Produção Comercial de Culturas Irrigadas sob Plantio Direto (Ivan Carlos Bohrz Três Irmãos Cruz Alta-RS)


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Publicado em: 01/02/2002

Produção comercial de culturas irrigadas sob plantio direto

Ivan Carlos BohrzEng.-Agr., Agropecuária Três Irmãos - Cruz Alta-RS. E-mail: ivancbohrz@annex.com.br

Os investimentos, as tecnologias e as estratégias de produção sofreram modificações nos últimos anos, passando do binômio trigo/soja em plantio convencional, para um sistema de produção em plantio direto. Isso promoveu a diversificação da atividade agrícola, incrementou a rotação de culturas, a aplicação de irrigação em áreas problemáticas em relação à distribuição das chuvas, o controle de custos com o uso da informática, o trabalho em grupo familiar e as parcerias com outros grupos, empresas e cooperativas.A região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul possui um relevo ondulado, sofrendo influências do clima, alternando frio e calor, com geadas rigorosas no inverno e temperaturas elevadas no verão. A produção de grãos, carne e leite sem o uso do plantio direto na palha, a diversificação, a rotação de culturas, a irrigação, o controle de custos, o trabalho familiar e as parcerias, seria quase impossível sem investimentos em tecnologia. Com isso, a região ficaria sem condições de competir e produzir alimentos. Provavelmente, os solos estariam mais degradados devido à erosão e os rios estariam assoreados, diminuindo a capacidade de gerar energia, o uso da água para consumo humano e irrigações.A capacidade do produtor do Planalto do Rio Grande do Sul de utilizar novas alternativas proporciona a essa região a produção de soja, milho, trigo, cevada, canola, carne, leite e outros. A busca do aumento da produtividade com menor custo e menos danos ao ambiente é uma preocupação constante, demonstrando assim o interesse do produtor pela sustentabilidade da atividade.Na busca de novas alternativas de produção, o produtor deve perguntar-se: como fazer? Com que custo? Existe mercado disponível? Há capacidade de gerenciamento e mão-de-obra qualificada? Isso se faz necessário em qualquer situação, para não ter problemas de difícil solução no futuro. Ao utilizarem a irrigação, também se deve perguntar: Quando irrigar? Quanto irrigar? Qual é o custo? Haverá retorno econômico? Essas questões são sempre difíceis de serem respondidas.Dentro desse contexto, a Agropecuária Três Irmãos, de propriedade de Reno, Seno e Irio Bohrz, desenvolve a agricultura há praticamente quarenta anos, acompanhando as transformações dos meios de produção e, constantemente, se questionando: Como produzir? Quanto produzir? Para quem produzir? Assim, os conhecimentos e dúvidas são repassados de pai para filho, o que deverá ocorrer também com as futuras gerações. As respostas a esses questionamentos vieram com a decisão de investir na irrigação. A irrigação teve início na propriedade, principalmente devido à procura, por parte das empresas produtoras de milho semente, de propriedades rurais com nível tecnológico capaz de atender às exigências para a produção de milho semente, o que aconteceu no ano de 1994, quando foi instalado o primeiro pivô central, em 110 hectares. No final do primeiro ano, vieram as primeiras respostas de como produzir, o quanto se queria produzir e para quem produzir. Posteriormente, foram traçadas metas, com o objetivo específico de instalar oito pivôs centrais, os quais totalizam, atualmente, 30% de área irrigada. Entretanto, recentemente, para minimizar as dúvidas de quando irrigar e quanto irrigar, partiu-se para um acompanhamento mais tecnificado da irrigação, com o auxílio de uma estação meteorológica automática e programa de computador, os quais auxiliaram no processo de tomada de decisões acerca do manejo da irrigação na propriedade.Assim, a irrigação surgiu como uma nova ferramenta de trabalho, possibilitando que a atividade agrícola pudesse ser realizada com maior segurança. Mas, o grande desafio é produzir o máximo possível, dentro de um planejamento que permita o manejo sustentável do solo e dos recursos hídricos disponíveis na propriedade. Isso porque as culturas com maior retorno econômico nem sempre são as que oferecem a melhor cobertura ao solo. A associação das culturas com a utilização do plantio direto é uma preocupação constante. Normalmente, um sistema de rotação de culturas observa a manutenção da atividade em longo prazo. Portanto, no esquema de rotação de cultura deve-se utilizar o trigo, a cevada, a canola, além das culturas para cobertura no inverno; no verão, utilizam-se as culturas da soja, o feijão, o milho e o milho semente (quadro 1).

Quadro 1. Esquema demonstrativo do sistema de rotação de culturas em função do manejo da irrigação e do solo. Cruz Alta, RS, 2001.

Ano Agrícola

Época

Verão

Inverno

Safra 1999/2000

Milho semente

Cobertura

Safra 2000/2001

Milho

----------

Safrinha 2001

Feijão

Trigo

Safra 2001/2002

Soja

Canola

Safra 2002/2003

Milho semente

Cobertura

Safra 2003/2004

Milho

----------

Safrinha 2004

Feijão

Cevada

É importante também mencionar que os sistemas de rotação de culturas estão sujeitos a alterações, devido ao isolamento (necessário em lavouras utilizadas para a produção de sementes), ao mercado e aos sistemas de irrigação conjugados. Isso significa que cada caso deve ser analisado separadamente. Deve-se, também, levar em consideração as atividades da propriedade para não coincidir as épocas críticas de manejo das culturas, principalmente em pivôs alimentados por uma mesma adutora. Além disso, deve-se observar as épocas de polinização do milho semente, uma vez que não poderá haver cruzamento de pólen entre áreas adjacentes.É importante lembrar que o manejo das áreas não irrigadas é totalmente diferente da área irrigadas, e deve ser conduzida de maneira distinta. Normalmente, a área cultivada não irrigada é ocupada com milho (50%) e soja (50%), no período primavera-verão. No inverno, utiliza-se trigo e plantas de cobertura de solo. Dessa forma, consegue-se excelentes produtividades, como é o caso do milho não irrigado, onde a média dos últimos três anos foi 65 sc/ha e soja de 48 sc/ha, conforme mostra o quadro 2.

Quadro 2. Rendimento médio das culturas do milho e soja não irrigadas, em três anos agrícolas. Cruz Alta, RS, 2001.

Cultura

Ano Agrícola

Milho

Soja

1998/99

65 sc/ha

45 sc/ha

1999/00

45 sc/ha

43 sc/ha

2000/01

87 sc/ha

57 sc/ha

Essas áreas foram influenciadas pela ausência de chuvas, a exemplo da safra 1998/99, onde a estiagem reduziu o rendimento de grãos de milho semeados no cedo que representava 50% da área cultivada. Na safra 1999/00, a estiagem afetou o cultivo não irrigado de uma maneira uniforme, nas diferentes épocas de cultivo.Porém, a propriedade trabalha com um planejamento mais amplo, que prevê receitas mensais e não somente anuais. Por isso, a produção inclui bovinocultura de leite e suinocultura, as quais necessitam de um plano de produção diferenciado. A suinocultura tipo terminação representa um total anual de 4.800 animais por ano. A atividade leiteira requer planejamento diferenciado, pois produz 2.000 litro por dia, com as vacas alimentadas no pasto, em áreas específicas que seguem outro manejo de rotação.Dentro do sistema apresentado no quadro 1, temos várias culturas para serem utilizadas no sistema de rotação em áreas irrigadas. Em termos econômicos, o milho e/ou milho semente seriam as culturas mais importantes dentro do esquema. O milho é uma cultura sensível à deficiência hídrica, apresentando resposta expressiva em relação à aplicação de água via irrigação suplementar, garantindo maior segurança ao produtor, com melhor aproveitamento da adubação, possibilitando a expressão do maior potencial genético da cultura. Comportamento semelhante também é observado para o milho semente, pois além de garantir a produção, a empresa produtora de sementes tem a garantia de obtenção do produto comercial.Na figura 1 é apresentado o esquema de rotação de culturas da soja e milho semente, da safra agrícola 2000/01.A soja entra no sistema de rotação sendo uma cultura que apresenta maior tolerância a curtos períodos de deficiência hídrica, ou seja, possui melhor poder de recuperação, após a ocorrência de falta de chuvas. Por isso, nas condições de clima e solo do Rio Grande do Sul, a resposta da soja à irrigação suplementar é menor, em comparação ao milho e feijão.A cultura do feijão (preto ou carioca) também se enquadra no sistema de rotação adotado, mas são culturas que apresentam maiores riscos, pois sendo mais sensíveis à ocorrência de geadas atemporais, uma vez que o período de semeadura se estende de setembro a fevereiro, na safra e safrinha, respectivamente. Assim, quando as geadas ocorrem tardiamente no inverno (setembro) ou antecipadamente no outono (abril), o desenvolvimento inicial da cultura é enormemente afetado. Porém, o principal problema que afeta o cultivo dessa cultura é o mercado (comercialização), e a quantidade de hectares a serem semeados. Além da irrigação, a mecanização da colheita contribuirá muito para o incremento do feijão na região do Planalto.O trigo, a cevada e a canola são cultivadas como culturas comerciais de inverno; além de serem utilizadas no sistema de rotação de culturas, contribuem para a manutenção do sistema de plantio direto na palha, contribuindo para a uniformização da adubação na área. São culturas que, no Planalto do RS, não necessitam de irrigação suplementar mas, no caso da cevada e da canola, utiliza-se a irrigação para uniformizar a germinação, contribuindo para melhorar a maturação da cultura no final do ciclo. Utiliza-se também a irrigação para suprir a falta de chuvas durante o desenvolvimento vegetativo. O lucro sempre foi meta da atividade agrícola, porém esse nunca deve estar dissociado da preservação dos recursos naturais. Assim, os conhecimentos, experiências positivas e negativas acumuladas nas últimas décadas de atividades na Agropecuária Três Irmãos, são a base e estrutura que essa geração acumulou, está tentando preservar e repassar para as futuras gerações.

Trabalho publicado nos Anais do Seminário sobre “Irrigação por aspersão no Rio Grande do Sul” - Santa Maria-RS, 2001.