Análise de Custos e Rentabilidade de Alternativas de Plantio Direto e Convencional — Estudo de Caso para um Sistema de Rotação em São Paulo


Autores:
Publicado em: 01/12/2002

Análise de custos e rentabilidade de alternativas de plantio direto e convencional - estudo de caso para um sistema de rotação em São Paulo

Marli Dias Mascarenhas Oliveira e Alceu de Arruda Veiga FilhoPesquisadores Científicos do IEA – Campinas -SP - marli@iea.sp.gov.br, aveigafilho@iea.sp.gov.brDos 13,47 milhões de hectares ocupados com o plantio direto no Brasil, por volta de 4 milhões (ou 31%) localizam-se no Paraná. O restante encontra-se concentrado nos estados federativos das regiões centro-oeste, sudoeste e sul (Revista Plantio Direto, 2001). Em relação ao total, a participação paulista é bastante baixa (em torno de 4%). Informa-se uma participação de 550 mil hectares, significando atualmente 35% da área total de grãos no Estado (PLANTIO, 2001). O aumento dessa área tem sido estimulado por meio da implantação recente de políticas públicas do governo estadual. A fim de colaborar com o estímulo que vem sendo dado a este sistema de plantio no estado, este estudo objetiva fazer uma avaliação econômica do sistema de produção do plantio direto na produção de grãos, levantando informações de uma propriedade rural do município de Campos Novos Paulista/SP, na qual essa técnica já é tradicionalmente adotada. Os dados foram levantados em uma propriedade agrícola que utiliza alta tecnologia na produção. As culturas analisadas foram: milho, soja, girassol e aveia formando um modelo de rotação. Os sistemas de produção foram classificados conforme o sistema de plantio (direto e convencional) e o controle de ervas daninhas com diferentes aplicações de herbicidas: T1 = plantio direto, onde o plantio é realizado juntamente com a aplicação de herbicida; T2 = plantio direto onde realiza-se o plantio e após faz-se uma aplicação de herbicida pré-emergente; T3 = plantio direto onde realiza-se o plantio e após faz-se uma aplicação de herbicida pós-emergente; e T4 = plantio convencional onde realiza-se o plantio e em seguida faz-se uma aplicação de herbicida pré-emergente. A análise de custos e rentabilidade foi feita para o ano agrícola 2000/2001, utilizando-se da metodologia descrita em MARTIN et al. (1998). A estrutura de custos adotada foi: Custo Operacional (CO): despesas efetuadas com insumos, operações de máquinas, veículos e equipamentos e Custo Operacional Total (COT): é o CO acrescido dos encargos sociais, contribuição à seguridade social rural, seguro para as culturas de verão considerando a região de plantio, juros de custeio, depreciação de máquinas, outros custos fixos de máquinas relativos a abrigo, seguro e juros sobre o capital investido em máquinas.Resultados: análise dos custos

Para o milho, o sistema T1 apresentou os menores valores de COT de R$ 615,89/ha ou R$ 5,60/sc de 60 kg (Tabela 1). Esse resultado apresenta-se favorável devido ao uso do protótipo na operação de plantio aliado ao preço relativo dos herbicidas utilizados para o controle de plantas daninhas.

Tabela 1. Custo de Produção e Participação Percentual, Milho, Produção de 6.600kg/ha, 2000/01

T1

T2

T3

T4

Item

R$

CO

COT

R$

CO

COT

R$

CO

COT

R$

CO

COT

%

Máquinas

55,46

11

9

58,24

11

9

61,20

10

9

95,57

18

14

Mão-de-obra

11,21

2

12,56

2

13,61

2

20,33

4

3

Operação de máquinas

66,67

13

11

70,80

14

11

74,81

13

11

115,90

22

17

Herbicida

92,80

18

15

92,80

18

15

169,50

29

24

62,80

12

9

Outros materiais

344,43

68

56

344,43

68

55

344,43

59

48

344,43

66

52

Despesas com material

437,22

87

71

437,22

86

69

513,73

87

72

407,22

78

61

Custo operacional

503,90

100

82

508,02

100

80

588,73

100

83

523,13

100

79

Depreciação de máquinas

27,73

5

37,80

6

30,49

4

40,29

6

Outros custos fixos de máquinas

29,63

5

30,32

5

31,34

4

41,36

6

Custos fixos da cultura

54,63

9

44,30

9

59,95

8

58,67

9

Custo Operacional Total

615,89

100

631,43

100

710,51

100

663,43

100

Custo por saca

5,60

5,74

6,46

6,03

Fonte: Dados da pesquisa

O sistema de plantio convencional (T4), apresenta os maiores valores de custo por hectare e por saca e maior participação percentual do item operação de máquinas, 18% do CO e 14% no COT, devido ao maior número de horas máquinas utilizadas principalmente nas operações de preparo do solo (Tabela 2a e 2b)

