Aspectos Gerais de Plantio Direto / Cultivo Mínimo em Arroz Irrigado (Enio Marchezan UFSM)


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Publicado em: 01/10/2001

Aspectos gerais de plantio direto/cultivo mínimo em arroz irrigado

Enio MarchezanEng.Agr, Professor Dr. Universidade Federal de Santa MariaSanta Maria-RS1. IntroduçãoO arroz irrigado apresenta uma particularidade, única entre os principais cultivos agrícolas, que é a possibilidade de implantá-lo através de diversas maneiras (sistema convencional, cultivo mínimo, plantio direto, pré-germinado, mix de pré-germinado e transplante de mudas). Esta característica proporciona flexibilidade ao planejamento da lavoura, pois permite adequar o sistema de cultivo às diferentes condições existentes na propriedade, resultando em maior rentabilidade, seja pela maior produtividade, seja pela redução de custos ou ambas. No planejamento para a realização de uma lavoura de arroz, deve-se ter em conta três objetivos principais: produtividade, qualidade e sustentabilidade. O desafio é buscar o equilíbrio entre eles, de maneira que proporcione maior rentabilidade.A sustentabilidade econômica e ambiental advém da escolha correta das práticas de manejo, pois quando num sistema de cultivo, uma determinada praga ou planta daninha está aumentando sua população, a utilização de outro sistema pode significar a redução do uso de determinados defensivos agrícolas ou mesmo a sua não aplicação, mantendo a qualidade do produto colhido. Outras exigências de qualidade e novos conceitos de sustentabilidade ambiental virão e para isso os envolvidos no processo produtivo do ecossistema várzea devem se preparar, buscando sempre a rentabilidade que lhes permita continuar na atividade, incorporando inovações tecnológicas.Cada sistema de cultivo adapta-se a determinada condição; por exemplo, se a infestação com arroz-vermelho é o fator limitante na propriedade, o sistema convencional não é a melhor alternativa para o cultivo de arroz, sendo os sistemas pré-germinado ou transplante de mudas os mais indicados. No entanto, em áreas arrendadas estes sistemas têm dificuldades técnicas para serem implantados, pois exigem a sistematização da área; neste caso, o plantio direto/cultivo mínimo são sistemas que podem ser utilizados, pois não exigem que a área esteja nivelada em sua superfície. Esse é o caso específico de áreas de grande lavoura e de arrendatários, que no Rio Grande do Sul, ocupam cerca de 65% da área de arroz neste regime de uso.Segundo dados de IRGA disponíveis em www.irga.rs.gov.br, a área cultivada com arroz no Rio Grande do Sul, em cada sistema é a seguinte: cultivo convencional, 45%; cultivo mínimo, 35%; plantio direto, 9%; pré-germinado, 11%, incluindo áreas de pré-germinado e transplante de mudas. Assim, os sistemas plantio direto/cultivo mínimo, passarão a ser discutidos a seguir.

2. Plantio Direto/Cultivo mínimo

O sistema de plantio direto pode ser entendido como o sistema que realiza a semeadura do arroz sobre a resteva de uma cultura anterior, sobre uma pastagem ou sobre uma flora de sucessão, dessecadas com herbicidas. O cultivo mínimo compreende preparo reduzido do solo, sendo as operações realizadas ao final do inverno e/ou início da primavera, ou até mesmo no verão anterior, dessecando-se a vegetação de plantas que emergiram após o preparo e realizando-se a semeadura. Variações de denominações em função das épocas de preparo do solo podem também caracterizar o plantio direto ou o cultivo mínimo em lavoura de arroz; no entanto, a base comum para o controle de plantas daninhas destes sistemas é o não revolvimento do solo no momento da semeadura. Neste artigo, para facilitar a redação, será utilizado o termo cultivo mínimo referindo-se de forma geral aos dois sistemas de implantação da lavoura.

