Recomendação para manejo e controle de percevejos
Dirceu GassenDiretor Técnico da Cooplantio - Passo Fundo-RS - E-mail: dirceu@ginet.com.br
Percevejo Castanho da Raiz
Descrição e biologia
Os percevejos de solo são conhecidos há muitos anos, com a constatação de surtos esporádicos, causando danos severos em plantas cultivadas. As espécies mais freqüentes são Scaptocoris castanea, praga em plantas de lavouras; Atarsocoris brachiarea, em pastagens, nos cerrados, e o percevejo-preto, Cyrtomenus mirabilis, de tamanho ligeiramente menor e coloração negra.As espécies do gênero Scaptocoris são diferenciadas pela presença de tarsos vestigiais em S. castanea e ausentes em A. brachiarea, conforme sugere o nome genérico. Esses percevejos, quando perturbados, liberam odor forte e repugnante, emitindo som semelhante ao de chocalho, como estratégia de defesa contra inimigos naturais.Com base em observações, no sul do Brasil, em São Paulo e nos cerrados, podem ocorrer várias gerações por ano. As revoadas freqüentes, durante a primavera e o verão caracterizam a disseminação por dezenas de quilômetros e a infestação de novas áreas, durante o desenvolvimento das plantas cultivadas.A postura é feita no solo, em profundidades de até mais de um metro. As ninfas se desenvolvem nas raízes das plantas até atingir a fase adulta. Os adultos se alimentam avidamente até desenvolver os músculos de vôo, sobem até a superfície do solo, disseminam para novas áreas, realizam a cópula e estabelecem populações elevadas com danos nas plantas.Os percevejos adultos voam durante a tarde, em dias com umidade e temperatura elevadas e ausência de vento. Infestam lavouras, independente do preparo de solo, de plantio direto, de cobertura de palha ou de culturas perenes.DanosO percevejo-castanho é polifitófago, alimentando-se de várias plantas nativas e cultivadas. Ataca raízes e outras partes subterrâneas de plantas. Causa danos pela injeção de saliva tóxica e pela extração de seiva. A partir da fase de ninfa, até chegar a adulto reprodutivo, os percevejos sugam seiva com maior intensidade, enfraquecendo e causando a morte de plantas.A intensidade de dano é maior no fim da fase de ninfa e no início da fase adulta. Alimentam-se avidamente até o desenvolvimento pleno dos músculos de vôo.A flutuação da população do percevejo castanho ocorre pela migração de adultos, rápida instalação e desaparecimento dos insetos das manchas de lavoura infestadas.
Controle
O tratamento de semente com inseticidas é pouco efetivo, alcançando a proteção de plântulas até duas semanas depois da semeadura.A aplicação de inseticidas na parte aérea não garante o controle da praga, nem mesmo com inseticidas sistêmicos em doses elevadas. A aplicação de inseticidas, combinada com chuvas ou com irrigação, pode atingir pragas-de-solo com galerias abertas, como algumas espécies de corós. É ineficiente para percevejo-castanho e para o percevejo preto, que não abrem galerias até a superfície do solo.A alternativa de proteção de plantas é a aplicação de inseticidas líquidos ou granulados, no sulco de semeadura. O período de proteção pode atingir cinco semanas depois da semeadura. A eficácia e as doses de inseticidas aplicados no sulco de semeadura necessitam ser ajustadas para as diferentes condições de solo e de clima.A aração ou gradagem pode reduzir a população da praga (estima-se em 30 %), se for feita nas áreas infestada, na fase de plântula de soja, de milho ou de algodão, com replantio da lavoura O inseto não será atingido no período normal de aração (abril a novembro), quando se encontra em camadas mais profundas do que as alcançadas pelo arado ou pela grade.A cobertura de solo com palha é estratégia importante para estimular os fatores de controle natural (patógenos, predadores e parasitóides). Solos sem cobertura vegetal e sem palha facilitam a instalação e a sobrevivência da praga.
Percevejos em soja
Introdução
Os percevejos que ocorrem em soja no Brasil são também encontrados nas principais regiões produtoras da cultura no mundo. Completam o ciclo biológico em dois meses e, em geral, desenvolvem duas gerações por ano. Passam o período depois da colheita da soja, de abril até o final do ano, na fase adulta, quando realizam vôos curtos (centenas de metros), atingindo distâncias de alguns quilômetros em busca de plantas hospedeiras para alimentação e ambiente para sobrevivência. Necessitam de alimento rico em proteína (grãos de leguminosas) para desenvolver o ovário e reproduzir.
Danos
Para se alimentar, os percevejos inserem os estiletes, injetando substâncias histolíticas que liquefazem partes sólidas das células, nas áreas mais nutritivas das plantas. Aprofundam os estiletes e extraem porções líquidas e nutritivas para a alimentação.Na fase vegetativa o percevejo barriga-verde (Dichelops furcatus e Dichelops melachantus) causa danos em plântulas de soja, resultando no tombamento e na quebra do caule (Fig. 1). Nos meses de inverno ele se abriga em plantas hospedeiras como ervilhaca, cornichão, trevos, buva, caruru e outras espécies. Depois da dessecação com herbicidas, as plantas hospedeiras morrem e o ambiente seco da palha na superfície do solo torna-se impróprio para o inseto. Para voar o percevejo necessita nutrir-se para desenvolver os músculos de vôo. Assim, alimenta-se avidamente de plântulas de milho ou de soja. Depois de desenvolver os músculos de vôo, os adultos migram da área. Os sintomas nas plantas aparecem três semanas depois (Fig. 1).Os demais percevejos (Nezara viridula, Piezodorus guildinii e Euchistus heros) desenvolvem populações a partir da fase de formação de legumes e especialmente na de enchimento de grãos da soja. Os danos mais significativos ocorrem na fase de enchimento de grãos.Não há evidências de cultivares resistentes ou tolerantes aos percevejos. As cultivares tardias são as que sofrem danos mais intensos por causa da migração dos insetos das áreas de soja de ciclo precoce e médio colhidas. As cultivares com tamanho de grão pequeno parecem sofrer menor efeito na redução de rendimento do que as de grãos de tamanho maior.
Controle
Nos cerrados, suspeita-se da resistência de percevejos ao inseticida endossulfam, depois de uso sucessivo desse produto. A rotação de inseticidas, alternando produtos de diferentes grupos químicos, é estratégia importante para evitar a seleção de populações resistentes.Os inseticidas para controle de percevejos agem penetrando nos pêlos táteis, nos tarsos, e pelo contato direto com o corpo do inseto.No caso do percevejo barriga-verde, recomenda-se monitorar as lavouras, com leguminosas e outras plantas hospedeiras de inverno, e controlar a praga antes da germinação do milho ou da soja. O cultivo de leguminosas de inverno (ervilhaca) em faixas pode ser usado como planta armadilha para atrair o inseto nos meses de inverno, e controlar antes da semeadura das culturas de verão.Os percevejos que atacam grãos de soja devem ser controlados a partir da fase de formação de grãos. As lavouras destinadas à produção de sementes e as de cultivares tardias devem ser monitoradas para evitar danos maiores. A geração do percevejo desenvolvida em cultivares precoces migra para as áreas de cultivares tardias. As lavouras destinadas à produção de semente necessitam maior atenção por causa da exigência de elevado poder germinativo e vigor, em função da baixa população de plantas de soja adotada pelo agricultor.