Tecnologia de Aplicação de Defensivos


Autores:
Publicado em: 01/12/2002

Tecnologia de aplicação de defensivos

José RuedellFundacep Fecotrigo - Caixa Postal 10 - 98100-970 - Cruz Alta-RS - Fone: (55) 3322 7900 - E-mail: fundacep@comnet.com.brA eficiência

Na aplicação de defensivos agrícolas, o sucesso da operação somente é concretizado quando o objeto da ação é efetivamente controlado com eficiência. Quanto mais precisa for esta operação, menores serão os custos e os possíveis danos ambientais. Na prática, constata-se uma demasiada importância para a escolha do defensivo em detrimento das condições de ambiente e do equipamento, da importância dos adjuvantes, da qualidade da água utilizada e do nível de conhecimento dos aplicadores. Sabe-se, no entanto, que para o sucesso da aspersão todos estes itens possuem o mesmo valor na composição dos fatores que determinam a eficiência final da aplicação.

A umidade do ar

Entre os fatores de ambiente, a umidade relativa do ar é a que mais influencia a ação dos defensivos agrícolas. Numa aspersão, as gotas necessitam percorrer uma distância em torno de 50 cm, que vai da ponteira (bico) até o alvo. Nesse percurso elas sofrem influência decisiva da umidade do ar, pois o tempo de vida das gotas é fortemente influenciado por esse fator. Quanto mais baixa for a umidade do ar, mais rapidamente as gotas evaporarão e com elas o produto químico aplicado. Gotas pequenas com menos de 100 micra que podem compor até 30% do volume total, dependendo do bico e da pressão utilizada, dificilmente atingirão o alvo. Por isso, não são recomendadas aplicações de defensivos agrícolas quando a umidade do ar for próxima ou inferior a 50%.

UR do Ar: muito importante parao tempo de vida das gotas e para a absorção via folha.

A absorção

A umidade relativa do ar assume um papel fundamental também na absorção dos produtos aplicados nas folhas, como, por exemplo, herbicidas pós-emergentes e dessecantes e fungicidas. As folhas comprovadamente criam mecanismos de defesa, cobrindo a sua superfície com pêlos e cera, sendo esta mais espessa e contínua à medida que diminui a umidade relativa do ar. Esta camada protetora não é só formada por cera, mas também por diversos outros produtos, inclusive água, constituindo o que é chamado de cutícula. Durante a noite, normalmente ocorre um aumento da umidade do ar e por conseqüência também daquela existente na superfície foliar. Por outro lado, ao longo do dia, à medida que a temperatura aumenta, a umidade do ar e da superfície foliar diminuem. No entanto, para chegar até as primeiras células, os defensivos necessitam atravessar essa camada protetora externa das folhas. Esta travessia, porém, se tornará mais fácil quando a cutícula estiver encharcada de água, o que ocorrerá quando houver alta umidade relativa do ar. Essa condição é tão importante para a eficiência dos defensivos que determinados produtos chegam a duplicar ou até triplicar a quantidade absorvida na ocorrência de alta umidade relativa do ar.

Vento, temperatura, luz e orvalho

Evidentemente que, com ventos fortes, principalmente superiores a 10 km/hora, a qualidade da aplicação também fica prejudicada em função do excessivo carregamento lateral que as gotas vão sofrer, resultando no que é designado como deriva. Em conseqüência, pode-se não atingir o alvo em dose suficiente e ainda prejudicar áreas próximas.Também não são recomendadas aplicações quando a temperatura for inferior a 10oC ou superior a 35oC. A temperatura ideal para a maioria dos defensivos situa-se entre 20 e 30oC.A luminosidade necessita estar presente no momento da aplicação ou algumas horas após, principalmente para os herbicidas. Normalmente, aplicações realizadas com esses produtos, em dias sombrios ou à noite, as quais se segue uma chuva, são de baixa eficiência. Desta forma, aplicações sem luminosidade adequada só seriam recomendadas na certeza da ocorrência da mesma nas próximas horas. A ocorrência de orvalho é um fator a ser considerado no momento da aplicação de defensivos. Nas manhãs em que se notar muito orvalho é preferível que as aplicações destes produtos, particularmente a de herbicidas, sejam realizadas um pouco mais tarde, pois o excesso da água do orvalho dilui os mesmos, o que é prejudicial para a maioria, além de facilitar o escorrimento e a conseqüente perda de parte da calda aplicada.Portanto, para aumentar a probabilidade de se obter sucesso nas aplicações de defensivos, todos estes fatores devem ser observados, porém, nenhum deles é tão importante quanto a umidade relativa do ar.

