A Época de Semeadura da Soja em Relação à Dessecação da Cobertura Vegetal Influencia na Interferência e no Controle de Plantas Daninhas


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Publicado em: 01/10/2002

A época de semeadura da soja em relação a dessecação da cobertura vegetal influencia na interferência e no controle de plantas daninhas

Mauro Antônio Rizzardi1 e Nilson Gilberto Fleck21Engo. Agrº., Dr., Professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo.Caixa Postal 611, CEP 99001-970, Passo Fundo-RS. E-mail:rizzardi@upf.tche.br.2 Engo. Agrº., Ph.D., Professor da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail:fleck@ufrgs.br.Introdução

Os efeitos negativos das plantas daninhas sobre o rendimento das culturas, usualmente decrescem com o decorrer do intervalo de tempo entre emergência da cultura e das ervas. As ervas que emergirem mais tarde do que a cultura, provavelmente terão menor impacto sobre o rendimento, pois grande parte da interferência ocorrerá após a determinação dos componentes desse rendimento.A época de emergência da cultura influencia a intensidade com que ela suprime as plantas daninhas. Em trabalho conduzido por Fleck et al. (2000) observou-se que à medida em que a emergência da soja antecipou-se à emergência de picão-preto (Bidens pilosa) e guanxuma (Sida rhombifolia), menor foi o impacto das ervas no desenvolvimento da soja. Esses resultados reforçam a idéia de que as espécies daninhas que emergem mais cedo, obtém vantagem sobre aquelas que emergem mais tarde e, tornam-se melhor competidoras por recursos do ambiente.A adoção do sistema de semeadura direta possibilita maior flexibilidade na época de semeadura das culturas, permitindo que as mesmas sejam estabelecidas desde logo até vários dias após o manejo da cobertura vegetal antecessora. O aumento nos resíduos da cobertura vegetal atrasa e reduz a emergência das plantas daninhas, ampliando o período disponível para remoção da erva. Porém, com a presença de palha na superfície do solo, há maior retenção de umidade no solo, o que pode limitar a semeadura da cultura logo após a dessecação da área. Esse atraso na semeadura, contudo, poderá oportunizar emergência de ervas antes que a cultura se estabeleça, modificando as relações de interferência entre cultura e ervas, além de influenciar o período crítico de interferência e a época de adoção do controle das ervas.

Efeito no grau de interferência entre plantas daninhas e cultura

As perdas de rendimento causadas pelo atraso na semeadura da soja em relação a dessecação da cobertura vegetal podem ser visualizadas na Figura 1. Percebe-se que as perdas de produtividade causadas pela presença de 50 plantas de picão-preto ou guanxuma por m2 foram menos intensas quanto mais próximo à dessecação da cobertura vegetal foi realizada a semeadura da soja. Para picão-preto, a semeadura de soja realizada 11 dias após a dessecação (DAD) da cobertura vegetal causou perda 2,3 vezes superior em relação a semeadura realizada 3 DAD. Para guanxuma, a redução no rendimento foi 3 vezes superior com o atraso na semeadura de 3 para 11 DAD .A menor intensidade das perdas de rendimento em semeaduras realizadas mais próximo à dessecação deveu-se às condições mais vantajosas de desenvolvimento, adquiridas pela cultura em relação às ervas. Sabe-se que as plantas que se estabelecem antecipadamente na área apresentam vantagem competitiva em relação àquelas que se estabelecem posteriormente. Analisando-se esses resultados constata-se que a competição exercida pela cultura pode ser usada na supressão do crescimento das plantas daninhas, diminuindo deste modo as perdas de rendimento e, que o manejo da época de semeadura da cultura, após a dessecação da cobertura vegetal, no sistema de semeadura direta, influencia na sua competitividade em relação às ervas.

