Plantio direto de algodão: alternativa para safrinha nos trópicos úmidos
Lucien Séguy1, Serge Bouzinac1, Ângelo C. Maronezzi1, Jean Louis Belot1, José Martin51Pesquisadores do CIRAD-CA, sediados no Brasil5Diretor da Agronorte, empresa privada de pesquisas agronômicas
Introdução
No início dos anos 90, a produção algodoeira concentrava-se no estado do Paraná e regiões vizinhas. O estado do Mato Grosso produzia somente 5% da produção nacional. Porém, nos últimos anos, esse quadro se inverteu e o Mato Grosso tornou-se o primeiro produtor do país, com 50% do total produzido. Houve uma grande mudança na produção de algodão, em termos de clima, passando de subtropical para tropical úmido, e de solos, passando de latossolos vermelho escuros sobre rochas básicas para latossolos vermelho amarelos e amarelo cinzas sobre rochas ácidas. A cultura algodoeira saiu de regiões subtropicais, com forte potencialidade, mas limitada pela prática contínua da monocultura e por solos degradados, para a região tropical, com solos potencialmente inferiores em termos de fertilidade, porém, geridos por sete a dez anos sob plantio direto, com sistemas à base de soja, arroz de sequeiro + safrinhas (milho, milheto, sorgo). O Sistema Plantio Direto (SPD) propicia solos protegidos contra a erosão, com excelentes propriedades físicas, biologicamente sadios e muito favoráveis à cultura do algodão. Além disso, os produtores do Mato Grosso, penalizados por custos maiores (fretes) e preços recebidos menores (ausência de indústrias de transformação), desenvolveram uma tecnologia elevada para poder competir na agricultura globalizada. Estes fatos explicam, em grande parte, porque o Mato Grosso é hoje o primeiro produtor de soja e algodão do Brasil, apesar do seu relativo isolamento econômico. As produtividades superam 200@/ha de algodão de caroço, alcançando, às vezes, mais de 300@/ha. Porém, a cultura algodoeira deverá enfrentar importantes desafios para se consolidar. Em primeiro lugar, terá que diminuir custos de produção (maior que US$1.200,00/ha, para metas de produtividade igual ou maior do que 250@/ha), acarretando risco econômico muito alto (custos de produção superiores aos preços atuais das terras). Em segundo lugar, terá que otimizar a integração da cultura algodoeira no Sistema Plantio Direto diversificado para gerar fertilidade organo-biológica e efetivar produtividades elevadas e estáveis, com níveis moderados de adubação mineral (Séguy et al.,2001). A lei obriga o agricultor a gradear a soqueira do algodoeiro, medida profilática para controlar algumas pragas importantes, o que pode tornar-se um tanto ilusório, enquanto os pousios em voltam permitam mantê-las. Em conseqüência, ressurge uma série de problemas, como solos expostos à erosão, sementes de invasoras reativadas, mineralização acelerada da matéria orgânica, implicando em queda de fertilidade, menor acesso de máquinas às parcelas e queda do desempenho das plantadeiras. A ”ganância” está induzindo uma deriva para a monocultura que, inevitavelmente, acarretará a falência (Séguy et al.1996, 1998, 2000). Além disso, os aspectos operacionais da cultura algodoeira, com forte nível de insumos, são extremamente constrangedores. Esse conjunto de problemas constitue uma ameaça real para a perenidade do Sistema Plantio Direto, baseado na gestão organo-biológica do recurso solo, sem preparo e com rotação de culturas (Séguy et al. 1996, 2001).O CIRAD está empenhado, desde 1996, com vários parceiros brasileiros (Agronorte, Grupo Maeda, Coodetec) no ajuste de três cenários principais para a produção de algodão no Sistema Plantio Direto:1. Cultura anual de algodão, em seguida de potentes biomassas, plantadas cedo, proporcionando um efeito real de rotação.2. Algodão como cultura principal, a cada dois ou três anos, em rotação com sucessões anuais (soja ou arroz + safrinhas de grãos, consorciadas ou não, com espécies forrageiras). Este cenário incorpora todos os fatores de produção favoráveis à perenização da cultura algodoeira (Séguy et al., 2001).3. Algodão de safrinha, também integrado em rotações, com plantio entre 10 de janeiro e 10 de fevereiro, com duas opções principais:A - Plantio sobre potentes biomassas, semeadas nas primeiras chuvas, a baixo custo (US$ 50,00/ha);B - Plantio após culturas de soja ou arroz de ciclo curto, semeadas nas primeiras chuvas.O presente artigo apresenta os conceitos de construção dos Sistemas Plantio Direto que integram a safrinha de algodão, assim como o seu desempenho técnico e econômico, vista como uma alternativa complementar à cultura principal, porém, com menor risco econômico.