a) Principais razões de uso do cultivo mínimo

Controle do arroz-vermelho e outras invasoras:Como a rotação de culturas ainda não se constitui em alternativa segura para boa parte das áreas de várzea, o cultivo mínimo de arroz, representa uma alternativa possível para continuar cultivando arroz, especialmente naquelas áreas em regime de arrendamento.A introdução e uso deste sistema de cultivo teve no controle do arroz-vermelho sua principal razão. Para quantificar a importância desta planta daninha para a lavoura de arroz do RS, há estimativas que ela seja responsável pela redução de cerca de 20% da produção gaúcha de arroz ou algo em torno de 1 milhão de toneladas anuais. Áreas com alta infestação de arroz vermelho foram praticamente abandonadas com o cultivo convencional.Na tabela 1, observa-se que o sistema de plantio direto apresentou produtividade intermediária entre o sistema convencional e pré-germinado, porque a área apresentava alta infestação de arroz vermelho, que na média do período experimental foi de 185, 64 e 4 panículas de arroz vermelho/m2, respectivamente para os sistemas convencional, plantio direto e pré-germinado.

Tabela 1. Rendimento de grãos de arroz nos sistemas de cultivo convencional, plantio direto e plantio de sementes pré-germinadas, nos três anos de cultivo, IRGA/Itaqui, RS, 1997.

Rendimento de grãos (kg ha-1)

Sistemas

Safras agrícolas

1994/95

1995/96

1996/97

Convencional

5.690 b*

4.120 b

2.180 c

Plantio Direto

6.180 b

3.870 b

4.690 b

Pré-Germinado

7.780 a

9.260 a

6.840 a

*Médias seguidas da mesma letra, diferem entre si pelo teste de Duncan em nível de 5% de probabilidade.Fonte: ANDRES et al. (1997).

Com o tempo de cultivo obtém-se redução da incidência de outras plantas daninhas, devido ao não revolvimento do solo, constituindo-se em vantagem comparativa com o sistema convencional.No entanto, esse não é um método absolutamente seguro para o controle do arroz-vermelho, pois em alguns anos obtêm-se melhor controle do arroz-vermelho e em outros anos há deficiência de controle, ocorrendo reinfestação das áreas, prejudicando a produtividade e realimentando o banco de sementes. Quando há necessidade de realizar a irrigação para emergência do arroz cultivado, ou quando ocorrem chuvas após a semeadura, perde-se parte da vantagem deste sistema no controle de arroz-vermelho.

Redução de custos

O cultivo mínimo auxilia na redução de custos, por dois motivos principais: redução do número de operações na área e/ou distribuição do uso de máquinas e equipamentos necessários para o preparo da área ao longo do ano. Com isto, há melhor utilização destes, além de menor número de HP e equipamentos por unidades de área, reduzindo os custos fixos, cujo valor varia para cada condição, mas é reconhecido pelos produtores.

b) Outras razões importantes

Semeadura na melhor épocaÉ um aspecto de manejo importantíssimo, que não adiciona custos de produção. Devido a área estar preparada, no momento da semeadura não há demanda de máquinas e pessoal para o preparo do solo e com isso aumenta a capacidade diária de semeadura, podendo-se utilizar melhor os períodos possíveis de entrar com máquinas na lavoura. Em função de serem geralmente terras planas e solos hidromórficos, há dificuldade na retirada de água da área e com isso o tempo disponível para semeadura diminui; por isso, a semeadura é um período crítico da lavoura de arroz. Destaca-se que é necessário analisar em conjunto a quantidade semeada diariamente com a capacidade de colheita e de secagem da propriedade, para que haja colheita e secagem adequadas à boa qualidade do produto.

Conservação/recuperação do solo

O plantio direto em terras altas proporciona a melhoria dos atributos físicos e químicos do solo, devido a redução do trânsito de máquinas e menor mobilização do solo, além da presença de plantas de cobertura, no entanto há carência de informações para solos hidromórficos. Trabalhos realizados por Palmeira et al., (1999) demonstraram que o plantio direto de arroz sob palha de azevém cultivado no inverno, proporcionaram menor redução de matéria orgânica do solo e os maiores valores de diâmetro médio de agregados quando comparado com arroz implantado em outros sistemas, após um período de 10 anos de cultivo.Quanto à fertilidade do solo, Gomes et al., (1999) obtiveram que o plantio direto, quando comparado com o cultivo mínimo, concorreu para elevar os níveis de MO , P, K e Ca, após um período de três safras. Como se vê, este é um tema que precisa ainda ser mais estudado.

