Utilização da Leucena como Fonte Alternativa de Controle Natural das Plantas Daninhas na Cultura do Milho (Prates+Pires+Filho+Magalhães Embrapa Milho e Sorgo Sete Lagoas MG)


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Publicado em: 01/02/2002

Utilização da Leucena como fonte alternativa de controle natural das plantas daninhas na cultura do milho

Hélio Teixeira Prates1, Nádja de Moura Pires2, Israel Alexandre Pereira Filho1 e Paulo César Magalhães1.1Pesquisador. Embrapa Milho e Sorgo. Cx. Postal 151, 35701-970, Sete Lagoas, MG. E-mail: htprates@cnpms.embrapa.br, 2Pesquisadora FAPEMIG/Embrapa Milho e Sorgo. Trabalho executado com recursos da Embrapa Milho e Sorgo e FAPEMIG

Introdução

No Brasil a planta conhecida como leucena (Leucaena leucocephala) Lam (De Witt) se apresenta como árvore ou arbusto perene, pertencente à família Leguminosae. Até o momento foram classificadas doze espécies do gênero Leucaena, sendo a Leucaena leucocephala a que apresenta maior importância internacional (Brewbaker, 1987).A importância econômica dessa espécie se deve ao seu valor como árvore de sombreamento e adubo verde, além do interesse na sua utilização nos trópicos para restauração da fertilidade do solo, forragem e recuperação de áreas degradadas (Freitas et al., 1991), uma vez que ela se desenvolve bem em encostas íngremes, solos marginais e regiões com períodos de seca (Perez e Fanti, 1999). Além disso, Akobundu et al. (1999), Jama et al (1991) e Chou & Kuo (1986), observaram que a leucena apresenta propriedades alelopáticas importantes no controle das plantas daninhas.Os objetivos deste estudo foram avaliar em condições de campo o efeito da parte aérea da leucena sobre o controle das plantas daninhas e o efeito fitotóxico sobre a cultura do milho.

Material e Métodos

O experimento foi conduzido na área experimental da Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas, MG., em Latossolo Vermelho Escuro, argiloso, fase cerrado. A cultivar de milho BR 3123 foi semeada na densidade de seis sementes/m linear com espaçamento entrelinhas de 0,80 m. A adubação de plantio foi de 300 kg/ha da formulação 4-30-16+Zn. O tamanho de cada parcela foi de 12,0 m2 e área útil 3,2 m2.O delineamento experimental consistiu de oito tratamentos, dispostos em blocos ao acaso, com quatro repetições. Os tratamentos foram constituídos por três quantidades de matéria fresca de leucena (20, 30 e 40 t/ha) incorporadas e em cobertura no solo, mais duas testemunhas sem leucena, sendo uma capinada e outra sem capina das plantas daninhas. Para os tratamentos incorporados a leucena foi adicionada ao solo, cinco dias antes da semeadura do milho e nos tratamentos em cobertura a leucena só foi adicionada ao solo quando o milho se encontrava no estádio de cinco folhas. Durante o período de condução do ensaio, foram realizadas as irrigações necessárias para o desenvolvimento da cultura, não havendo necessidade de controle de pragas e doenças.Mensalmente, foram feitas avaliações de identificação e contagem das plantas daninhas presentes em 0,5 m2 da área útil da parcela, assim como avaliação da fitotoxicidade da leucena sobre o milho, utilizando-se a escala de notas do Conselho Europeu de Pesquisa sobre Plantas Daninhas - EWRC (Frans, 1972).Na avaliação da cultura do milho coletou-se três plantas nas épocas do florescimento e colheita. Nestes períodos foram analisados as seguintes características: altura das plantas, área foliar, diâmetro do colmo, biomassa fresca e seca da parte aérea e análise dos nutrientes. Na época da colheita foi também avaliado o número e peso das espigas, peso dos grãos, peso de 1000 sementes e análise de nitrogênio. Para interpretação dos resultados, os dados foram submetidos à análise de variância e teste de média, sendo os valores de contagem de plantas daninhas transformados para:Resultados e Discussão

Em todas as avaliações das espécies infestantes verificou-se que o capim marmelada (Brachiaria plantaginea), timbête (Cenchrus echinatus), caruru (Amaranthus, sp), botão de ouro (Siegesbeckia orientalis) e joá de capote (Nicandra physaloides), predominaram na área experimental. Na avaliação realizada aos 30 dias após a incorporação e 15 dias após a cobertura do solo com leucena, foi observado que entre as gramíneas e as folhas largas, o timbête e o caruru, respectivamente, foram as plantas daninhas que apresentaram diferenças de controles nos tratamentos com adição de leucena (Tabela 1). Verifica-se que há uma redução das folhas largas quando a leucena foi adicionada ao solo em cobertura, sendo o controle mais eficiente quando utilizou-se a quantidade de 40 t/ha da parte aérea da leucena (Tabela 1).

