Manejo integrado na cultura do milho e de feijão
Erivelton Scherer RomanEng.-Agr., Ph. D., Pesquisador da Embrapa TrigoCaixa Postal 451, CEP 99001-970 - Passo Fundo, RS. eroman@cnpt.embrapa.brTradicionalmente, o manejo de plantas daninhas têm se utilizado do controle químico. Mais recentemente, com os problemas causados pelo uso indevido de herbicidas e pelo impacto que causam no ambiente e nos custos de produção, medidas complementares e alternativas a eles, têm sido empregadas. Entre essas alternativas, o uso de restos de culturas, através de seus efeitos físicos e alelopáticos, tem se mostrado efetivo. Embora a alelopatia tenha potencial no manejo de plantas daninhas, são necessários ainda estudos para a comprovação de sua importância em condições de campo. No entanto, é reconhecido que a cobertura morta, proporcionada por restos de culturas, desempenha papel importante no controle de plantas daninhas, em plantio direto, pois muitas espécies não germinam se cobertas por uma camada uniforme de palha, o fazendo somente quando pelo menos parte dos resíduos se decomporem. Isso causa atrasos na germinação de sementes e na emergência de plântulas, reduzindo as populações dessas espécies indesejáveis na cultura. Esses efeitos dependem do tipo de restos de cultura e de sua distribuição e quantidade, assim como das condições climáticas. Os restos culturais de aveia preta têm demonstrado grande potencialidade no controle de plantas daninhas no sistema plantio direto. Além de produzir grande quantidade de matéria seca, cobrindo o solo, a cultura pode ser usada para a produção de sementes e de forragem para a produção de carne e de leite, possibilitando importante renda aos agricultores. O azevém é outra espécie utilizada para tal propósito, devido ao fato de ser uma espécie adaptada, com ressemeadura natural e controlar várias espécies de plantas daninhas, como papuã, milhã e guanxuma. No entanto, assim como a aveia preta, pode infestar as próximas culturas de inverno, constituindo-se planta daninha a essas espécies.Trabalhos de pesquisa realizados no Rio Grande do Sul demonstraram que os resíduos culturais de espécies de inverno, mantidos na superfície do solo, controlam algumas espécies de plantas daninhas que germinam e se desenvolvem durante o verão, possibilitando, pelo menos, a redução no uso de herbicidas dessecantes. Assim, restos culturais de aveia preta, de aveia branca, de azevém, de nabo forrageiro e de ervilhaca foram os mais eficientes no controle de plantas daninhas em pré-semeadura de culturas anuais (Tabela 1).
Tabela 1. Controle de plantas daninhas (em %) em pré-semeadura por restos de culturas mantidos na superfície do solo (Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS, 1991/92)
Espécie de planta daninhas
Resto cultural
Guanxuma
Corriola
Picão
Controle Médio
(Sida rhombifolia)
(Ipomoea grandifolia)
(Bidens pilosa)
Aveia preta
100,0
Colza
91,2
77,5
67,5
78,7
Aveia branca
97,5
100,0
99,2
Trigo
0,0
Nabo forrageiro
97,5
98,7
97,9
Centeio
65,0
62,5
57,5
61,7
Ervilhaca comum
97,5
100,0
98,3
Aveia preta + ervilhaca
97,5
100,0
99,2
Azevém
100,0
Durante o ciclo da cultura, os restos culturais de aveia preta, de aveia branca e de azevém foram os mais eficientes no controle de guanxuma, de papuã e de picão preto (Tabela 2).
Tabela 1. Controle de plantas daninhas (em %) em pré-semeadura por restos de culturas mantidos na superfície do solo (Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS, 1991/92)
Espécie de planta daninhas
Resto cultural
Guanxuma
Corriola
Picão
Controle Médio
(Sida rhombifolia)
(Ipomoea grandifolia)
(Bidens pilosa)
Aveia preta
77,5
100,0
92,5
Colza
20,0
87,5
100,0
69,2
Aveia branca
76,2
100,0
92,1
Trigo
0,0
75,0
30,0
35,0
Nabo forrageiro
0,0
87,5
72,5
53,3
Centeio
0,0
88,7
100,0
62,9
Ervilhaca comum
0,0
60,0
40,0
Aveia preta + ervilhaca
67,5
92,5
100,0
86,7
Azevém
82,5
100,0
94,2
Os sistemas de produção usados no Sul do Brasil, nos quais duas culturas são semeadas no mesmo ano, possibilitam que os restos culturais sejam usados também em programas de manejo integrado de plantas daninhas. Nesses programas, pode-se usar herbicidas de pós-emergência, onde e quando ocorrerem plantas daninhas cujo controle por restos culturais não tenha sido suficiente para que o desenvolvimento da cultura ocorra sem a interferência dessas plantas indesejáveis. Escapes podem ocorrer em anos com condições erráticas de clima, quando a umidade do solo é suficiente para a germinação de sementes de plantas daninhas, mas não o é para lixiviar possíveis compostos alelopáticos de restos culturais para o solo. Escapes podem ocorrer também em anos chuvosos, quando esses compostos, por serem de elevada solubilidade em água, são lavados para camadas mais profundas do solo, abaixo da camada onde germinam as plantas daninhas.A distribuição de restos culturais na superfície do solo é importante para que haja formação de uma camada uniforme de palha. No caso de culturas que se destinam também à produção de grãos, o emprego de picador e de distribuidor de palha, bem regulados e balanceados, capazes de fracionar a palha e de distribuí-la uniformemente na mesma largura da plataforma de corte da automotriz, facilita a operação de semeadura da cultura seguinte e o controle de plantas daninhas. Quando a palha é uniformemente distribuida sobre o solo, obtém-se máximos efeitos físicos e químicos sobre as plantas daninhas, ocorrendo, também, melhor funcionamento de herbicidas que por ventura sejam necessários para complementar o controle.No Herbishow 2002, apresentado na Embrapa Trigo no dia 20 de Fevereiro deste ano, foi demonstrada a possibilidade da redução do uso de herbicidas, tanto na cultura de soja com na de milho, através do manejo integrado das plantas daninhas que infestam essas culturas, pelo uso combinado de densidade adequada de plantas da cultura, boa quantidade de palha da cultura anterior. Assim, no milho, por exemplo, com uma densidade de 60.000 plantas por hectare e a presença de 6 toneladas de palha de trigo, com o uso de apenas a metade da dose de um herbicida comumente recomendado e usado na cultura, foi possível um controle de 100 % das ervas daninhas presentes, contra um controle de apenas 80 % quando a palha não estava presente Foi também observado que nos tratamentos que incluíram resíduos culturais, as plantas daninhas emergem estioladas e fracas, sendo, provavelmente por isso, que elas são de controle mais fácil nesses sistemas de produção.
Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, edição nº 72, novembro/dezembro de 2002. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS