A Agricultura e a Crise Argentina (Editorial Dirceu Gassen Cooplantio)


Autores:
Publicado em: 01/02/2002

A agricultura e a crise Argentina

Dirceu GassenDiretor Técnico da CooplantioA Argentina enfrenta profunda crise fiscal, financeira e política. A relação entre a moeda Argentina (peso) fixada por decreto lei à moeda dos Estados Unidos da América (dólar) resultou em distorções. Os resultados dessa crise na agricultura do país vizinho e as conseqüências que possam ocorrer, a nível de Mercosul, são fontes de preocupação para os produtores brasileiros.A evolução do perfil do agricultor na Argentina foi descrita por economistas da AAPRESID (Associação Argentina de Produtores de Plantio Direto), com base em propriedade de 400 hectares. Segundo esse estudo, em 1985, antes da reforma da economia, o agricultor morava na cidade, um capataz conduzia as atividades de campo, com mais seis operários rurais. Cinco anos após, em 1990, a necessidade de reduzir custos e de reestruturação da unidade produtiva resultou na demissão dos empregados. O proprietário passou a ir quase todos os dias para a lavoura e, junto com o capataz, acompanhava ativamente a execução dos trabalhos.Em 1995, a baixa rentabilidade da lavoura provocou novas alterações. O proprietário mudou-se para a fazenda e demitiu o capataz. O agricultor desenvolve as atividades de semeadura até a colheita e contrata mão-de-obra eventual ou serviços de terceiros, para atividades emergenciais.O agricultor argentino apresenta perfil cada vez mais parecido com o da América do Norte. Envolve a mão-de-obra familiar, com rigoroso controle contábil e gerenciamento da atividade.A relação distorcida e artificial do valor da moeda argentina levou o País a uma profunda crise política e recessão econômica. A agricultura será afetada de forma diferente. Já houve a seleção de produtores profissionais em gestão e reestruturação do tamanho da propriedade proporcional à atividade principal.O que parece ser uma ameaça ao agricultor argentino merece uma reflexão. A Argentina é auto-suficiente em petróleo, o que não elevará o preço do combustível nem do fertilizante nitrogenado, o mais usado em milho e trigo. Haverá aumento no preço de insumos importados como herbicidas. A soja transgênica, tolerante ao herbicida glifosato, ocupa 98 % da área cultivada com custo inferior a US$ 20,00/ha, para controle de plantas daninhas.Por outro lado, aproximadamente 95 % da soja e 70 % do trigo produzidos na Argentina são exportados, e a desvalorização da moeda trará em aumento de renda para o produtor. A crise poderá resultar em maior competitividade e renda para o agricultor argentino, além de alimentos mais baratos no mercado brasileiro.