O mercado agrícola para 2002/2003
Argemiro Luís BrumProfessor do DECon/UNIJUI, doutor pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA).O ano de 2002 está se concretizando como o mais importante dos últimos tempos, em termos de preços, para os principais produtos agrícolas do Centro-Sul do Brasil. A retomada, iniciada em meados de 2001, puxada especialmente pelo comportamento cambial, acabou sendo confirmada neste ano não só pelo câmbio mas especialmente porque os preços internacionais e nacionais subiram.
1) SOJA: preços recordesAs cotações da soja nos EUA alcançaram os US$ 6,00/bushel em determinados momentos deste ano, chegando muito perto da média histórica (últimos 30 anos), que é de US$ 6,23/bushel. Em relação ao ano passado, os preços ganharam mais de um dólar por bushel em Chicago.O movimento internacional se deve especialmente ao recuo na produção dos EUA, agora estimada em 72,3 milhões de toneladas (relatório do USDA de setembro). Este volume é 8,1% menor do que o colhido no ano passado. Com isso, os estoques finais para 2002/03, nos EUA, estão projetados para apenas 4,35 milhões de toneladas após 5,31 milhões no ano anterior e 6,75 milhões em 2000/01. Além disso, as projeções para o próximo plantio nos EUA, a acontecer em abril/maio, indicam uma redução na área de soja em benefício do milho. Isto em função de que o novo Farm Bill, recentemente anunciado naquele país, estaria favorecendo ao milho em detrimento da soja.Soma-se a este processo na oferta, uma demanda que se mantém firme, embora sem sobressaltos. A demanda mundial por soja chegará a 189,9 milhões de toneladas contra uma oferta de 184,8 milhões. Com isso, os estoques finais mundiais recuariam para 25,3 milhões de toneladas após 30,6 milhões em 2001/02. A novidade maior está na projeção de um novo aumento nas importações por parte da China, que deverá comprar no exterior 14 milhões de toneladas de soja contra 10,3 milhões neste último ano. Esta realidade mais aquecida do mercado externo, veio somar-se a um movimento cambial severo que o Brasil voltou a sofrer a partir de junho, com forte desvalorização do real diante do dólar. A tal ponto que em meados de setembro o câmbio continuava oscilando na faixa entre R$ 3,00 e R$ 3,15 por dólar, quando todas as expectativas para o final do ano dão conta de um valor ao redor de R$ 2,80 (e até menos, para alguns analistas econômicos). Com isto, como mostra o gráfico 1, os preços da soja em reais ultrapassaram os R$ 30,00/saco, no balcão ao produtor gaúcho (R$ 37,00/saco em meados de setembro no mercado gaúcho), chegando a mais de R$ 40,00/saco nos lotes. Um preço excepcional para o período! Lembramos que a média nominal, nos últimos seis anos, é de R$ 18,05/saco. Já em termos reais, os preços médios praticados no terceiro trimestre deste ano foram os mais elevados dos últimos seis anos. Nota-se que a partir do terceiro trimestre de 2001, os preços médios reais foram os melhores deste período considerado.A tendência, para o mercado interno brasileiro, pode ser de preços menores para o primeiro semestre de 2003. Além de um forte aumento na produção brasileira prevista (48 milhões de toneladas), a Argentina igualmente aumentará para 31 a 32 milhões de toneladas sua produção. Além disso, com a colheita atual dos EUA, Chicago não deverá reagir muito mais do que já o fez. Caso o câmbio recue para os patamares esperados na virada do ano e nos primeiros meses de 2003 (entre R$ 2,70 e R$ 3,00), os preços em reais no balcão poderão recuar para níveis próximos a R$ 20,00/saco no mercado gaúcho, no momento da comercialização (abril/maio).
2) MILHO: oferta escassa e preços em alta
A produção de milho foi bem menor neste último ano. O Brasil colheu 36 milhões de toneladas no seu total, sendo um pouco mais de 6 milhões na safrinha. Ora, a colheita anterior tinha chegado a 42 milhões de toneladas e a expectativa inicial, para a safrinha deste ano de 2002, era para superar as 8 milhões de toneladas. Neste contexto, diante de uma demanda sustentada de frango e suínos, especialmente na exportação, os preços dispararam no mercado interno nacional. O quadro se agravou com a elevação do dólar, fato que estimulou as exportações, mesmo em período de escassez, e freou as importações, complicando o abastecimento interno. A tal ponto que se projeta uma exportação superior a 1,7 milhão de toneladas em 2002, quando o país praticamente não possui milho para terminar o ano. Afinal, os estoques oficiais giram ao redor de 500.000 toneladas neste momento. Para complicar ainda mais o quadro, as projeções de plantio, para a nova safra, indicam uma menor área. No país, fala-se de 6,13 milhões de hectares contra 6,82 milhões no ano anterior. Isto significa 10,1% a menos. Nestas condições, o mercado continua extremamente pressionado. Em o clima transcorrendo bem, o Brasil poderá regularizar sua disponibilidade apenas em meados de 2003, com a colheita da safrinha. Assim, conforme o gráfico 2, os preços médios do cereal ao produtor gaúcho, no balcão, chegam em setembro ao redor de R$ 15,00/saco, quando a média histórica, desde meados de 1996, é de R$ 9,81/saco. O preço para lotes entre empresas alcançava R$ 18,00/saco em algumas localidades do sul do país em meados de setembro. Em termos reais, os preços atuais são os melhores que o cereal assistiu nestes últimos seis anos.O que pode segurar momentaneamente este comportamento será a entrada de triguilho já que tanto o Paraná como o Rio Grande do Sul registram perdas no trigo devido as geadas do início de setembro. Mas, o volume deste produto pode não ser suficiente para as necessidades que o país possui. Dessa forma, projeta-se um aumento nas importações de milho assim que o câmbio ceder para patamares mais lógicos.
