A cultura do milho é fundamental na estabilidade do plantio direto
“Existe uma relação de dependência entre a cultura do milho e o sistema plantio direto, em função da quantidade de resíduos que ela produz. Principalmente na região do Cerrado, a estabilidade do sistema produtivo depende muito da matéria orgânica, que só pode ser alcançada com a deposição de uma grande quantidade de palha sobre o solo.”A afirmação é do professor Antonio Luiz Fancelli, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP, de Piracicaba, São Paulo, pesquisador na área de fisiologia da produção e uma das maiores autoridades na cultura do milho, requisitado para palestras e assessorias em todas as regiões produtoras do cereal, no Brasil. Numa passagem pelo Rio Grande do Sul, na segunda quinzena de dezembro de 2001, ele concedeu-nos uma interessante entrevista, onde manifestou, entre outros assuntos abordados, uma preocupação com a redução na área plantada com milho, em todo o país, em função da importância que a cultura tem para a estabilidade do plantio direto. “Acredito que podemos ter perdido dois anos na busca dessa estabilidade, ao trocarmos o milho pela soja, procurando um preço alto que pode ser ilusório, quando chegar a época da colheita”, afirmou Fancelli na entrevista à Revista Plantio Direto. A seguir, um resumo da conversa que tivemos com o professor da ESALQ/USP, em Passo Fundo.Revista Plantio Direto - Qual é o real percentual de redução da área plantada com milho, no Brasil, na presente safra?Antônio Luiz Fancelli - Os jornais apresentam um percentual médio de 10% de redução na área de milho, mas acredito que seja muito mais. Os estados que mais reduziram foram o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde o percentual pode chegar a 30%. A região Centro Oeste, que considero importante para a produção de milho, teve uma redução média de 17 a 20%, enquanto São Paulo deve situar-se em torno de 12%, na queda de área plantada neste verão. O que mais chama a atenção é o Estado de Santa Catarina, onde estive recentemente. Os pequenos produtores, com áreas de 20 a 30 ha, deixaram de plantar milho, comprometendo inclusive o mecanismo de integração com as empresas produtoras de suínos e aves. É triste ver o pequeno agricultor sem informações objetivas para adequar à sua condição, sacrificando um programa de rotação, que poderia favorecer a estabilidade da produção e da propriedade, para ir simplesmente atrás de preço. Na região do Cerrado, onde predominam as grandes propriedades, o agroecossistema é muito dependente da matéria orgânica para se manter estável e produtivo e a cultura do milho é peça-chave nesse mecanismo, pela quantidade de resíduos que proporciona.RPD – Como está a questão da incidência de doenças, principalmente na região do Cerrado, onde aconteceram focos importantes, na safra passada?Fancelli - Na verdade, embora os focos maiores tenham sido registrados no Cerrado, no caso da Cercosporiose, ela já foi detectada em São Paulo e no Rio Grande do Sul. A doença apareceu há três anos, principalmente na época da safrinha. Evidencia-se uma tendência de se responsabilizar o sistema de plantio direto pela expansão da doença. Porém, acredito que, se hoje podemos considerar 15 milhões de ha sob plantio direto no Brasil, a grande maioria apenas faz uma agricultura sem revolvimento do solo, sendo que a área com um plantio direto praticado realmente como deve ser, não passa de 50% desse total. Isso é um dos fatores que acabam favorecendo o aparecimentos de fungos agressivos nas culturas, principalmente aqueles de natureza necrotrófica, que sobrevivem em restos culturais. Este, possivelmente, foi um dos fatores básicos do aumento de doenças na região Centro Oeste do país. A principal delas tem sido a Cercosporiose, mas a Diplodia macrospora é um patógeno que está assustando. Também está sendo registrado um aumento sério de antracnose do milho, justamente pela falta de rotação de culturas e em função de plantio direto mal feito. Num determinado momento, para agilizar o sistema, facilitar a operação de semeadura ou até mesmo objetivando uma possível redução da compactação, o produtor utiliza indiscriminadamente uma grade destravada, acreditando que isso possa ser considerado plantio direto.RPD – Na presente safra, tem acontecido o mesmo quadro, em termos do aparecimento de doenças?Fancelli – Sim. Não somente no Sudoeste Goiano, onde se planta mais cedo, mas também em regiões como Formosa, Luziânia e Cristalina, o chamado Entorno de Brasília. Nessas regiões, o problema mais sério é a falta de rotação de culturas e o ambiente desfavorável, pois a condição climática tem favorecido a ocorrência de doenças, principalmente a Cercosporiose. Hoje, já se fala na necessidade de aplicação de fungicidas.RPD – Os produtores tem buscado uma solução química para controle das doenças em milho?Fancelli – Na safra passada, na região de Rio Verde e