De olho no clima
Paulo EtchichuryMeteorologista – SOMAR Meteorologia – São Paulo - SPE-mail: paulo@met.com.brVerão
O verão, que neste ano começa às 22:12 horas do dia 21 de dezembro, é conhecido como a estação do sol e calor. Nesse dia o sol apresenta sua declinação máxima para sul e culmina sobre o Trópico de Capricórnio, correspondendo ao dia mais longo do ano em relação ao número de horas de brilho solar.No Brasil, de norte a sul, as temperaturas médias diárias são elevadas e a média das temperaturas máximas em geral, exceto nas regiões de serra, oscila em torno dos 30 °C. Entretanto, por mais contraditório que possa parecer, o verão é a estação das chuvas sobre a maior parte do País, especialmente sobre as Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte.Considerando que os fatores básicos para o desenvolvimento de uma planta se resume a luz, água e nutrientes, o verão configura-se como o principal período de produção de grãos no Brasil. Sem dúvida alguma entre esses aspectos, a água acarreta maior preocupação aos agricultores, considerando que esta se renova através do seu ciclo hidrológico, cuja distribuição é irregular.
Tecnologias
É inquestionável que o sucesso na produção agrícola está condicionado diretamente às condições do clima. Por isso, cada vez mais, o agricultor tem que estar atento à questão climática e se valer das previsões como ferramenta de auxílio para estabelecer uma estratégia adequada do plantio à colheita. Desta maneira, é possível se prevenir em relação aos riscos e aproveitar as eventuais oportunidades que o Clima proporciona.Gradativamente, os avanços tecnológicos vão se aprimorando e tornando as previsões de tempo e clima mais confiáveis, mesmo que ainda não seja no nível desejado pela maioria. Mesmo assim, o crescimento do número de usuários dessas informações não pára de crescer. É natural que uns acreditem mais do que outros, mas independente disto, o fato é que o clima atinge a todos, principalmente os agricultores que dependem das condições climáticas para produzir melhor. Os benefícios do uso das informações sobre o clima dependem das variações que ocorrem de um ano para outro, e estão diretamente relacionados com o grau de tecnologia e o processo de administração que o agricultor aplica em sua propriedade.
El Niño
Uma componente do sistema climático da terra é representada pela interação entre a superfície dos oceanos e a baixa atmosfera adjacente a ele. Os processos de troca de energia e umidade entre eles determinam o comportamento do clima e as alterações destes processos podem afetar o clima regional e global. O El Niño representa o aquecimento anormal das águas superficiais e sub-superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.A palavra El Niño, derivada do espanhol, se refere à presença de águas quentes que todos os anos aparecem na costa norte do Peru na época do Natal. Os pescadores do Peru e Equador deram o nome de Corriente de El Niño a esta presença de águas mais quentes, em referência ao Niño Jesus ou Menino Jesus. Na atualidade, as anomalias do sistema climático que são mundialmente conhecidas como El Niño e La Niña representam uma alteração do sistema oceano-atmosfera no Oceano Pacífico tropical, refletindo suas conseqüências no tempo e no clima de todo o planeta.Conforme já amplamente divulgado, estamos com um novo episódio do El Niño totalmente configurado sobre o Oceano Pacífico. Lembrando que o El Niño no Brasil é caracterizado por períodos de chuvas abundantes no Sul, secas no Nordeste e períodos quentes no Sudeste e no Centro-Oeste.O El Niño deste ano tem intensidade moderada e, segundo os resultados do modelo oceânico do Serviço de Meteorologia dos Estados Unidos (NCEP/NOAA), deve se prolongar pelo menos até agosto de 2003. O último El Niño ocorreu entre o segundo semestre de 1997 e o primeiro semestre de 1998 e teve intensidade forte.