Cuidados: Vento, Temperatura, Luz e Orvalho

Os adjuvantes

Outra questão que deve ser observada é que, mesmo com alta umidade do ar, vai existir a cutícula sobre a superfície foliar. Como o veículo utilizado para espalhar os produtos é a água e esta tem incompatibilidade com a cera, não ocorrerá a aderência e também não haverá a cobertura adequada dos defensivos sobre as folhas. Para que isso aconteça é necessário utilizar junto com a água de aspersão, produtos que eliminem a tensão das gotas fazendo com que as mesmas se espalhem sobre a superfície foliar.Os produtos com essas qualidades são chamados de adjuvantes. Eles podem ainda exercer muitas outras ações como estimular a atividade fisiológica das plantas, eliminar a camada com cera da superfície foliar, acidificar e neutralizar os íons da água utilizada na aspersão, evitar a evaporação das gotas aspergidas, além de garantir a formação das mesmas com diâmetro maior, pelo aumento da densidade da calda, evitando, em conseqüência, a deriva. Normalmente, os adjuvantes apresentam uma ou duas dessas qualidades. São raros os adjuvantes que possuem todas essas qualidades ao mesmo tempo.Pesquisas comprovaram também que a utilização de adjuvantes em geral aumenta a velocidade de absorção dos produtos, protegendo-os contra possíveis perdas, como, por exemplo, daquelas provocadas por chuvas que poderão ocorrer algumas horas após a aplicação. A importância dos adjuvantes torna-se tão grande que são considerados o seguro da aplicação e a garantia da eficiência para a maioria dos defensivos agrícolas.

Os íons e pH da água

Outro aspecto que pode influenciar a performance dos defensivos agrícolas é a qualidade da água utilizada. Os produtos químicos em geral sofrem influência negativa da água suja, com argila ou matéria orgânica em suspensão. Diversas pesquisas comprovam também que a água alcalina (pH entre 7,0 e 14,0), em geral diminui a eficiência dos produtos. Por exemplo, a acidificação ou a redução do pH para em torno de 4,0 e a utilização de água limpa são práticas que podem aumentar em 10 a 15% a eficiência dos herbicidas. O pH ideal para cada defensivo agrícola pode ser obtido da empresa fabricante do mesmo. A acidificação da calda normalmente tem como vantagem adicional o aumento da velocidade de absorção dos produtos.Nas águas alcalinas ou duras, geralmente ocorrem íons de cálcio e magnésio, entre outros, cuja presença afeta decisivamente a eficiência, pela desestabilização que causam nas formulações dos produtos utilizados e pela influência direta que exercem sobre as moléculas dos ingredientes ativos, ligando-se às mesmas. A neutralização desses íons e a redução do pH podem ser realizados pelo acréscimo de adjuvantes e a tarefa deve ser executada antes da colocação dos produtos no tanque. Numa escala de valores, a neutralização de íons é mais importante que a redução do pH.

As águas duras interferem: nas formulações nos ingredientes ativos

Pressão de trabalho

As gotas pequenas, mesmo em condições de alta umidade do ar, têm poucos segundos de vida. O fator que mais influencia o diâmetro da gota, após a escolha do bico é a pressão de trabalho nele aplicado. Quanto maior a pressão, menor o diâmetro das gotas. Por muito tempo acreditou-se que o aumento de pressão proporcionava uma melhor penetração das gotas da aspersão no meio da folhagem. No entanto, na prática isto não se comprovou, pelo contrário, o aumento de pressão quebra mais as gotas, tornando parte delas menores e facilmente sujeitas à deriva e à evaporação. Constatou-se que o volume de calda que chegava no alvo era menor com pressões altas do que com as baixas. A pressão normalmente utilizada era de 40 libras/pol2 ou mais. Atualmente, são recomendadas pressões de 15 a 20 libras/pol2 , podendo, em alguns casos, serem até menores. No entanto, para trabalhar com essas pressões é necessário ter bicos apropriados que mantenham a abertura do ângulo e a distribuição adequada de gotas. Dessa forma, é possível garantir que chegue 15 a 20% mais calda no alvo.

