras conduzidas sob plantio direto e infestadas com populações de corós e de grilos.A amostragem com a pá-de-corte foi realizada em áreas de 0,5 m de comprimento, 0,2 m de largura e profundidade de 0,2 m (Figura 1). Os torrões foram quebrados e a presença de insetos foi determinada visualmente. A enxada foi usada em quadrados com 0,5 m de lado, removendo o solo desestruturado da superfície até a raspagem da camada adensada e a identificação de galerias de insetos (Figura 1). O solo removido foi examinado manualmente para determinar a presença de pragas.A velocidade de amostragem com o método da enxada (48 segundos/amostra) foi quatro vezes mais rápida do que o método da pá-de-corte (198 segundos/amostra) (Figura 2). A estimativa de populações de grilos foi idêntica para os dois métodos testados (Figura 2). Para corós o método da enxada foi pouco mais eficiente. Os corós que cavam galerias e estão posicionados em profundidade maior podem ser perdidos com o método da pá-de-corte.Na raspagem da superfície do solo com o método da enxada percebe-se visualmente as galerias cavadas por insetos. As galerias de corós são cilíndricas e verticais e as de grilos apresentam dois orifícios na forma de “Y” (Figura 3).A larva do tamanduá-da-soja passa a fase de diapausa no solo a partir de março e até novembro, junto à fileira de soja da safra anterior. A raspagem da camada superficial do solo nos meses de outono, inverno e início da primavera, permite localizar as larvas, determinar o índice de sobrevivência e a necessidade de adotar estratégias de rotação de culturas com milho ou de controle na semeadura de soja.As larvas são localizadas em câmaras seladas entre 2 e 5 cm dentro da camada adensada de solo. Em geral, entre 10 e 15 cm de profundidade a partir da superfície do solo (Figura 3).A enxada constitui-se em ferramenta útil para a amostragem de corós, grilos, tamanduá-da-soja e outros insetos de solo. Também é usada para determinar a preparação do sulco de semeadura, de posicionamento de sementes e adubo, desenvolvimento de raízes e o adensamento de solos.O agricultor e o assistente técnico necessitam criar o hábito de monitorar a fauna residente nas lavouras para tomar decisões acertadas de manejo de pragas, antes que os danos ocorram na lavoura.Há necessidade de qualificar e treinar operários de campo para a amostragem e o monitoramento de populações de pragas residentes nas lavouras. Assim pode-se determinar as áreas com potencial de danos e adotar estratégias de manejo da praga, antes da germinação das plantas, quando pouco pode ser feito para a proteção das culturas contra pragas-se-solo.