3) TRIGO: preços disparam
O trigo igualmente vive um momento de euforia nos preços. A média gaúcha, em meados de setembro, no balcão, já ultrapassava os R$ 23,00/saco ao produtor, contra uma média histórica (últimos seis anos) de R$ 11,94/saco. Em termos reais, como o gráfico 3 nos indica, os preços do trigo vêm subindo constantemente desde o segundo semestre de 2000. A pouca oferta do produto na safra anterior (colheita total de 3,0 milhões de toneladas), somada à forte desvalorização do real, elevaram os preços internos na medida em que as importações ficaram muito caras. Além disso, os preços FOB na Argentina deram um salto espetacular, chegando hoje ao redor de US$ 200,00/tonelada contra US$ 130,00/tonelada no ano passado. Para complicar o quadro, no momento em que o país esperava um aumento no volume ofertado para este ano (colheita em setembro/outubro/novembro), graças a um aumento de 22% na área plantada (1,95 milhão de hectares contra 1,6 milhão no ano anterior), o clima prejudicou as lavouras no Paraná e no Rio Grande do Sul, os dois principais produtores. No primeiro Estado já se estima uma quebra superior a 30% (seca e geadas). A perda deverá atingir 800.000 toneladas, trazendo a colheita deste Estado para algo em torno de 1,5 milhão de toneladas. Nestas condições, e somando-se a quebra no Rio Grande do Sul, ainda não dimensionada, a safra brasileira ficará menor do que a colhida no ano passado, quando se esperava inicialmente algo entre 3,8 a 4,0 milhões de toneladas. Portanto, o país terá que importar mais trigo do que o previsto, exatamente num momento em que os preços internacionais continuam subindo fortemente (Chicago bateu no melhor preço dos últimos cinco anos, na segunda semana de setembro de 2002). Diante disso, os preços do trigo para o produto superior continuam subindo, mesmo em período de colheita. No Paraná, os mesmos bateram em R$ 550,00/tonelada em meados de setembro, para lotes entre empresas. A colheita poderá segurar um pouco a elevação dos preços neste resto de ano, porém, diante da frustração e dos altos preços de importação, apenas uma revalorização do real, como se espera, poderá frear definitivamente os preços locais, na medida em que reduziria o preço do produto importado. Assim como no milho, o caso do trigo preocupa consideravelmente o mercado consumidor nacional, especialmente porque a opção da importação está muito cara em função das atuais taxas cambiais.
4) ALGODÃO: importação recua significativamente, mas produção futura preocupa
No mercado do algodão, o elemento essencial está na forte recuperação da produção nacional que, nos últimos 10 anos, passou de 667.000 toneladas (algodão em pluma) para 940.000 toneladas. O País diminuiu sensivelmente suas importações, chegando a apenas 81.300 toneladas em 2001/02, após ter alcançado mais de 500.000 toneladas em 1992/93 e mais de 468.000 toneladas em 1995/96. Ao mesmo tempo, nosso país ganhou espaços no mercado exportador mundial, saindo de parcas 300 toneladas exportadas em 1996/97 para mais de 147.000 toneladas em 2000/01, conforme o gráfico 4.Os EUA entre 1996 e 1999, elevou em 277% os subsídios para a produção da fibra, provocando uma concorrência desleal. A situação é tão ruim que o Brasil está entrando com recurso na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os EUA. De fato, em 1999 os EUA aplicavam US$ 2,3 bilhões de subsídios em favor da sua produção de algodão. Por outro lado, diante de uma exportação em crescimento, o Brasil, que estima em 130.000 toneladas sua necessidade para atender a demanda para esta safra, esperava fixar um preço de apoio entre R$ 38,00 e R$ 40,00 a arroba. Em isto não ocorrendo, o risco é de uma safra bem menor em 2002/03 (plantio iniciando em outubro), ou seja, ao redor de 500.000 toneladas. Este fato poderia transformar o país em forte importador de algodão novamente nos próximos dois anos.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 71 - Setembro/Outubro de 2002, p 14 a 18. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.