de outros municípios adjacentes, onde foi constatado o maior foco de cercosporiose, foi utilizado fungicida em diversas lavouras. Dados indicavam que 60% das lavouras de milho necessitavam de controle. Não se tem muitos resultados sobre a eficiência e quais seriam os fungicidas mais indicados. As estrubilurinas, que tem mostrado resultado bastante satisfatório, são moléculas caras. Estão surgindo novos produtos, como a mistura de estrubilurinas com triazóis, fórmulas que poderão resultar em um espectro maior de controle. e, no caso de algumas doenças, poderia ser feito um controle preventivo. Mas a Cercosporiose não tem mostrado resultado satisfatório com o tratamento preventivo. O ideal seria fazer a aplicação quando a doença fosse constatada, principalmente no terço médio da planta, isto é, nas duas folhas acima e nas duas abaixo da espiga. Este seria o momento de fazer o controle. Entretanto, existem dificuldades porque, nesse momento, a planta já está num porte avantajado, o produto é caro e o preço do milho não tem sido compensador ultimamente.RPD – E a resistência genética?Fancelli – Alguns genótipos que até então eram considerados tolerantes à Cercospora, este ano não tiveram desempenho muito adequado, mostrando que o Brasil ainda carece de materiais mais eficientes nesse sentido. A pesquisa já está sensibilizada, de três anos para cá e, acredito que, dentro de dois anos, teremos genótipos mais adequados à essa situação.
Cercospora e a polêmica
RPD – Quais as condições que favorecem mais o aparecimento da Cercosporiose?Fancelli – Essa doença começou numa época de safrinha, justamente porque tivemos um ano atípico, caracterizado pelo prolongamento do período das chuvas. A condição favorável para a doença é exatamente esse período prolongado com umidade. A folha permanecendo molhada por 12 horas (umidade superior a 90%) é a condição ideal para que ocorra a infecção e o patógeno domine a planta. A esporulação é abundante sob nebulosidade, alta umidade e temperatura entre 25 a 30oC. Existem algumas controvérsias a respeito dessa doença. Teoricamente ela não deveria aparecer em regiões baixas, porque se trata de um patógeno que exige temperatura noturna relativamente baixa. Porém, temos visto que, na região de Santa Helena e Acreúna, em Goiás, por exemplo, que são regiões de altitudes menores, a doença tem se manifestado. Isto tem provocado uma discussão muito grande sobre a possibilidade de se tratar de uma espécie diferente da Cercospora Zea-maydis, com a qual se tem trabalhado, ou até mesmo suspeita-se da ocorrência de mais de uma espécie. Alguns pesquisadores sugerem a possibilidade de uma adaptação exclusiva para as nossas condições já que, na literatura, nas situações em que ela tem aparecido, teoricamente, não deveria ocorrer com tamanha severidade.RPD – Como ocorre a disseminação da doença?Fancelli – Hoje se discute muito essa questão. Ela tem esporos relativamente pesados e a disseminação pelo vento, apesar de ser eficiente, não explica a sua disseminação rápida. Existem suposições, uma delas levantada pelo professor Erlei Melo Reis, da Universidade de Passo Fundo, de que a doença possa ser veiculada pela semente. Isso tem criado uma polêmica grande, porque os dados de literatura mostram que não existe, até o momento, notícias de que a Cercospora seja transmitida pela semente. O professor Erlei lembra que a Cercospora apareceu em Goiás, passou para Minas Gerais, depois São Paulo e foi aparecer em Passo Fundo, nas parcelas de pesquisa da UPF. Se vieram pelos meios normais, por que o Paraná e Santa Catarina ficaram de fora ? O professor Erlei e sua equipe, além de outros colegas da Embrapa, estão trabalhando com afinco para dirimir essas dúvidas. Uma coisa é certa: a Cercospora está se alastrando e plantio direto mal feito, sem rotação de culturas, favorece o seu desenvolvimento.RPD – Uma safra de soja bastaria para reduzir ou eliminar o inóculo de Cercospora? O que você recomenda para os produtores e técnicos?Fancelli – A primeira recomendação, naturalmente, é a utilização imperiosa de programas eficientes de rotação de culturas. Conforme a região, acredito que somente um ano com soja não bastaria, pois nesse período, existindo palhada de milho remanescente, o patógeno pode estar presente e, se as condições climáticas forem favoráveis, ele pode germinar e afetar a cultura instalada. Então, em regiões mais frias (altitudes e/ou latitudes elevadas), onde a decomposição da palha é mais lenta, a rotação tem que envolver dois anos, incluindo soja e outras culturas não susceptíveis. Em regiões mais baixas e quentes, como é o caso de parte do território de Goiás, um ano poderia ser suficiente. É fundamental a prática de um sistema de plantio direto de maneira adequada, mas também é importante reduzir as chances de estresse para a cultura, pois a Cercospora é uma doença que ocorre muito em hospedeiro seriamente estressado.