Efeito no período crítico de controle de plantas daninhasO sucesso do uso de herbicidas pós-emergentes depende da habilidade do produtor em determinar o momento correto de controlar as ervas. Como visualizado na Figura 2, as perdas percentuais de rendimento de grãos de soja foram influenciadas de forma diferenciada pelas épocas de controle de papuã (Brachiaria plataginea), em decorrência da variação na época de semeadura da soja. Na semeadura realizada 1 DAD ocorreu ajuste mais adequado dos dados ao modelo sigmoidal, o qual indicou haver estabilidade do rendimento da cultura até, aproximadamente, 20 dias após sua emergência, quando então as perdas aumentaram acentuadamente. Para a semeadura de 10 DAD, a redução do rendimento seguiu comportamento linear; em que, para cada dia de atraso na aplicação do controle ao papuã, a perda aumentou 0,67%.A semeadura realizada 1 DAD permitiu que a soja se estabelecesse antes ou simultaneamente em relação ao papuã. Portanto, apresentou condições mais favoráveis para vencer a competição. Na semeadura realizada 10 DAD isso não ocorreu, pois a erva se antecipou à soja em emergência. Diferenças na época relativa de emergência afetam grandemente as habilidades competitivas de duas espécies. As primeiras plântulas a emergirem provavelmente irão apresentar maior desenvolvimento porque elas adquirem prioridade de acesso aos recursos do meio. Assim, a emergência precoce da soja, possibilitada através da estratégia de semeadura tão logo ocorreu a dessecação da cobertura vegetal, colocou a cultura em posição competitiva vantajosa, em relação à semeadura realizada 9 dias mais tarde. A variação no início do período que determina a necessidade de controle, como caracterizado na Figura 2, indica que o momento de aplicação do herbicida pós-emergente, ou mesmo de glyphosate no caso de cultivar de soja resistente a esse herbicida, deve estar ajustado à época na qual o produtor realiza o manejo da cobertura vegetal.Conhecer os prejuízos causados pelas ervas no rendimento da cultura constitui-se em fato da maior relevância, mas não é suficiente para determinar a necessidade ou não de se adotar medidas de controle. Neste sentido, é necessário, além de determinar o limite de dano competitivo, considerar as perdas de rendimento que excedem o custo de controle da erva. O custo do controle do papuã foi de 237 kg ha-1, correspondendo a uma redução de 5,7% no rendimento de grãos. Ao analisar-se a Figura 2, constata-se que as perdas propiciadas pela convivência da erva com a cultura superaram o custo de controle aproximadamente aos 20 e 5 DAE para as semeaduras realizadas 1 e 10 DAD, respectivamente. Portanto, no primeiro caso, a oportunidade de aplicar medida de controle ao papuã apresenta intervalo bem mais amplo e menos crítico do que no segundo caso. Em diversas situações, a soja pode conviver com algumas espécies daninhas, decorrendo pequena redução no rendimento, graças à habilidade competitiva satisfatória que apresenta (Rizzardi, 2002). Dessa forma, a relação custo do controle x benefício torna-se nula, pois o custo do controle suplantaria o ganho obtido no rendimento final em qualquer situação. Isso pode ser caracterizado na semeadura realizada 1 DAD, quando a soja suportou conviver com papuã durante determinado período, demonstrando pequena redução no rendimento; contudo, a relação custo x benefício do controle foi favorável somente quando o controle foi aplicado a partir de 20 DAE. Por outro lado, na semeadura de 10 DAD, a relação custo x benefício foi favorável desde quando ocorreu a emergência da cultura. É importante salientar que as relações custo x benefício do controle descritas não são fixas através do tempo, pois elas podem variar em função de aspectos relacionados à competição (porcentagem de perda de rendimento), ao controle das ervas (eficiência e custo do controle) e ao teto de rendimento da cultura obtido na ausência de ervas.Considerações finais

Os resultados descritos nesse trabalho são importantes na identificação do período de controle de papuã, em que o atraso no controle causa menores reduções no rendimento de grãos quando a semeadura da soja é realizada logo após a dessecação da cobertura vegetal. Além disso, a oportunidade de aplicar medidas de controle ao papuã apresenta intervalo mais amplo quando a semeadura é realizada mais próximo ao momento de aplicação do dessecante.Um aspecto que deve ser considerado é o fato de que o período entre a dessecação da cobertura vegetal e a semeadura da soja pode variar em função das características do herbicida utilizado na dessecação. Ou seja, havendo restrição de período mínimo entre a época de aplicação em relação à semeadura de soja, esse deve ser respeitado. Referências bibliográficas

FLECK, N.G.; RIZZARDI, M.A.; VIDAL, R.A.; MEROTTO JR., A.; AGOSTINETTO, D.; BALBINOT JR., A.A. Período crítico para controle de Brachiaria plantaginea em função de épocas de semeadura da soja após dessecação da cobertura vegetal. Planta Daninha, Viçosa, v.20, n.1, p.53-62, 2002.FLECK, N.G.; VIDAL, R.A.; MEROTTO JR., A.; RIZZARDI, M.A.; AGOSTINETTO, D.; COSTA, E.L.N.; DUTRA, M.M. A época relativa de emergência afeta as relações ervas x soja. In: CONGRESSO BRASILEIRO DA CIÊNCIA DAS PLANTAS DANINHAS, 22, Foz do Iguaçú. Resumos...Londrina:SBCPD, 2000. p.38. RIZZARDI, M.A. Nível de dano econômico para tomada de decisão no controle de picão-preto (Bidens spp.) e guanxuma (Sida rhombifolia L.) na cultura da soja. Porto Alegre, UFRGS, 2002, 175f. Tese (Doutorado em Fitotecnia – Plantas de Lavoura). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Porto Alegre, 2002.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 71 - Setembro/Outubro de 2002, p 26 a 28. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.