Clima: o que esperar para a safra de verão 2001/2002
Paulo EtchichuryMeteorologista - SOMAR Meteorologia - São Paulo - SPE-mail: paulo@somar.met.com.br
Chuvas de Verão
No momento que tem início o preparo e o plantio da safra de verão, logo vem o questionamento sobre os aspectos básicos que envolvem a atividade agrícola: água, luz e nutrientes. Sem dúvida alguma, entre esses aspectos a água acarreta maior preocupação aos agricultores, considerando que esta se renova através do seu ciclo hidrológico e cuja distribuição é desuniforme.O manejo adequado, associado com a disponibilidade (reserva) de água na hora da instalação de uma cultura,determina o sucesso da atividade. Logicamente, essas condições variam de região para região, em função do grau de tecnologia aplicada e, fundamentalmente, da condição de palhada (cobertura) de cada propriedade. O VERÃO, além de apresentar um maior número de horas de incidência solar e temperatura média elevada, para a maior parte das regiões produtoras do País também é caracterizado como a estação das chuvas. Por esses fatores é que o verão configura-se como o principal período de produção de grãos no Brasil.A Figura 1 apresenta a distribuição média mensal da precipitação nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Pode-se observar que, nesses meses, os maiores totais de chuva, superiores a 150 mm, atingem grande parte do país, representada no mapa pelas áreas nos tons de azul, que inclui as Regiões Sudeste, Centro Oeste e Norte, assim como o Paraná, oeste da Bahia, sul do Piauí e do Maranhão, que coincidem com as principais regiões produtoras de grãos do Brasil.Pode-se observar que na parte sul da Região Sul, em especial o Rio Grande do Sul, durante o verão, os totais médios de chuva são menores, variando entre 100 e 150 mm. Já na parte norte da Região Nordeste, incluindo o Agreste e Sertão Nordestino, dezembro ainda é um mês seco, enquanto os totais médios de chuva aumentam em janeiro e, principalmente, fevereiro. De um modo geral, as chuvas registradas nesta primavera, são favoráveis à instalação das culturas de verão, o que renova as expectativas dos agricultores e, em especial, do governo brasileiro, que projeta na próxima safra superar a casa das 100 milhões de toneladas de grãos.
Indicadores Globais
Estamos passando por um período de neutralidade em relação ao comportamento dos oceanos e da atmosfera, isto é, neste ano, não temos nenhum episódio climático como El Niño ou La Niña. Segundo os resultados do modelo Oceânico do Centro de Meteorologia Americano (NCEP/NOAA), representados na Figura 2, essa condição persiste até abril de 2002. A partir de maio, a previsão é de que o Oceano Pacífico equatorial (partes central e leste) entre numa fase de gradual aquecimento, representado na figura pelas áreas nos tons de amarelo. Isso coloca uma perspectiva da configuração de um possível El Niño lá para meados de 2002. Porém, caso se confirme a previsão do El Niño, segundo os principais institutos internacionais de meteorologia, deverá ser um episódio de intensidade moderada a fraca, com possíveis influências (aumento de chuva no Sul) somente no regime de chuvas do final do outono e do inverno de 2002. Porém, vale lembrar que se um episódio de El Niño, nesse período, não representa grandes ameaças para a lavoura brasileira, por outro lado, pode interferir diretamente na próxima safra de milho e soja dos Estados Unidos, já que, de acordo com o conhecimento científico, essas áreas, em caso de El Niño, sofrem com o aumento das chuvas.
Tendências Climáticas
Diante do quadro acima, a projeção para a próxima safra de verão 2001/02 no Brasil é de condições climáticas próximas às médias climatológicas regionais. Porém, nessas condições o Oceano Atlântico passa a exercer uma maior influência na definição da qualidade das chuvas e, sobretudo, no comportamento das frentes frias, as quais estão associados os períodos de chuvas intensas, assim como os períodos de dias mais secos. Região Sul: A tendência para o período de verão é de chuvas próximas a ligeiramente abaixo da média climatológica, especialmente no oeste do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Depois de um período de chuvas mais concentrados no início da primavera, entre novembro e dezembro, é comum ocorrer uma diminuição do volume de chuvas, inclusive com alguns períodos de estiagens, que coincide com os períodos em que as frentes frias ficam mais intensas e freqüentes sobre o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil. A partir de janeiro e especialmente em fevereiro, as chuvas devem ficar em torno da média normal. Porém, ressalta-se que este verão dificilmente será tão chuvoso como foi o verão passado.Região Sudeste: Para esse verão, a tendência é de chuvas em torno da média, lembrando que o verão é a estação das chuvas no Sudeste. A distribuição das chuvas e eventuais anomalias regionais, períodos mais chuvosos ou mais secos, está relacionados diretamente com o comportamentos das frentes frias que, por sua vez, sofrem influencia direta das condições do Oceano Atlântico próximas à costa desta Região. Comparado com o ano passado, que foi mais seco do que o normal, este verão será um pouco mais chuvoso. Isso representa um diferencial para a agricultura, porém não dá para assegurar uma regularização total do nível dos reservatórios de água da região. Região Centro-Oeste: Assim como para o Sudeste, a tendência para o Centro-Oeste durante o próximo verão é de chuvas em torno da média climatológica. As chuvas nessa Região estão muito mais relacionadas às condições tropicais da região amazônica, cujo aquecimento local associado aos altos índices de umidade relativa do ar, causam pancadas de chuvas isoladasquase que diariamente. Já os períodos de dias chuvosos, estão diretamente associados à presença de frentes frias sobre a Região Sudeste. Mesmo em anos ditos normais, entre janeiro e fevereiro, é comum se observar alguns períodos (10 a 14 dias) de estiagem, que neste caso estão relacionados à formação de um outro sistema meteorológico conhecido como vórtice ciclônico do Nordeste.Região Nordeste: Nos meses de verão, especialmente em dezembro e janeiro, é o período de chuvas no sul da Região, que inclui as regiões produtoras de soja, milho, feijão e algodão, no sul e oeste da Bahia, sul do Piauí e sul do Maranhão. A tendência para essas regiões também é de chuvas em torno da média, cabendo ressaltar que a distribuição das chuvas nessa região é muito irregular. Já na parte norte do Nordeste, incluindo o sertão e o agreste nordestino, o período de chuvas tem início em fevereiro, cuja qualidade da estação chuvosa, que se estende até abril e maio, depende diretamente das condições do Oceano Atlântico Sul e Norte.Região Norte: O verão no norte do Brasil se caracteriza como o período quente e chuvoso na parte sul da região, enquanto o extremo norte, especialmente Roraima, vive um período de menos chuva. A tendência para este verão é de chuvas em torno da média climatológica. A distribuição das chuvas nessa região está diretamente associada ao ciclo dioturno da radiação solar, com chuvas em forma de pancadas isoladas quase que diárias.