Tendências climáticas
A próxima safra de verão 2002-2003, desde o plantio à colheita, acontecerá sob um padrão atmosférico típico de anos de El Niño, o que significa pelo menos uma condição de clima diferente da última safra. Sendo assim, a atenção por parte dos agricultores deverá ser redobrada.Região Sul: Depois de um período de fortes chuvas no início da primavera e mesmo com a continuidade do El Niño, ocorreu uma diminuição do volume de chuvas em novembro o que deve continuar em dezembro, período que coincide com a intensificação das frentes frias sobre o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil. Em anos de El Niño, as fortes chuvas da primavera normalmente causam prejuízos às lavouras de inverno, atrasando a implantação da lavoura de arroz da Região. Por outro lado, existe uma condição climática mais favorável para as lavouras de verão, já que o risco de ocorrer estiagens prolongadas diminui, a exemplo do que ocorreu no verão passado.Para janeiro e fevereiro, a tendência das chuvas é variar de normal a ligeiramente acima da média climatológica. No El Niño de 1997/98, o Sul do Brasil sofreu com o excesso de chuvas registrado ao longo de todo o verão. Cabe ainda ressaltar que o fato do El Niño deste ano se estender pelo menos até agosto de 2003 pode favorecer o aumento das chuvas sobre a Região no final do verão e durante o outono de 2003. Esta condição representa um risco ainda maior na fase final e na fase de colheita da lavoura de verão.Região Sudeste: O verão é a estação das chuvas no Sudeste do Brasil e, para esse verão, a tendência é de chuvas em torno das médias climatológicas. Cabe ressaltar que o El Niño não influencia diretamente no regime de chuvas dessa região. A distribuição das chuvas e eventuais anomalias regionais, períodos mais chuvosos ou mais secos estão relacionados diretamente com o comportamento das frentes frias que, por sua vez, sofrem influência direta das condições do Oceano Atlântico próximas à costa do Sudeste. Lembrando que nos últimos dois verões, as frentes frias em geral foram de fraca intensidade e não ocorreram episódios de frentes estacionárias e chuvas de longa duração.No verão de 1997/98, quando ocorreu o último El Niño, as chuvas em toda a Região foram muito irregulares e mal distribuídas. O norte dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo teve, inclusive, uma redução das chuvas a partir de fevereiro, enquanto a região do Vale do Ribeira em São Paulo sofreu com fortes chuvas e enchentes.Região Centro-Oeste: Assim como para o Sudeste, a tendência para o Centro-Oeste durante o próximo verão é de chuvas em torno das médias climatológicas. O El Niño também não influencia diretamente no regime de chuvas dessa Região, porém se observa uma certa irregularidade na instalação do período chuvoso que ocorre durante a primavera, o que no geral acaba atrasando o plantio das culturas de verão. As chuvas do Centro-Oeste estão muito mais relacionadas às condições tropicais da região amazônica, cujo aquecimento local associado aos altos índices de umidade relativa do ar causam pancadas de chuvas isoladas quase que diariamente. Já os períodos de dias chuvosos estão diretamente associados à presença de frentes frias sobre a Região Sudeste. Independente da condição climática, entre janeiro e fevereiro é comum observar alguns períodos (10 a 14 dias) de estiagem, que neste caso estão relacionados à formação de um outro sistema meteorológico conhecido como vórtice ciclônico do Nordeste.No verão de 1997/98 quando ocorreu o último El Niño, as chuvas em todo o Centro-Oeste foram muito irregulares e mal distribuídas. Na parte oeste da Região Centro-Oeste, incluindo a região do Pantanal, o período foi mais seco do que o normal.Região Nordeste: O Nordeste do Brasil é a região mais castigada com a escassez de chuva durante os períodos de El Niño. No entanto, entre os meses de novembro e janeiro, ocorre o período de chuvas no sul da Região, incluindo as regiões produtoras de soja, milho, feijão e algodão no sul e oeste da Bahia, sul do Piauí e sul do Maranhão. A tendência para essas regiões é das chuvas variarem de normal a ligeiramente abaixo das médias e apresentarem uma sensível redução a partir de fevereiro, em função da presença do El Niño. Já à parte norte do Nordeste, incluindo o sertão e o agreste nordestino, cujo período de chuvas tem início em fevereiro e se prolonga até maio, a tendência é das chuvas nesse período ficarem bem abaixo das médias climatológicas, além de uma distribuição espacial e temporal bastante irregular.Região Norte: O verão no norte do Brasil se caracteriza como um período quente e chuvoso na parte sul da região, enquanto o extremo norte, especialmente Roraima, atravessa o seu período seco. A tendência para o próximo verão é de chuvas em torno das médias climatológicas sobre a maior parte da Região. No entanto, na parte leste da região, que inclui o leste do Pará e o estado de Tocantins, sofre uma redução no volume de chuvas em função da presença do El Niño.
Dados para referências bibliográficas: Revista Plantio Direto, edição nº 72, novembro/dezembro de 2002. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS