Produtividade de culturas e fertilidade do solo na região de abrangência da Cooperativa Agrária
Sandra M.V. Fontoura Eng. Agr., M.Sc. Pesquisadora da Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária – FAPA.Colônia Vitória – Entre Rios - 85.139-400 - Guarapuava, PR. E-mail: sandrav@agraria.com.brObjetiva-se apresentar alguns aspectos relacionados à características gerais da região e da Cooperativa Agrária, bem como a situação da fertilidade do solo na sua região de abrangência, por meio de um levantamento de análises de solo realizado no período de 1986 a 2001, das áreas cultivadas pelos cooperados.
1. Introdução
A Cooperativa Agrária Mista Entre Rios Ltda., fundada em maio de 1951 para abrigar imigrantes alemães após a segunda guerra mundial, está localizada no Distrito de Entre Rios, Guarapuava, PR. Possui atualmente 322 cooperados ativos, cultivando uma área de 94.000 hectares, o que resulta numa área média de 292 hectares por cooperado, cuja distribuição é apresentada na Tabela 1. A área de atuação da Cooperativa Agrária compreende os municípios de Guarapuava, Candói, Pinhão, Pitanga, Turvo, Goioxim, Cantagalo, Reserva do Iguaçú, Foz do Jordão, Santa Maria D’Oeste e Roncador, cujas principais culturas são a soja e o milho no verão, a aveia branca, a cevada e o trigo no inverno.Com o objetivo de desenvolver e difundir tecnologias agropecuárias adequadas à região de abrangência da Cooperativa Agrária, foi fundada em novembro de 1994 a FAPA – Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária que, em parceria com empresas públicas e privadas, vem gerando informações de pesquisa locais que, aliadas ao contínuo acompanhamento técnico, tem contribuído para o aumento de produtividade das culturas.
Tabela 1. Distribuição percentual de produtores da Cooperativa Agrária por área de plantio
Área (ha)
Distribuição percentual
Até 100
25,0
100 a 250
32,0
250 a 500
20,7
500 a 1000
15,5
> 1000
6,8
Fonte: Sattler, R., 2002 (Comunicação pessoal).
2. Localização, clima e solo
O município de Guarapuava está situado no 3º Planalto Paranaense, a 1116 metros de altitude. A precipitação e a temperatura média anual é de 2030 mm e 16,8ºC, respectivamente (Figura 1) e o clima da região, segundo a classificação de Koeppen, subtropical úmido, sem estação seca e com geadas severas demasiado freqüentes.O solo é classificado como Latossolo Bruno Alumínico (Embrapa, 1999), relevo suave ondulado e profundo, poroso, com alta saturação por alumínio e textura argilosa, é formado a partir de basalto e abrange uma área de cerca de 1700 km2 (Eltz et al., 1989).
3. Sistema de cultivo
O sistema plantio direto, cujo grande benefício é a proteção do solo pela cobertura permanente com resíduos vegetais ou culturas em desenvolvimento, é adotado em 100% da área de abrangência da Cooperativa Agrária há mais de 10 anos, sendo aproximadamente 90% de forma contínua e 10% com revolvimento esporádico, normalmente através de escarificação.
4. Evolução da área e rendimento das culturas
No início dos anos 70 a soja já ocupava grande importância econômica na Cooperativa Agrária, cultivando-se uma área de 36.000 ha em 1974/75 e chegando-se a 55.000 ha na safra 2001/02 (Figura 2), o que gerou um aumento de 53% na área ao longo desses 27 anos. A produtividade que estava ao redor de 1800 kg ha-1 (1974/75), chegou a 3147 kg ha-1 na safra 2000/01, ou seja, um incremento de 75% na produtividade. Na Figura 2 observa-se pela linha de tendência de produtividade um incremento no rendimento de grãos de 61 kg ha-1 ano-1 ou, 4,4% ao ano (Y=1379 + 61,095x, r2=0,77).A cultura do milho teve início na Cooperativa Agrária no ano de 1979/80 com uma área de 200 ha e hoje ocupa grande importância no sistema de produção dos produtores associados com 34263 ha de plantio na safra 2000/01 (Figura 3). A produtividade que no início era de 4000 kg ha-1, alcançou um rendimento médio nas áreas dos cooperados de aproximadamente 9200 kg ha-1 em 2000/01, o que representa um aumento de 231% no rendimento da cultura. Observa-se que para a cultura do milho, houve um incremento de 317 kg ha-1 ano-1 ou 14,3% ao ano na produtividade (Y=2217 + 316,78x, r2=0,81) (Figura 3).Os cereais de inverno, ao contrário da soja e do milho tiveram, ao longo dos anos, grandes oscilações na produtividade, influenciados principalmente, por condições climáticas adversas. Apesar desse comportamento observa-se, de modo geral, aumento de produtividade como pode ser visualizado nas Figuras 4, 5 e 6.A cultura da aveia ocupava uma área de 3100 ha no ano de 1975/76, chegando a 7216 ha em 2001/02 (Figura 4). A produtividade aumentou 49% em 27 anos (1860 em 1975/76 e 2770 em 2001/02). Pela linha de tendência, observa-se um aumento de produtividade de 40 kg ha-1 ano-1 de grãos ou 2,3% ao ano (Y=1700 + 40,016x, r2=0,44).Em 1975/76 a cevada era cultivada em 3670 ha chegando em 2001/02 a 16706 ha (Figura 5). A produtividade dessa cultura teve grandes variações ao longo dos anos, como mostra a Figura 5, cujos extremos foram de 908 kg ha-1 no ano de 1988/89 a 3805 kg ha-1 em 1996/97. Apesar das grandes diferenças nesses 27 anos, de modo geral observa-se um ganho de produtividade de 30 kg ha-1 ano-1 de grãos ou 1,7% ao ano, inferior porém, aos outros cereais de inverno.A área cultivada com trigo teve grandes variações ao longo dos anos à semelhança do que aconteceu no estado do Paraná, ocupando uma área de 7000 ha em 1975/76, chegando a 18637 ha em 2001/02 (Figura 6). Apesar das variações, observa-se um ganho de produtividade de 37 kg ha-1 ano-1 de grãos ou 2,3% ao ano (Y=1588 + 37,298x, r2=0,30), com média de 2069 kg ha-1 na safra 2001/02.Na Tabela 2 são apresentados os dados médios de área e produtividade das cinco culturas com os respectivos desvios padrões. Observa-se que a cultura que apresentou a menor variação na área cultivada foi a soja com 15,1% de desvio padrão, para uma média de 50938 ha em 27 anos. No outro extremo situa-se o milho com variação de 73,8% na área, devido principalmente aos primeiros anos onde a área cultivada era muito pequena; na média de 22 anos a área foi de 15948 ha.Para a produtividade, a menor variação foi observada para a aveia com 21,1% para uma média de 2260 kg ha-1 e a maior para o milho com 38,1% e média de 5860 kg ha-1.5. Levantamento da fertilidade do solo
A maneira mais difundida de avaliação da fertilidade do solo é através da amostragem de solo, sendo que a confiabilidade nos resultados depende das etapas de amostragem e análise química. Visando-se a exploração agrícola de forma racional e economicamente rentável, faz-se necessário o conhecimento do nível de fertilidade das áreas cultivadas.Os dados do levantamento de análises de solo de 1986 a 2001 foram elaborados a partir de um trabalho realizado por Fontoura & Back (2002), cujo número de amostras analisadas encontram-se na Tabela 3, onde serão apresentados somente os dados relativos ao ano de 2001 (situação atual).
Tabela 2. Dados médios de área e produtividade das culturas de aveia branca, cevada, milho, soja e trigo e seus respectivos desvios padrões na Cooperativa Agrária ao longo dos anos
Cultura
Área Média
Desvio Padrão
Produtividade
Desvio Padrão
(ha)
(%)
Média (kg ha -1)
(%)
Aveia branca (1)
5148
48,4
2260
21,1
Cevada (1)
12472
40,0
2138
37,4
Milho (2)
15948
73,8
5860
38,1
Soja (1)
50938
15,1
2234
24,7
Trigo (1)
9643
56,1
2110
25,6
(1) Média de 27 (2) 22 anos
Tabela 3. Número de produtores, fazendas, talhões e amostras de solo analisadas de 1986 a 2001 na região de abrangência da Cooperativa Agrária.
Ano
Produtores
Fazendas
Talhões
Amostras
1986
1
15
17
1987
1
4
20
1988
3
37
41
1989
8
10
109
124
1990
16
18
117
141
1991
41
55
300
496
1992
43
55
371
867
1993
59
70
375
930
1994
144
230
1334
2202
1995
86
119
842
1267
1996
123
183
933
1209
1997
77
122
561
730
1998
102
159
809
1211
1999
112
188
967
1217
2000
199
363
1801
2148
2001
86
111
637
747
Total
1109
1696
9346
13501
Fonte: Fontoura & Back, 2002 (Dados não publicados).
5.1 pH (CaCl2)Pela distribuição dos dados pode-se verificar que a maioria das amostras analisadas (79%) está com valores de pH acima de 5,0 (Figura 7). Observa-se que a maior quantidade das amostras (41,0 %) apresentou acidez média, seguida das classes de acidez baixa e acidez alta com 32,0 e 19,0%, respectivamente. A participação das áreas com acidez muito alta foi de 2,0%, porém, esse valor foi menor que nas amostras com acidez muito baixa, com 6,0 % das freqüências. Na média, o valor de pH foi 5,3 (Tabela 4).
Tabela 4. Valores médios de pH, MO, P, Al, Ca, Mg, K e V do solo no ano de 2001 nas áreas de abrangência da Cooperativa Agrária.
ANO
pH
MO
P
Al
Ca
Mg
K
V
(CaCl2)
g kg-1
mg kg-1
cmolc dm-3
%
2001
5,3
42,51
7,20
0,14
4,66
2,28
0,31
56,1
Fonte: Fontoura & Back, 2002 (Dados não publicados).