Volume de calda

A possibilidade de se operar com pressões entre 15 e 20 libras/pol2 permite a utilização de bicos que fornecem volumes de calda entre 50 e 150 l/ha, ao invés dos tradicionais volumes de 300 a 400 litros por hectare. Sabe-se, porém, que baixos volumes de calda obtidos a partir de bicos de jato leque 110 01 a 110 02 diminuem o diâmetro médio das gotas. No entanto, parte desta redução pode ser compensada exatamente pela utilização de pressões baixas (15 a 20 libras/pol2) e também pela adição de adjuvantes que aumentam a densidade da calda, tendo-se,como resultado final a formação de gotas de diâmetro maior e menos sujeitas a perdas pela deriva e evaporação. Na prática, porém, o número de gotas que devem atingir o alvo é mais importante que o volume de calda. Para uma eficiente distribuição de herbicidas pré-emergentes e pós-emergentes, são necessários entre 20 a 30 gotas/cm2 e 30 a 40 gotas/cm2 , respectivamente. Já para fungicidas, este número deve ser de 30 a 50 gotas/cm2. A grande vantagem da aspersão com baixo volume de calda está no maior rendimento operacional e no aumento da eficiência de muitos defensivos. Em aplicações tradicionais de alto volume (300 a 400 l/ha), o tempo gasto com reabastecidas e trânsito do equipamento é maior, tendo-se, como conseqüência, menor rendimento operacional. Já volumes de calda de 50 a 150 litros por hectare, obtidos a partir de bicos adequados operando a pressões baixas, reduzem os custos operacionais, principalmente em termos de maior área aplicada por dia de trabalho e menor desgaste dos equipamentos. Em função desse melhor rendimento operacional, ficam viabilizadas as aplicações realizadas somente durante condições de alta umidade relativa do ar, que geralmente ocorrem no período do dia com temperaturas mais baixas. Além disso, pesquisas têm comprovado que muitos produtos melhoram significativamente a sua eficiência em aplicações de baixo volume, provavelmente pela ocorrência de uma maior concentração do produto nas gotas aplicadas.

Necessidade de diâmetro de gotas e volume de aplicação para manter50 gotas/cm2

Diâmetro gotas (micras)

Volume de aplicação (l/ha)

60

0,56

80

1,34

100

2,62

150

8,83

200

20,94

250

40,91

300

70,68

400

167,55

500

327,28

Fonte: Matuo, 1990.

O sucesso da aplicação

Em nível de campo é difícil respeitar e realizar aplicações de defensivos, apenas quando todas as possíveis restrições estiverem sob controle. As condições de ambiente algumas vezes mudam rapidamente criando problema para o sucesso da aplicação. Estágios avançados de invasoras ou o crescimento rápido de um fungo obrigam a realizar aplicações fora das condições ideais. Na prática, porém, para superar a todas elas, deve-se utilizar adjuvantes como garantia da aplicação. E, neste caso, quanto maior o número de qualidades do adjuvante,maior será a segurança de se alcançar a eficiência.O desconhecimento e a falta de cuidado pela não adoção de todos os aspectos relacionados, nas aplicações a campo, obrigam muitas vezes, as empresas a superestimar as doses dos seus produtos. Em conseqüência, produtores rurais mais informados geralmente conseguem resultados melhores a custos mais baixos, pois monitoram a ocorrência de problemas fito-sanitários e a necessidade real da utilização de defensivos, respeitando as condições de ambiente, além de realizarem a manutenção periódica dos equipamentos, recorrendo a ponteiras (bicos) e produtos adequados para cada caso. Estas atitudes, em conjunto, é que proporcionarão a certeza do sucesso da aplicação de defensivos. Ressalta-se, no entanto, dentro de todo o processo da aplicação de defensivos, que os adjuvantes são a garantia da eficiência e um investimento que se traduz como o seguro da aplicação.

Qualidades de um adjuvante que asseguram a eficiência e reduzem os custos do controle químico de plantas daninhas

Molhante

Espalhante

Penetrante

Anti-evaporante

Espessante

Restimulador fisiológico (anti-estresse)

Redutor de pH

Neutralizador de íons

Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, edição nº 72, novembro/dezembro de 2002. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS