Ferrugem da soja
Nos dias 20 e 21 de agosto, aconteceu em Passo Fundo o II Encontro Brasileiro Sobre Doenças da Cultura da Soja. O evento, uma promoção da Revista Plantio Direto, contou com o apoio da Universidade de Passo Fundo, Fundação ABC, Embrapa Trigo e Embrapa Soja e reuniu um público superior a 600 pessoas. Um dos destaques do programa foi o tema ferrugem na cultura da soja, doença que vem preocupando os agricultores do Rio Grande do Sul e de outros estados. O Dr. Erlei Melo Reis, professor da Faculdade de Agronomia da UPF e um dos palestrantes do evento, condeceu-nos uma entrevista, onde esclarece pontos importantes sobre o assunto.Revista Plantio Direto - A ferrugem da soja (Phakopsora pachyrhizi) tem sido o centro das discussões entre os assistentes técnicos, quais os principais fatores que podem preceder o seu aparecimento no Rio Grande do Sul?
Erlei Melo Reis - A verdade é que a ferrugem da soja já esta presente no Rio Grande do Sul e causou prejuízo em muitas lavouras na última safra (2001/02). Foi constatada a sua presença em lavouras nos municípios de Passo Fundo, Sertão, Ciríaco. Provavelmente tenha ocorrido em vários outros. Porém, como os técnicos ainda não estão familiarizados com a diagnose correta do agente causal, ela pode ser confundida com as doenças de final de ciclo.O fator que pode preceder o seu aparecimento em outros municípios chama-se tempo. Como a doença é causada por um fungo, cujos esporos podem ser considerados extremamente pequenos, sendo eficientemente transportados pelo vento a longas distâncias, espera-se que na safra 2002/03, um maior número de municípios com a presença da doença. Por outro lado, como o agente causal é um parasita obrigatório ou biotrófico, na ausência de lavouras de soja, somente sobrevivem plantas voluntárias, guachas ou tigüera. Como inverno foi relativamente brando, com poucas geadas a probabilidade de ocorrência de tais plantas é maior e por isso maior será a possibilidade de existir produção contínua de inóculo durante o inverno. Outro fator a ser considerado, é que não dispomos de cultivares resistentes a essa doença, que certamente já ocorreu em um número maior de municípios, o problema é que os Engenheiros Agrônomos e produtores não estão preparados para diagnosticá - la.
RPD - Em outras regiões produtoras como Paraná e o Cerrado, o risco de epidemia é maior?
Reis - Não. Porque as condições climáticas no verão são semelhantes em todas as regiões aonde se cultiva soja no Brasil. Além disso, a intensidade da epidemia em lavouras de Passo Fundo – na Universidade de Passo Fundo, Sertão e Ciríaco, foram tão ou mais severas do que as ocorrentes nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A temperatura não é limitante no verão. O que pode ter alguma influência é a ocorrência com maior freqüência de veranicos no Sul do Brasil, quando comparado com a região produtora no Cerrado.
RPD - O histórico dessa doença em outros países nos mostra que ela é inconstante, causando sérios problemas em alguns anos e em outros não, como é vista esta questão?
Reis - A pergunta pode ser transformada numa afirmação. O fato é que todas as doenças parasitárias são dependentes de três fatores: da presença da planta de soja, da presença do inóculo e do clima favorável. Por clima favorável entende-se a presença diária de molhamento foliar contínuo numa duração que permita a germinação dos esporos, penetração e estabelecimento do parasitismo. Logicamente que esse processo é dependente e catalisado pela temperatura.Convém lembrar que quando ocorreu pela primeira vez no Paraguai, na safra 1990/01 a epidemia foi muito mais severa causando maiores danos do que na safra 2001/02, isso por que na segunda houve uma estiagem pronunciada naquele país.Pode-se concluir que a freqüência de ocorrência e a intensidade das epidemias dependem da suscetibilidade dos cultivares, da presença de raças virulentas do patógeno e de condições climáticas favoráveis.
RPD - Nas regiões onde o clima permite o cultivo da soja “safrinha”, existe o risco de ocorrer uma incidência maior da doença?
Reis - Sim, porque o fungo somente sobrevive pelo parasitismo de plantas vivas. Na região Sul, sua sobrevivência depende da população de plantas voluntárias que é resultado do rigor do inverno. Por outro lado, nas regiões aonde não ocorrem geadas e há a possibilidade do cultivo da segunda safra anual de soja, a disponibilidade e quantidade do inóculo do fungo deve ser muito maior e, como conseqüência, o potencial de danos da doença.O cultivo de soja safrinha permite o fungo manter sua viabilidade no chamado período da entressafra. A diferença, é que aonde se cultiva a soja safrinha a área cultivada é muitíssimo maior e por isso o potencial de inóculo é proporcional.
RPD - Quais as principais diferenças entre a ferrugem e as doenças de final de ciclo? Como diferenciar os sintomas?
Reis - Não é tarefa fácil diferenciar os sintomas da ferrugem da soja das doenças de final de ciclo, principalmente dos sintomas da septoriose ou mancha parda e do crestamento bacteriano.A ferrugem da soja é considerada uma ferrugem diferente das demais ferrugens com as quais estamos familiarizados, como por exemplo a ferrugem da folha do trigo e da aveia. O nome ferrugem advém da cor da massa de esporos produzida nas pústulas. Isso não ocorre com a ferrugem da soja, aonde os esporos são quase hialinos, levemente amarelados. Outra diferença básica é que na ferrugem da soja os sintomas são do tipo lesão (pequenas áreas de tecido morto) o que gera confusão com os sintomas da septoriose e crestamento bacteriano.Mesmo para técnicos treinados e familiarizados com a ferrugem, a única possibilidade de diagnose correta é feita com o auxílio de uma lupa de mão (aumentos de 15 - 20 X). Quando se examina com a lupa, o lado inferior das folhas, aonde é maior a concentração de lesões, detecta-se a abertura ou rompimento das pústulas (os ostíolos) com minúsculos esporos em seu interior. Apesar de difícil esse é o procedimento mais seguro. Com lupas de menores aumentos a diagnose fica comprometida.
RPD - De que forma a rotação de culturas em plantio direto, com o milho ou algodão (no Cerrado),pode diminuir o risco do inóculo?
Reis - A rotação de culturas pode reduzir a ocorrência da ferrugem pela redução da população de plantas voluntárias, influenciando diretamente na diminuição do substrato vivo necessário à sobrevivência. A rotação nesse caso, reduz a manutenção e disponibilidade do inóculo do fungo que causa a ferrugem. Como o fungo não sobrevive nos restos culturais, não se deve confundir o mecanismo de controle propiciado pela rotação para os necrotróficos e para um biotrófico como a ferrugem da soja.Por outro lado, com o plantio direto sempre há um aumento da população de plantas voluntárias, o que assegura a manutenção e multiplicação do inóculo. Logicamente, que em face da ocorrência da ferrugem se deveria manejar corretamente a população de plantas de soja voluntárias, reduzindo completamente, se possível, suas populações. Visualiza-se que se um produtor controla as plantas voluntárias e o outro vizinho cultiva a soja safrinha, de nada valeu o seu esforço.
RPD - Existem outros hospedeiros do fungo?
Reis - Sim. São relatos mais de 40 espécies de leguminosas hospedeiras do agente causal da ferrugem da soja. Para o fungo Phakopsora pachyrhizi, ainda não foram feitos levantamentos no Brasil. No Paraguai, o kudzu tem sido considerado uma das principais fontes de inóculo. A Universidade de Passo Fundo, possui em seu campo experimental uma coleção de leguminosas forrageiras, aonde será feito o levantamento da presença/ou não da ferrugem da soja na próxima safraRPD - Como proceder o controle químico?Reis - Infelizmente no momento o controle químico é o método mais eficiente para evitar os danos causados pela ferrugem da soja. Conseqüentemente, pelo uso de produtos químicos há aumento do custo de produção, por isso devem ser aplicados com critérios econômicos que justifiquem o seu emprego.A Universidade de Passo Fundo, a Coodetec e a Fundacep propõem que os Agrônomos utilizem o critério do Limiar de Dano Econômico (LDE) na tomada de decisão quanto a necessidade ou não de aplicar-se fungicidas visando, o controle da ferrugem da soja.
RPD - Quais as perspectivas para a doença na próxima safra de soja no Sul do Brasil?Reis - Dependerá das condições climáticas, lembrando-se que o inóculo esta presente, não estão disponíveis cultivares resistentes, e que o clima é favorável. A expectativa é de que se o clima apresentar precipitação pluvial sem déficits hídricos, a doença terá maior probabilidade de causar epidemias do que se ocorrerem as precipitações normais na região.RPD - Algumas dicas para o produtor amenizar os potenciais danos da doença?Reis - Conte com assistência técnica treinada para a identificação correta da doença. Uma vez constatada, passe a monitorar semanalmente a lavoura. Quando a severidade alcançar o Limiar de Ação (LA) aplique o fungicida recomendado pela pesquisa.