Tabela 1. Densidade média das plantas daninhas marmelada (Mar), timbête (Tim), total de gramíneas (Tgr), caruru (Car), botão de ouro (Bou), Joá de capote (Joa) e total de folhas largas (Tfl), aos 30 dias após a incorporação e 15 dias após a cobertura do solo com a parte aérea da leucena. Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas-MG, 1999.

Gramíneas

Folhas Largas

Tratamentos

Mar

Tim

Tgr

Car

Bou

Joa

Tfl

Incorporado (20 t/ha)

4a

3a

14a

9cde

14a

32a

81ab

Incorporado (30 t/ha)

2a

6a

14a

12 bc

13a

31a

82ab

Incorporado (40 t/ha)

5a

4a

17a

47a

15a

25a

100a

Cobertura (20 t/ha)

1a

2ab

11ab

11 cd

16a

24a

60abc

Cobertura (30 t/ha)

0a

0 b

2 c

3 de

7a

15a

35 bc

Cobertura (40 t/ha)

1a

0 b

3 bc

2 e

5a

12a

23 c

Testemunha sem capina

2a

2 bc

6abc

33ab

10a

32a

83ab

Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem significativamente pelo teste de Duncan a 5% de probabilidade.

A avaliação da densidade das plantas daninhas aos 60 dias após a incorporação e 40 dias após a cobertura do solo com leucena, mostrou comportamento semelhante à avaliação anterior. Observa-se nesta avaliação a cobertura do solo com 40 t/ha mostrou também eficiente para o controle de gramíneas (Tabela 2).

Tabela 2. Densidade média das plantas daninhas marmelada (Mar), timbête (Tim), total de gramíneas (Tgr), caruru (Car), botão de ouro (Bou), Joá de capote (Joa) e total de folhas largas (Tfl), aos 60 dias após a incorporação e 40 dias após a cobertura do solo com a parte aérea da leucena. Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas-MG, 1999.

Gramíneas

Folhas Largas

Tratamentos

Mar

Tim

Tgr

Car

Bou

Joa

Tfl

Incorporado (20 t/ha)

3a

1a

10a

4 bc

5a

32a

43a

Incorporado (30 t/ha)

2a

3a

8ab

9 ab

6a

31a

37a

Incorporado (40 t/ha)

2a

1a

7ab

22a

5a

25a

35a

Cobertura (20 t/ha)

0a

1a

6ab

9ab

9a

24a

35a

Cobertura (30 t/ha)

1a

0a

2 bc

1 bc

2a

15a

13 b

Cobertura (40 t/ha)

0a

0 c

3a

12a

8 b

Testemunha sem capina

1a

2a

6ab

17a

10a

14a

46a

Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem significativamente pelo teste de Duncan a 5% de probabilidade.

Os resultados das avaliações indicam redução na população das plantas daninhas com o aumento do período de adição da leucena ao solo. Na Tabela 3 observa-se que houve um efeito crescente da eficiência de controle das plantas daninhas com o aumento da quantidade da leucena aplicada ao solo, tanto incorporada como em cobertura, em relação à testemunha sem capina. Nota-se portanto, que a leucena poderá ter reduzido a população de plantas daninhas, devido a liberação para o solo de substâncias com ação alelopática (Akobundu et al., 1999, Chou e Kuo, 1986), além do efeito de cobertura do solo.

Tabela 3. Eficiência de controle de plantas daninhas calculadas em relação as duas épocas de avaliação da densidades das plantas daninhas na área experimental. Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas-MG, 1999.

% de eficiência

Tratamentos

Gramíneas

Folhas Largas

Incorporado (20 t/ha)

28,57

5,23

Incorporado (30 t/ha)

42,86

23,10

Incorporado (40 t/ha)

58,82

45,81

Cobertura (20 t/ha)

45,45

0,00

Cobertura (30 t/ha)

0,00

41,00

Cobertura (40 t/ha)

100,00

46,30

Os tratamento mais eficientes (Tabela 3) no controle de gramíneas foram leucena incorporada e em cobertura na quantidade de 40 t/ha com 59 e 100% de eficiência, respectivamente. Para as folhas largas os tratamentos mais eficientes foram leucena incorporada na quantidade de 40 t/ha com 46% de eficiência e quando utilizada em cobertura nas quantidade de 30 e 40 t/ha com 41 e 46 % de eficiência, respectivamente. Em geral, a avaliação da densidade e eficiência (%) de controle das plantas daninhas mostraram que a leucena colocada em cobertura na quantidade de 40 t/ha favoreceu ao melhor controle tanto de gramíneas quanto das folhas largas.O uso da leucena no solo tanto incorporada como em cobertura não provocou nenhum efeito fitotóxico sobre o desenvolvimento e produção do milho (Tabela 4). Neste ensaio observa-se que houve uma tendência de maior produção do milho nos tratamentos com a adição da leucena, exceto no tratamento com a leucena em cobertura na quantidade de 20 t/ha, isto provavelmente ocorreu devido à maior competição das plantas daninhas com a cultura (Tabelas 1 e 2). O tratamento com a adição da leucena em cobertura na quantidade de 40 t/ha apresentou em geral o melhor controle das plantas daninhas mostrando uma média de produção de grão de milho semelhante à testemunha capinada.

Tabela 4. Valores médios da altura (AL) e diâmetro (DIA) da planta de milho, altura da espiga (ALE), teor de nitrogênio nos grãos (N) e produção de grãos por hectare (PG), avaliados na época da colheita. Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas-MG.

Características avaliadas

Tratamentos

AL (m)

DIA (cm)

ALE (m)

N (%)

PG (kg/ha)

Incorporado(20 t/ha)

2,17ab

39,50ab

1,20abc

1,25a

7185,19a

Incorporado(30 t/ha)

2,23a

40,24ab

1,24a

1,22a

7643,45a

Incorporado(40 t/ha)

2,15ab

37,61 b

1,21abc

1,21a

7152,50a

Cobertura(20 t/ha)

2,13ab

38,90ab

1,14abc

1,23a

6205,51a

Cobertura(30 t/ha)

2,21a

39,08ab

1,22ab

1,32a

7152,25a

Cobertura(40 t/ha)

2,16ab

41,16a

1,15abc

1,24a

7756,19a

Testemunhasem capina

2,06 b

38,19 b

1,12 bc

1,23a

7103,70a

Testemunhacapinada

2,10ab

40,06ab

1,10 c

1,33a

7826,08a

Coef. deVariação (%)

4,12

4,31

5,53

6,98

17,06

Literatura Citada

AKOBUNDU, I.O.; EKELEME, F.; CHIKOYE, D. Influence of fallow management systems and frequency of cropping on weed growth and crop yield. Weed Research, Oxford, v.39, p.241-256, 1999.BREWBAKER, J.L. Leucaenas for the highland tropics. Leucaena Research Reports, Taipei, v.7, p.14-16, 1987.CHOU, C.H.; KUO Y.L. Allelopathic research of subtropical vegetation in Taiwan. III. Allelopathic exclusion of understrory by Leucaena leucocephala (Lam.) de Wit. Journal of Chemical Ecology, New York, v.12, p.1431-1448, 1986.FRANS, R.E. Measuring plant responses. In: RESEARCH methods in weed science. s.l., Southern Weed Science Society, 1972. p.28-41.FREITAS, A.R.D.; OLIVEIRA, A.L.P.C.D.; SILVA, B.A. da; DECICO, M.J.U. Leucaena leucocephala Lam. (De Witt): cultura e melhoramento. São Carlos: Embrapa-UEPAE São Carlos, 1991. 93p. (EMBRAPA-UEPAE São Carlos. Documentos, 12).JAMA, B.; GETAHUN, A.; NGUGI, D.N. Shading effects of alley cropped Leucaena leucocephala on weed biomass and maize yield at Mtwapa, Coast Province Kenya. Agroforestry Systems, Holland, v.13, n.1, p.1-11, 1991.PEREZ, S.C.J.G.A.; FANTI, S.C. Crescimento e resistência à seca de leucena em solo de cerrado. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v.34, n.6, p.933-944, 1999.