Tabela 2a. Utilização de horas máquinas por hectare analisados nos diferentes sistemas de produção

MILHO

SOJA

Sistema

Trator (cv)

Colhed.

Total

Trator (cv)

Colhed.

Total

145

80

145

80

T1

0,67

1,04

0,71

2,42

0,77

1,08

0,67

2,52

T2

0,67

1,28

0,71

2,66

0,67

1,56

0,67

2,90

T3

0,67

1,52

0,71

2,90

0,67

1,32

0,67

2,66

T4

2,20

2,28

0,71

5,19

2,24

2,32

0,67

5,23

Fonte: dados da pesquisa

Tabela 2b. Utilização de horas máquinas por hectare analisados nos diferentes sistemas de produção

GIRASSOL

AVEIA

Sistema

Trator (cv)

Colhed.

Total

Sistema

Trator (cv)

Colhed.

Total

145

80

145

80

T1

0,67

0,80

0,67

2,14

Palha

0,5

1,84

------

2,34

T2

0,67

1,04

0,67

2,38

Grão

0,5

0,60

0,50

1,60

T3

0,67

1,28

0,67

2,62

T4

2,20

2,04

0,67

4,91

Fonte: dados da pesquisa

O sistema T3, apresenta o maior custo de produção dentre os sistemas de plantio direto. Este é inviabilizado pelo preço relativo do herbicida, pois enquanto nos sistemas T1 e T2 a participação percentual deste item, é 18% e 15% no COT, em T3 essas participações elevam-se para 29% e 24% respectivamente. Na cultura da soja o sistema T3 apresentou o menor custo de produção, com COT de R$ 387,80/ha e R$ 7,76/sc de 60kg (Tabela 3).

Tabela 1. Custo de Produção e Participação Percentual, Milho, Produção de 3.000kg/ha, 2000/01

T1

T2

T3

T4

Item

R$

CO

COT

R$

CO

COT

R$

CO

COT

R$

CO

COT

%

Máquinas

57,40

20

15

60,84

21

15

57,87

20

15

95,95

31

22

Mão-de-obra

12,13

4

3

13,92

5

3

12,87

4

3

20,76

7

5

Operação de máquinas

69,53

24

18

74,76

25

19

70,74

25

18

116,71

38

27

Herbicida

76,20

26

20

76,20

26

19

70,88

25

18

46,20

15

11

Outros materiais

144,56

50

37

144,56

49

36

144,56

51

37

144,56

47

33

Despesas com material

220,76

76

57

220,76

75

55

215,44

75

56

190,51

62

44

Custo operacional

290,29

100

74

295,52

100

74

286,18

100

74

307,23

100

71

Depreciação de máquinas

29,33

8

30,35

8

28,75

7

40,38

9

Outros custos fixos de máquinas

29,69

8

30,22

8

29,20

8

40,45

9

Custos fixos da cultura

46,63

12

50,65

13

49,74

13

53,65

12

Custo Operacional Total

390,65

100

400,67

100

387,80

100

435,60

100

Custo por saca

7,81

8,01

7,76

8,71

Fonte: Dados da pesquisa

O item de despesa com máquinas apresentou nos sistemas T1, T2, e T3 a mesma participação percentual no CO e no COT, de 20% e 15% respectivamente, com pequenas diferenças no uso de mão-de-obra. A vantagem apresentada no sistema T3 em relação ao T2 é o número de aplicações de herbicidas e inseticidas. No sistema T2 faz-se cinco pulverizações, enquanto que no sistema T3 a combinação entre herbicidas e inseticidas permite a realização de somente quatro pulverizações.O sistema T4, que realiza o plantio convencional, apresentou o maior custo total e também a maior participação percentual no item operações de máquinas, sendo 31% no CO e 22% no COT. Superior em decorrência do maior número de horas máquinas utilizadas nas operações que envolvem o preparo do solo (Tabela 2).O menor custo de produção do girassol foi o do sistema T3 com COT de R$ 415,78/ha e R$ 3,78/sc de 60kg. Embora este sistema tenha apresentado participação percentual maior que os sistemas T1 e T2 (Tabela 4), o menor gasto no item herbicida é que viabilizou o menor custo neste sistema .

