Os Impactos da Desvalorização do Peso Argentino (Mercado)


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Publicado em: 01/12/2001

Os impactos da desvalorização do peso argentino - agronegócio gaúcho atingido

Argemiro Luís BrumProfessor do DECon/UNIJUI, doutor pela EHESS de Paris-França, Coordenador, Pesquisador e Analista da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA).

A economia Argentina vinha dando sinais de enfraquecimento há anos, tendo alcançado em dezembro passado cerca de 44 meses contínuos de recessão. Na lógica econômica não havia condições de sustentar a paridade cambial, de um peso por um dólar estadunidense. No entanto, a Argentina persistiu e hoje paga muito caro o seu erro. De fato, o grande pecado argentino foi ter demorado em fazer a reforma cambial que o Brasil, ainda em janeiro de 1999, se viu forçado a fazer. Outros países, durante toda a década de 1990, igualmente já haviam passado por isto (o México, no final de 1994; os diferentes países da Ásia, em 1997; a Rússia, em 1998, para ficar com os casos mais expressivos). A tal ponto o erro argentino foi enorme que os dirigentes do vizinho país deixaram para desvalorizar a moeda quando não havia mais reservas para bancar o processo. Assim, juntamente com a desvalorização o governo argentino se viu obrigado a declarar uma moratória de sua dívida externa, comprometendo a entrada de investimentos diretos externos e assustando os capitais já implantados no país.Agora, para sair de tal situação, o vizinho país levará tempo. Possivelmente todo o ano de 2002. Isto porque no cerne da crise está o déficit público (o Estado gasta mais do que arrecada), fato que gera um rombo por onde escoam os recursos gerados localmente e emprestados externamente. Inclusive os recursos das privatizações que, em muitos casos, se justificavam. A situação se torna ainda mais grave quando tal déficit é feito sem benefícios para a sociedade.Diante disto, o processo cambial que ora se instala na Argentina é irreversível. Em outras palavras, a desvalorização do câmbio se manterá e deverá anualmente acompanhar a paridade do poder de compra entre a Argentina e os EUA. A questão, no imediato, é observar em que nível a relação cambial irá se estabilizar. Por enquanto, uma coisa é certa: a desvalorização correta tende a ser muito superior ao que até agora ocorreu. Muito provavelmente a mesma se aproximará dos níveis estabelecidos pelo real (a moeda brasileira), podendo até mesmo ultrapassá-la durante este ano.Isto dito, toda e qualquer desvalorização da moeda é um instrumento de competitividade do país que a executa, no contexto do mercado internacional. Desta forma, os produtos que o país em questão exporta se tornam mais baratos em dólares, no exterior, enquanto os produtos que ele importa chegam mais caros em moeda nacional.Ora, no caso da Argentina, um país essencialmente agroindustrial, uma série de produtos primários se tornam, a partir de agora, mais competitivos no mercado mundial, inclusive no interior do Brasil. Dentre eles, podemos citar: trigo e farinha de trigo, vinho, arroz, milho, óleo de girassol, óleo de soja, farelo de soja, carne bovina, maçã, leite e derivados e por aí afora. Tal realidade irá alterar completamente as relações comerciais com o Brasil e particularmente com o Rio Grande do Sul. Os produtores nacionais dos citados produtos terão maior concorrência e, portanto, uma dificuldade adicional para manterem seu espaço de mercado.Por outro lado, os produtos que exportamos para os argentinos, como as carnes suína e de frango, ficarão mais caros no vizinho país, devendo sofrer um recuo no seu consumo. O mesmo será tão intenso quanto mais existir a possibilidade de substituição por um produto similar. No caso específico do trigo, a situação tenderá a rapidamente desmotivar a retomada da produção tritícola nacional que, com dificuldades, vinha sendo feita. Neste ano comercial 2001/02 (fevereiro a janeiro), o Brasil produziu 3,0 milhões de toneladas (1,0 milhão no Rio Grande do Sul), devendo importar aproximadamente 7,2 milhões de toneladas. Isto porque nosso consumo interno beira a 10 milhões de toneladas. Diante da pouca oferta existente e dos altos preços de importação até então registrados, o trigo nacional iniciou o ano de 2002 com um preço médio de R$ 15,00/saco ao produtor no balcão. Um preço 27% superior ao registrado na mesma época de 2001. Ou seja, com uma valorização bem acima da inflação oficial, a qual ficou em 7,67% (IPCA-IBGE) no ano passado. Em dólares, o preço do trigo iniciou o ano valendo US$ 6,52/saco. Um preço bem abaixo da média dos últimos dez anos, que é de US$ 7,66/saco.Esta realidade, para 2002/03, tende a se modificar. O trigo argentino, que representa cerca de 95% das nossas importações do cereal, assim como a farinha, entrará no Brasil mais barato. Não se pode esquecer que a produção tritícola da Argentina, neste ano, chegou a 17 milhões de toneladas, havendo um pouco mais de 12 milhões de toneladas disponíveis para exportação. A possibilidade de abastecimento junto ao vizinho país, sob novas bases de preço, irá forçar um recuo nos preços do trigo nacional devendo, em não havendo intervenção federal, levar a um recuo na área plantada com o cereal. Mesmo que o Brasil necessite sempre do produto nacional para fazer a tradicional mistura, o volume produzido no Brasil e no Rio Grande do Sul poderá recuar em 50%, chegando a níveis vistos no passado recente, ou seja, algo entre 1,5 e 2,0 milhões de toneladas (400 a 600 mil toneladas no Rio Grande do Sul). Com o agravante de que a produção recentemente colhida foi boa, devendo haver estoque de passagem relativamente importante e que poderá pressionar ainda mais o mercado interno neste novo ano que se inicia.