Gilberto (Obituário Gilberto de Oliveira Borges, fundador da Revista Plantio Direto)


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Publicado em: 01/10/2002

Gilberto, o semeador

Estou firmando uma convicção: Gilberto Borges foi um semeador de idéias. Poucos têm a paciência que essa virtude exige. Ele a possuía no cotidiano. Neste mundo do imediatismo, do aqui e agora, ansiamos visualizar fogo ali adiante, o resultado de cada ato e semear idéias significa ter que esperar um tempo que às vezes é longo demais para nossa expectativa de vida. Mais ainda, semear idéias exige, também, coerência entre o que se prega e o que se afirma. E ele a possuía no cotidiano.O que fazem o poeta, o escritor, o ator de teatro, o cineasta, o ambientalista, o jornalista? Simples, semeiam idéias, defendem o que acreditam com paciência e coerência. Desejam, esses seres especiais, inquietar espíritos, mexer com conceitos, mudar atitudes, alertar incautos, instigar consciências em busca de mudanças que acreditam ser muito importantes para melhorar as coisas.Nesse trilho se locomoveu o garoto materialmente pobre, mas espiritualmente rico do Capingüi, na sua trajetória pelos bancos escolares, no movimento estudantil nos anos de chumbo, pelos palcos, pelos escritos, pelas tentativas de fazer cinema até cair na agronomia, o local muito apropriado para quem desejava construir um mundo sustentável e cheio de justiça.No final dos anos 80, impelidos pela necessidade de nos recolocar no processo produtivo, de preferência fazendo algo aprazível, conseqüente e, sonhar não custa nada, nobre, discutimos à exaustão o que fazer. Decidimos pelo Jornal do Plantio Direto, que em 1995, com a Juliane, se transformou nessa revista que é a síntese daquele sonho. Havia apenas uma idéia: as edições iniciais foram feitas com duas máquinas de escrever portáteis (uma emprestada) que carregávamos de um lado para outro, ocupando mesas, cadeiras e telefones em cantos vagos de escritórios de amigos.Primeiro na Rua Morom, com o Fernando, depois na Avenida Brasil, com o Roman.Hoje constato: do que é capaz uma idéia!Sim, óbvio, se hoje o plantio direto na palha ocupa quase 50% da área agrícola do Brasil e nossa tecnologia tem papel de vanguarda em todo o mundo, como escreveu o Gilberto na última edição da revista que Deus lhe permitiu editar, o resultado se deve, principalmente, à competência de nossos técnicos, pesquisadores, e empresas do setor, à determinação de nossos agricultores. Mas é verdadeiro se afirmar que esse semeador de idéias deu inestimável contribuição para que chegássemos a esse número, e que o sistema se tornasse uma verdadeira revolução no processo de uso da terra. A presença de expressivas lideranças do setor primário e do plantio direto do Sul do Brasil em nosso adeus, configura um reconhecimento ao grande papel desempenhado por Gilberto nessa área, à qual dedicou o melhor de sua vida.E assim foi em tudo e por onde passou esse semeador. O Gilberto cidadão, pai, irmão, esposo, amigo deixou em todas as pessoas com quem conviveu e se relacionou a mesma contribuição, a mesma presença, a mesma marca que o profissional deixou no sistema de plantio direto na palha brasileiro. É isso que conforta, um pouco, a dor da saudade que sua presente ausência nos envolve.

Ivaldino TascaJornalista