Tabela 4. Custo de Produção e Participação Percentual, Girassol, Produção de 2.350kg/ha, 2000/01

T1

T2

T3

T4

Item

R$

CO

COT

R$

CO

COT

R$

CO

COT

R$

CO

COT

%

Máquinas

46,28

11

10

49,05

12

10

52,02

16

13

86,39

20

16

Mão-de-obra

9,29

2

10,33

3

2

11,38

3

18,10

4

3

Operação de máquinas

55,57

14

12

59,38

15

12

63,40

19

15

104,49

25

20

Herbicida

151,50

37

31

151,50

37

30

62,90

19

15

121,50

29

23

Outros materiais

197,30

49

41

197,30

48

40

197,30

59

47

197,30

47

37

Despesas com material

348,80

86

72

348,80

85

70

270,20

81

65

318,80

75

60

Custo operacional

404,36

100

84

408,18

100

82

333,59

100

80

423,29

100

80

Depreciação de máquinas

24,09

5

34,16

7

26,85

6

36,64

7

Outros custos fixos de máquinas

26,60

6

27,29

5

28,31

7

38,33

7

Custos fixos da cultura

27,85

6

28,28

6

27,03

7

31,17

6

Custo Operacional Total

482,91

100

497,91

100

415,78

100

529,42

100

Custo por saca

4,39

4,53

3,78

4,81

Fonte: Dados da pesquisa

A diferença entre os sistemas T2 e T3, de plantio direto, está em relação ao número de herbicidas utilizados. Enquanto o sistema T2 utiliza dois produtos em uma única aplicação, o sistema T3 utiliza dois produtos em duas aplicações, evidenciando que o preço relativo dos herbicidas é maior que o custo relativo da operação de aplicação dos produtos.Também nesta cultura o sistema T4, de plantio convencional, apresenta o maior custo e os maiores números de horas máquinas nas operações, com comportamento semelhante ao das culturas de milho e soja onde o sistema apresenta níveis de utilização próximos aos 50% maiores que no plantio direto (Tabela 2).O custo de produção de aveia para grãos é muito próximo ao da produção para palhada. A principal diferença está na operação de máquinas que para grãos representam 13% e 11% do CO e COT, sendo que para palhada os valores para os dois custos é 9%. A Tabela 2 apresenta o número de horas utilizadas com máquinas nos dois sistemas. Para produção de palhada utiliza-se maior quantidade de herbicida de dessecação, o que torna o custo com materiais maior do que na produção de grãos.

Tabela 5. Custo de produção e participação percentual, aveia, produção de 1.500 kg/ha, 2000/01

GRÃOS

PALHADA

ITEM

R$

CO

COT

R$

CO

COT

%

Máquinas

39,10

13

11

31,58

9

Mão-de-obra

7,59

3

2

8,76

3

Operação de máquinas

86,35

16

13

40,34

12

Herbicida

54,09

18

16

84,09

25

24

Outros materiais

192,07

66

55

192,07

56

55

Despesas com Material

246,15

84

71

276,15

81

79

Custo operacional

292,85

100

84

341,49

100

91

Depreciação de máquinas

19,48

6

16,40

5

Outros custos fixos de máquinas

20,54

6

12,23

4

Custos fixos da cultura

14,97

4

2,89

1

Custo Operacional Total

347,84

100

348,01

100

Custo por saca

0,23

Fonte: Dados da pesquisa

Resultados: análise das rentabilidades

Tabela 6. Indicadores econômicos para análise da rentabilidade da cultura do milho

Indicador

T1

T2

T3

T4

Receita bruta(1) (R$/ha)

1.045,00

1,045,00

1.045,00

Fluxo de caixa (R$)

456,84

451,37

364,98

421,86

Margem bruta (CO) (%)

107

106

78

100

Margem bruta (COT) (%)

70

65

47

58

Ponto de equilíbrio (CO) (sc)

53

62

55

Ponto de equilíbrio (COT) (sc)

65

66

75

70

Lucro operacional (R$)