Material e métodos
A safrinha de algodão objetiva um nível de produtividade estável de 160 a 220@/ha, com custo de US$ 500,00 a US$ 700,00/ha. As etapas metodológicas de construção dos sistemas de cultivo incluem:1. Definição da data de plantio mais tardia, compatível com as metas de produtividade.2. Integração das sucessões anuais, que incluem safrinha de algodão (soja e arroz de ciclos curtos + algodão, biomassas de início de estação chuvosa + algodão), em Sistemas Plantio Direto que permitem melhorar e manter o perfil cultural, favorecendo um enraizamento rápido e profundo do algodoeiro, mobilizam uma forte e constante capacidade de produção do solo, por via organo-biológica, a fim de reduzir a adubação mineral e minimizar a incidência das doenças criptogâmicas e, finalmente, controlam as invasoras, com custo menor, através do sombreamento e da alelopatia das biomassas de cobertura.3. Conexão do algodoeiro com a água mais profunda do solo, importante reserva hídrica, disponível abaixo da área de utilização das culturas comerciais.A resolução dos objetivos agronômicos deve permitir atingir as metas de redução dos custos. A integração da safrinha de algodão, em Sistema Plantio Direto diversificado, conduz ao desafogo do calendário operacional da cultura principal do algodão, constituindo um prolongamento lógico da cultura principal, com menor risco econômico.Os caminhos experimentais, que permitem resolver esses três objetivos simultâneos, tratam essencialmente da otimização das interações entre genótipos (potência radicular, estabilidade de produção) x sistemas de cultivo em plantio direto (modo de gestão do solo). Os trabalhos de pesquisa, durante os últimos quatro anos (1997 - 2000), foram realizados em condições reais de lavoura comercial e proporcionaram: a) avaliação agronômica das opções de sistema de cultivo; b) triagem varietal de algodão, efetuada dentro das opções de sistemas de cultivo selecionadas, e c) evolução no manejo e controle de pragas e doenças do algodão, assim como nas demais culturas de safrinha (milho, milheto, sorgo).
Resultados
Acerto da data de plantio mais tardiaO plantio de algodão em Mato Grosso é realizado em dezembro e no início de janeiro, período muito chuvoso, com aproximadamente 10 a 20 dias úteis para a semeadura. Quanto mais curto o período de plantio, mais congestionado o calendário operacional posterior, com maior exigência em termos de equipamentos onerosos. A opção A pode ser implantada sobre potentes biomassas de baixo custo, semeadas nas primeiras chuvas, a partir de 10-15 de janeiro, com insumos mínimos. As opções B só podem ser instaladas após a colheita do arroz ou da soja, a partir de 20 de janeiro, no melhor dos casos. Portanto, a data do encerramento do plantio deve ser claramente definida.Sendo aleatória a parada definitiva das chuvas, é arriscado definir período de plantio somente baseado na pluviometria. Por isso, é preciso que o algodoeiro possa conectar-se com a reserva de água profunda, abaixo de 1,2 - 1,5 m, limite de bomboeamento das culturas comerciais precedentes (arroz, soja). Medindo a velocidade de descida do sistema radicular do algodão (função das cultivares x modos de gestão do solo), determina-se a data de conexão do algodoeiro com a água profunda (análise sobre dez anos). Os resultados obtidos nos últimos três anos evidenciam que a safrinha de algodão pode ser instalada com risco mínimo até 10 de janeiro, com as melhores cultivares (velocidade radicular, estabilidade dos rendimentos), e as sucessões mais atuantes (perfil cultural favorável).
Produtividades
A produtividade do algodão, como cultura principal, com altos níveis de insumos (acima de 500 unidades fertilizantes de NPK + micronutrientes), varia habitualmente entre 200 e 270@/ha. A produtividade da safrinha, quando suas necessidades em água estiverem totalmente satisfeitas, depende, ao mesmo tempo, da natureza da sucessão de culturas em plantio direto, do nível de fertilidade do solo e das variedades usadas.Na opção A, com um nível anual de adubação mineral muito baixo (35 N + 40 P2O5 + 60 K2O + micronutrientes), a produtividade das melhores variedades (Sicala 32, Coodetec 402, DP 50) oscila entre 130 e 150@/ha. Ao contrário, na mesma opção A, em rotação com sucessões, baseadas em soja ou arroz + safrinhas de grãos, que usam uma adubação mineral maior (20 a 110 N + 95 P2O5 + 95 K2O + micronutrientes), a produtividade varia de 175 para mais de 200@/ha, com as melhores cultivares, mesmo com adubação mineral baixa (35 N + 40 P2O5 + 60 K2O + micronutrientes). Na opção B, a soja ou arroz de ciclos curtos constituem igualmente um excelente precedente para a safrinha de algodão, sendo necessário aplicar uma adubação nitrogenada mais carregada, após arroz (60 a 70 N/ha, em vez de 35 N/ha após soja ou biomassa de início das chuvas), (Séguy et al., 1997/2000).
Escolha de cultivares
Nos três anos de experimentação, as melhores cultivares, em termos de estabilidade e maior produtividade, em condições de adubação mineral baixa, foram Coodetec 402, Sicala 32, ITA 96, Coodetec 405 e, em grau menor, DP 50. Perfis culturais, efetuados a cada ano, aos 60 e 120 dias após o plantio, mostraram que estas cultivares possuem os sistemas radiculares mais possantes e aptos para se conectar rapidamente com a água profunda, atingindo uma profundidade de enraizamento superior a 2 -2,5 m, em 120 dias. As variedades Coodetec 405 e Sicala 32 foram usadas como testemunhas, nas coleções implantadas nos diferentes Sistemas Plantio Direto, para testar as novas criações varietais. Onze variedades superaram a melhor testemunha (Coodetec 402), nos dois anos consecutivos, com produtividades entre 180 e 240@/ha, 3 e 31% a mais do que a melhor testemunha, com rendimentos em fibra e qualidade de fibra boa a excelente, para a maioria delas (Séguy et al., 1998/1999).
Discussão
Os aspectos operacionais da safrinha de algodão conduzem à economia em todos os níveis.Controle de invasoras: na opção B (safrinha de algodão sobre soja e arroz de ciclos curtos), o nível técnico de manejo dessas culturas determina a importância e o custo do controle químico das plantas daninhas. Entre as biomassas testadas na opção A, Eleusine coracana, Brachiaria ruzienzis e o sorgo tipo Guinea são as espécies mais atuantes, permitindo reduzir o controle químico até uma só aplicação de herbicida total com jato dirigido, 40 a 45 dias após o plantio.Adubação mineral: para atingir produtividades de 160 a 200 @/ha, 35 N + 40 P2O5 + 60 K2O + micronutrientes/ha são suficientes, sendo necessário adicionar 35 N sobre palha de arroz. As culturas de soja e arroz (agulhinha tipo 1, melhor qualidade de mercado), que antecedem a safrinha de algodão, produzem, em média, 3.200 a 3.700 kg/ha, e de 4.000 a 6.000 kg/ha, respectivamente (Séguy et al., 2001).Controle de crescimento: a conjugação de um baixo nível de adubação nitrogenada com dias curtos e noites mais frescas, a partir de 60-70 dias após o plantio, propicia um menor crescimento vegetativo e reduz expressivamente o uso de regulador de crescimento (1 tratamento só).Controle de pragas: em três safras, as experimentações ”sistema de cultivo”, conduzidas em grande escala, nunca sofreram forte pressão por pragas. Em média, quatro a seis tratamentos foram suficientes para assegurar um bom controle.Custos de produção: entre US$ 500,00 e 700,00/ha, nos últimos três anos, ou seja, aproximadamente a metade do custo do algodão em cultura principal. O risco econômico é muito menor, com lucro de US$ 300,00 a 800,00/ha.Opções de safrinha: a opção A (plantio sobre fortes biomassas) constitui a alternativa de menor risco econômico. A opção B é subordinada aos preços pagos aos produtores, tanto para algodão como para as culturas de arroz e soja que o precedem. Preços mínimos de US$ 8,00 a 9,00/sc de 60 kg, para culturas de ciclo curto, garantem margens líquidas lucrativas (Séguy et al., 2001).Planejamento operacional: a safrinha oferece a possibilidade de prolongar os plantios de algodão até o início de fevereiro, propiciando o descongestionamento do calendário cultural, evitando custos suplementares de equipamento, assim como a possibilidade de integrar outras culturas de rotação no afolhamento (repartição anual das culturas na fazenda), trazendo melhores gestão e estabilidade econômica.
Conclusões
A safrinha de algodão pode ser uma opção econômica de grande interesse, logo que se incorpore o Sistema Plantio Direto, que utiliza forte biomassas nutricionais nas sucessões anuais. O comportamento ”organo-biológico” da fertilidade toma cada vez mais importância na capacidade do solo em produzir e permite reduzir fortemente a adubação mineral para alcançar produtividades elevadas, até com datas de plantio tardias. A safrinha de algodão produz, dessa maneira, de 170 a 220 @/ha de algodão caroço, com custos entre US$ 500,00 a 700,00/ha. Nos três anos de estudos dessas opções de safrinha com algodão, não anotamos maior incidência de pragas nem de doenças criptogâmicas. O risco de ver a pressão parasitária aumentar parece menor no caso de Sistema Plantio Direto diversificado e não interfere na opção do algodão como safrinha, que pode ser uma alternativa de alto lucro e baixo risco para o agricultor.
Referências bibliográficas
Séguy L., Bouzinac S., Trentini A, Cortes A N. L’agriculture brésilienne des fronts pionniers. Agriculture et développement, v.12, p.1-61, 1996Séguy L., Bouzinac S., Maeda E., Maeda N. Semis direct du cotonnier en grande culture motorisée. Agriculture et développement, v. 17, p. 3-23, 1998.Séguy L., Bouzinac S., Maronezzi A. C. . Relatórios anuais Agronorte/Cirad 1997/98, 1998/99, 1999/2000. Cirad-Ca, Montpellier, France.Séguy L., Bouzinac S., Maronezzi A C.. Sistemas de cultivo e dinâmica da matéria orgânica (em francês e português). 203 p. Cirad-Ca, Montpellier, France, 2001.