Estresse e sistema radicular
RPD – Quais são as precauções que podem ser tomadas para evitar o estresse e a entrada da doença?Fancelli – A existência de nitrato livre na planta favorece a instalação do patógeno. Por isso, é importante realizar a adubação nitrogenada cedo, não fazê-la em quantidade excessiva e nem muito tarde. Após a oitava folha, tem se observado o aumento da incidência tanto de Cercospora como de Phaeosphaeria. Estamos trabalhando com a aplicação de manganês e cobre, via foliar, entre a quarta e a sexta folha, não para satisfazer a necessidade nutricional da planta, mas para incentivar o metabolismo e a produção de fitoalexinas, que ajudam na proteção natural contra a Cercospora. Outra medida importante é escolher bem a época de semeadura, conhecer o comportamento climático da região, de tal maneira que, em termos probabilisticos, o período chuvoso não coincida com a fase compreendida entre a emissão da décima e da décima quarta folha, possivelmente o período em que a infecção tem ocorrido com maior freqüência. Esse fato não significa que a infecção ocorra somente nesse momento.Quanto à adubação, é necessário que ela seja equilibrada, principalmente em relação a nitrogênio, potássio e enxofre. Temos observado, inúmeras vezes, que o agricultor tem exagerado no uso de N. O potássio é trabalhado de forma adequada, quanto à quantidade, porém o posicionamento desse nutriente é muito negligenciado. Com relação ao enxofre, normalmente, verifica-se plantas deficientes desse elemento, o que gera um desequilíbrio nutricional (estresse) e deixa a planta mais propensa à ocorrência de Cercospora. Assim, mostra-se importante o monitoramento contínuo da lavoura, principalmente na época de pendoamento, para identificar possíveis manchas nas duas folhas abaixo e nas duas acima da espiga. RPD – Quais as conseqüências do estresse decorrente do desenvolvimento inadequado do sistema radicular da cultura do milho?Fancelli – O estresse, de natureza diversa, é um fator que afeta seriamente o potencial de produção de todas as culturas. No caso do milho, temos observado que um dos problemas mais sérios na geração do estresse é a questão do sistema radicular. Ele foi negligenciado por muito tempo, pois só observamos a parte aérea das plantas. O estresse, em termos de raiz, pode ser causado pelo emprego inadequado de insumos. Por exemplo, adubações foliares e adubações nitrogenadas tardias, utilizadas sem critério, podem provocar um desenvolvimento da parte aérea maior do que seria suportável pelo tamanho do sistema radicular que a planta apresenta. Outro exemplo, que pode restringir o sistema radicular, diz respeito à proximidade de fertilizantes, à base de cloreto de potássio, das sementes, e do uso contínuo de fertilizantes com baixa concentração de Ca e S. Todos esse problemas poderão ser evidenciados, independente da questão compactação. Os problemas, atualmente concentram-se mais no aspecto químico. Uma calagem desnecessária, por exemplo, pode provocar uma concentração muito alta de nutrientes na camada superficial, o que acarreta uma redução no crescimento das raízes de primeira e segunda ordem, que são as raízes rastreadoras de água. Como a planta identifica o nicho de alta concentração de nutrientes, não vai haver estímulo suficiente para o crescimento da raiz em profundidade. Quando ocorre a falta de água, essa planta vai sentir bastante, principalmente porque poderá estar com a parte aérea muito maior do que deveria em relação ao tamanho da raiz. Em suma, precisamos trabalhar mais nesse aspecto, dar maior ênfase à construção de raízes, para as condições tropicais e subtropicais, pois o desenvolvimento efetivo do sistema radicular e a garantia da adequada relação parte aérea-raiz são considerados fatores preponderantes de sucesso e de garantia de alta produtividade.