559,35

549,33

562,20

514,79

Índice de lucratividade (%)

59

58

59

54

(1) Produção de 50 sc/ha e preço de venda de R$ 19,00/sc

Fonte: dados da pesquisa

No milho os sistemas que apresentaram indicadores de rentabilidade mais favoráveis foram os sistemas T1 e T2, com pequenas diferenças (Tabela 6). A margem bruta e o ponto de equilíbrio apresentam, em relação ao CO e ao COT, similaridade nos dois sistemas, ocorrendo o mesmo para os demais índices. Para o sistema de produção de plantio convencional tanto o LO como o IL mostram-se os menos favoráveis relativamente aos demais sistemas.

Tabela 7. Indicadores econômicos para análise da rentabilidade da cultura da soja

Indicador

T1

T2

T3

T4

Receita bruta(1) (R$/ha)

950,00

Fluxo de caixa (R$)

588,68

579,68

590,95

555,60

Margem bruta (CO) (%)

227

221

232

209

Margem bruta (COT) (%)

143

137

145

118

Ponto de equilíbrio (CO) (sc)

15

16

15

16

Ponto de equilíbrio (COT) (sc)

21

20

23

Lucro operacional (R$)

559,35

549,33

562,20

514,79

Índice de lucratividade (%)

59

58

59

54

(1) Produção de 50 sc/ha e preço de venda de R$ 19,00/sc

Fonte: dados da pesquisa

Para a soja, o sistema de produção T3 apresenta os melhores indicadores de rentabilidade. Sua produção, após atingir o ponto de equilíbrio, apontam um LO de R$ 562,00/ha, reflexo da maior margem bruta entre os sistemas de produção analisados. O LO é de 59%, refletindo maior competitividade, principalmente em relação ao sistema de plantio convencional, T4 (Tabela 7).

Tabela 8. Indicadores econômicos para análise da rentabilidade da cultura do girassol

Indicador

T1

T2

T3

T4

Receita bruta(1) (R$/ha)

702,00

Fluxo de caixa (R$)

243,18

238,25

313,07

209,22

Margem bruta (CO) (%)

53

51

80

42

Margem bruta (COT) (%)

74

72

110

66

Ponto de equilíbrio (CO) (sc)

24

20

26

Ponto de equilíbrio (COT) (sc)

21

18

22

Lucro operacional (R$)

297,64

293,82

368,41

278,71

Índice de lucratividade (%)

42

52

40

(1) Produção de 50 sc/ha e preço de venda de R$ 19,00/sc

Fonte: dados da pesquisa

No girassol o sistema T3 é o mais competitivo em termos de rentabilidade (Tabela 8). Nesse sistema o ponto de equilíbrio em relação ao COT, é de 18 sacas, enquanto que nos sistemas T1 e T2 esse valor é de 21 sacas, exigindo produção de três sacas a mais por hectare para cobrir o mesmo tipo de custo. O sistema T3 apresenta IL de 10 pontos percentuais superior em relação aos sistemas T1 e T2. Comparando-se este índice com o do sistema de plantio convencional a superioridade é de 12%, apontando o sistema T3 como de alta competitividade em relação às condições apresentadas. A aveia mostrou desempenho ineficiente, em termos de indicadores de rentabilidade, tanto para a produção de grãos como para a produção de palhada. No entanto, deve-se considerar os benefícios intangíveis obtidos com a produção de palhada.

ConclusãoPara todas as culturas analisadas os custos de produção dos sistemas de plantio direto são menores que os de plantio convencional. Entre os sistemas de plantio direto os que apresentaram maior rentabilidade foram os mesmos que possuem menores custos totais e por saca. Entre estes, os que possuem menores gastos com herbicida mostraram-se os mais competitivos, destacando-se, entre esses, os herbicidas pós-emergentes.Referências bibliográficas

REVISTA PLANTIO DIRETO. Editorial, Aldeia Norte Editora , edição nº. 63, maio/junho de 2001.MARTIN, N. B.; SERRA, R.; OLIVEIRA, M. D. M.; Sistema Integrado de Custos Agropecuário- CUSTAGRI. Informações Econômicas, São Paulo, v.28, n.1, jan. 1998.PLANTIO direto é usado em 44% da área agrícola. Agrolink, no. 864, 24 de agosto de 2001.

Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, edição nº 72, novembro/dezembro de 2002. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS