Agricultura ecológica tem crescimento significativo em vários países
Seminário Internacional de Porto Alegre apontou tendências no mercado de produtos orgânicos
O Rio Grande do Sul está sendo apontado como um modelo na produção agroecológica. O fato ficou evidenciado durante a realização do 2º Seminário Internacional de Agroecologia, realizado em Porto Alegre, no final de novembro, com a presença de 2,3 mil pessoas. O evento foi uma promoção da Emater/RS e da Fepagro, a Fundação de pesquisas do Estado, que assumiram totalmente a proposta de uma agricultura sem a utilização de agroquímicos e fertilizantes não naturais. Embora proporcionalmente ainda seja pequena a área onde a agroecologia é praticada, o crescimento foi significativo, nos últimos dois anos, pois os levantamentos mostram que estão cadastradas 3,77 famílias, que trabalham numa área total de 13 mil ha, em 162 municípios do Rio Grande do Sul. Estes números não contabilizam os produtores familiares que trabalham apenas com culturas de subsistência. Há dois anos, pouco mais de mil famílias trabalhavam 2,5 mil hectares sem a utilização de adubos químicos e pesticidas. As experiências são bastante variadas, mas apontam principalmente para o cultivo de hortigranjeiros e grãos, que ocupam uma área de 1,9 mil ha, envolvendo 2,1 famílias, e 5,5 mil ha, com 900 produtores, respectivamente. Os principais produtos são citrus, uva, pêssego, figo, morango, tomate, pepino, batata, folhosas, soja, milho, feijão e arroz. Os trabalhos pioneiros no Estado remontam ao início da década de 80, estimulados principalmente por organizações não governamentais, mas sem o apoio de políticas públicas. As técnicas ecológicas ganharam novo impulso a partir de 1999, quando a Emater/RS incorporou a proposta de desenvolvimento sustentável e da Agroecologia. A organização de feiras onde os produtores vendem diretamente aos consumidores, em diversas cidades do Estado, tem sido um instrumento eficiente para a evolução desse segmento.No encerramento do Seminário, o diretor-técnico da Emater/RS, Francisco Caporal, destacou a participação quantitativa e qualitativa do público. Ele disse que o evento demonstrou ser a agroecologia uma prática viável e que encontra, no Rio Grande do Sul, um importante espaço para o seu desenvolvimento. Para 2002, o III Seminário Internacional ficou agendada para os dias 10 a 12 de setembro.
Internacional
Entre as pessoas que participaram do Seminário Internacional de Agroecologia, em Porto Alegre, estavam presentes produtores, estudantes, pesquisadores e professores de universidades, além de representantes de organizações não governamentais da Europa, Estados Unidos, México, Argentina, Japão e de outros países, que fizeram uma ampla análise do potencial que a agricultura ecológica, em suas diversas matizes, apresenta no momento e para o futuro próximo.“A agroecologia está crescendo 20% ao ano nos Estados Unidos, um país no qual os produtores pensam primeiro no lucro e depois no ambiente”, afirmou Stephen Gliesmann, professor de agroecologia da Universidade da Califórnia, que já esteve no Brasil e no Rio Grande do Sul, onde fez inúmeras palestras e lançou um livro, uma espécie de bíblia do assunto. Participando do Seminário Internacional de Porto Alegre, ele descreveu a atual situação da produção orgânica nos Estados Unidos e fez um comparativo com o que está acontecendo no Rio Grande do Sul e no Brasil. “Em nosso país, pesou bastante a redução nos preços dos produtos orgânicos, nos últimos anos. Hoje, eles custam entre 10% e 30% a mais que os produtos convencionais mas, há 10 anos, custavam o dobro”, disse o professor da Universidade da Califórnia. Segundo ele, o potencial de crescimento da agroecologia no Brasil é maior do que nos Estados Unidos, porque a concentração da propriedade rural ainda não é tão acentuada entre nós. Nos Estados Unidos, um produtor de soja com 200 ha e um produtor de horti-grangeiros com oito ha são considerados pequenos. Para Gliesmann, as estruturas familiares e as feiras que oferecem a produção diretamente aos consumidores urbanos são um indicador de que esse é um caminho correto.
Vaca louca
Os consumidores europeus estão traumatizados com o “Mal da vaca louca”, entre outros problemas, e isso está empurrando os agricultores para a produção orgânica. “O cultivo ecológico representa atualmente 10% da produção agrícola da Europa, índice que não passava de 1% há 10 anos atrás, e a tendência é de que continuará a crescer”. As afirmações são de Philip Woodhouse, professor de Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural da Universidade de Manchester, Inglaterra. Ele disse que, no seu país, as próprias redes de supermercados incentivam o consumo de produtos orgânicos, abrindo generosos espaços para esses produtos em suas gôndolas. Já o mexicano Enrique Leff, membro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, disse que “Está em curso uma revolução ambiental no mundo, que restabelece o vínculo entre os homens e a natureza”. Para Leff, a agroecologia é uma alternativa à racionalidade do mercado e à economia globalizada, que favorece à reapropriação do patrimônio histórico dos produtores.“A agroecologia nos traz de volta as relações entre os seres humanos e o produtor cria, através de seu conhecimento, o seu próprio saber fazer, numa relação com a vida e com a terra”, disse ele em sua palestra, denominada “Agroecologia e saber ambiental”.