5.2 Alumínio
De acordo com os valores apresentados na Figura 7, pode-se verificar a baixa presença de Al nas amostras analisadas, com média de 0,14 cmolc dm-3 (Tabela 4). A classe baixa (< 0,5 cmolc dm-3) apresentou 94 % das freqüências, na classe alta (> 1,5 cmolc dm-3) apenas 2 % e na classe média (0,5 - 1,5 cmolc dm-3) 4 % das freqüências. Isso indica a utilização de corretivos de forma bastante eficiente, uma vez que é característica da região os solos apresentarem baixo pH e altos valores naturais de alumínio trocável (Al+3). Sabendo-se que o Al+3 é prejudicial ao desenvolvimento radicular das plantas e um dos fatores limitantes à produtividade, pode-se dizer que na maioria dessas áreas a acidez está corrigida.
5.3. Matéria Orgânica
Com relação à matéria orgânica observa-se na Figura 7 pequena participação das amostras com baixo teor de MO (2,0 %) e uma alta freqüência de amostras na classe média (75,0 %) e alta (23,0 %). O valor médio de matéria orgânica das amostras em 2001, foi 42,51 g kg-1 (Tabela 4), o qual reflete o bom nível do manejo aplicado nas áreas, visto que estes solos são intensamente cultivados e que o sistema de plantio direto contribui para manutenção e até mesmo a elevação do teor de matéria orgânica ao longo dos anos.
5.4. Fósforo
Para o fósforo disponível, observa-se na Figura 7 que 29,0 % das amostras apresentaram valor baixo, nas classes média e alta esses valores representam 45,0 e 26,0 % das freqüências das amostras, respectivamente. Sabendo-se da importância do fósforo para o rendimento das culturas e o custo que este elemento representa, seu monitoramento é essencial para garantir bons rendimentos. No ano de 2001 o valor médio de fósforo na amostras analisadas foi 7,20 mg kg-1 (Tabela 4).
5.5. Cálcio, Magnésio e Potássio
Com relação aos teores de Ca, Mg, e K, de maneira geral os solos apresentaram-se bem supridos com valores médios de 4,66, 2,28 e 0,31 cmolc dm-3, respectivamente (Tabela 4). Para o Ca, apenas 3,0 % das amostras encontraram-se na classe baixa e as classes média e alta apresentaram valores de 32,0 e 65,0 %, respectivamente (Figura 8).Com relação ao teor de Mg, observa-se na Figura 8, que os solos da região estão bem supridos, pois quase todas as amostras encontram-se na classe alta (97,0%). Esse valor elevado de teores de Mg está, possivelmente, relacionado ao material de origem do solo, em que observa-se altos valores de Mg desde os anos iniciais de levantamento e também ao uso de calcários dolomíticos.O K por sua vez apresenta uma grande participação na classe média com 47,0 % e na classe alta com 51,0 % e uma restrita participação na classe baixa com apenas 2,0 % (Figura 8). Isto pode ser explicado basicamente pela tradição da agricultura da região, em que poucas áreas permanecem em pousio, adoção de cultivos em rotação de culturas e o próprio sistema de plantio direto que visa sempre aporte de resíduos vegetais em cobertura do solo, possibilitando desta forma a diminuição das perdas de K por lixiviação e uma constante reciclagem do mesmo.5.6 Saturação de bases
Os valores de saturação de bases (V%) são apresentados na Figura 8, sendo as maiores freqüências nas classes 50 – 70% e 25 - 50% com 59,0 e 27,0%, respectivamente. Poucas amostras apresentaram V% < 25% (2%), possivelmente estas amostras representam áreas novas onde ainda não foi realizada a correção do solo. A média geral da V% para o ano de 2001 foi 56,1 % (Tabela 4).6. Considerações finais
Ao longo dos anos tem-se observado aumento no rendimento de grãos em todas as espécies cultivadas na região de abrangência da Cooperativa Agrária. Esse aumento pode estar associado ao uso de cultivares mais adaptadas, ao aperfeiçoamento das técnicas de cultivo e à melhoria da fertilidade do solo, entre outros, conforme mostram os resultados das análises químicas efetuadas. Por isso, a grande importância do monitoramento dado às lavouras, pelos produtores e a assistência técnica, certificando essa atividade como uma ferramenta útil, a fim de obter maiores rendimentos acompanhados de menor custo.Dentro desse contexto, o sistema plantio direto, por proporcionar diminuição expressiva da erosão hídrica e melhoria da qualidade química, física e biológica do solo, foi um dos fatores que contribuiu para o aumento da produtividade. No entanto, o sistema plantio direto exige da pesquisa, dos técnicos e dos produtores constante aprimoramento tecnológico para que possam ser vencidos os fatores que venham a limitar ou impedir o crescimento da produtividade das culturas inseridas nesse sistema.7. Literatura Citada
ELTZ, F.L.P.; PEIXOTO, R.T.G; JASTER, F. Efeitos de sistemas de preparo do solo nas propriedades físicas e químicas de uma Latossolo Bruno álico. R. Bras. Ci. Solo. Campinas, 13:259-267, 1989.EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA – EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília, 1999. 412p.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 71 - Setembro/Outubro de 2002, p 35 a 39. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.