Cultivo em áreas arrendadas/grandes áreas

O cultivo mínimo é o sistema de mais ampla utilização em áreas arrendadas, pois embora não haja o mesmo grau de controle de arroz-vermelho em todos os anos, é o sistema que pode ser utilizado para minimizar a ocorrência do arroz-vermelho, sem haver necessidade da área estar nivelada em sua superfície.O sistema pré-germinado, que é indicado para áreas com alta infestação de arroz-vermelho, encontra limitações na sistematização, pois nem o proprietário e nem o arrendatário se dispõe à realizá-la, já que o investimento é alto em função da extensão da área de cultivo.O que se constata é que conhecendo melhor as exigências do cultivo mínimo consegue-se, ano após ano, melhoria no processo e com isso maior estabilidade das respostas de controle dessa planta daninha; por exemplo, dando-se especial atenção à correção do microrelevo, com melhor tecnologia na construção das taipas, consegue-se uniformizar mais a lavoura, melhorando a irrigação e o controle de plantas daninhas (especialmente de arroz-vermelho).

Opção para compor planos de rotação de sistemas de cultivo

Uma alternativa técnica e ambientalmente sustentável seria executar a rotação de culturas em áreas de várzea. No entanto, são conhecidos os limites do uso desta tecnologia em grande parte das áreas de arroz do RS, em função da dificuldade de drenagem e da falta de genótipos adpatados a ambientes com freqüentes encharcamentos. Neste sentido, o cultivo mínimo tem seu espaço como uma opção intermediária, podendo ser utilizado para compor um plano de rotação de sistemas de cultivo de arroz. Constitui-se em alternativa ao sistema convencional com o objetivo também de ”quebrar” o ciclo de determinadas ”pragas”, além dos aspectos citados anteriormente.A utilização de azevém no inverno se constitui em opção para utilizar essas áreas com a pecuária, dando-lhes um uso mais intensivo, além de contemplar aspectos de conservação de solo pela proteção do mesmo e reciclagem de nutrientes. No entanto, é necessário cuidado com a utilização de azevém em áreas com alta infestação de arroz-vermelho, em função do efeito alelopático e/ou supressor que este exerce sobre esta planta daninha. Enquanto a planta de azevém está vegetando, praticamente não ocorre emergência de arroz-vermelho, mas quando da sua morte, este efeito tende a desaparecer e com isso pode ocorrer emergência do arroz-vermelho, justamente no momento da emergência do arroz cultivado, constituindo-se em séria restrição para seu uso em áreas com infestação elevada de arroz-vermelho.Os resultados da Figura 1 mostram que a utilização de azevém em área com alta infestação de arroz-vermelho, cultivando arroz sob sistema de cultivo mínimo, não contribuiu para redução da quantidade de arroz-vermelho presente na colheita do arroz cultivado.

c) Necessita-se conhecer mais

Condição ideal para controle de arroz-vermelho

O aprimoramento do conhecimento do sistema de cultivo mínimo para arroz irrigado em solos hidromórficos, contribuirá para que se consiga melhor controle do arroz-vermelho. O que se busca é a melhor condição para emergência do arroz cultivado e desfavorecimento para emergência de plantas daninhas daninhas, após a semeadura do arroz.Assim, deve-se revolver o mínimo possível o solo no momento da semeadura. A velocidade de semeadura é fundamental nesse processo, assim como também o é a perfeita regulagem da semeadora. Tem-se conseguido melhor controle quando há emergência do arroz cultivado com a umidade existente no solo, sem necessidade de chuva ou irrigação. Nessa condição o arroz se estabelece rapidamente, competindo em vantagem com as plantas de arroz-vermelho que emergem mais tardiamente.Vê-se, desse modo, que o planejamento para a realização da semeadura no momento correto é um fator decisivo para a eficiência de controle de arroz-vermelho.

Manejo do nitrogênio na fase inicial

Há uma competição por nitrogênio, entre as plantas de arroz e os microorganismos do solo que o utilizam para a decomposição da palha, que varia de intensidade conforme a quantidade de palha na área. Isto provoca restrição ao desenvolvimento das plantas. É necessário conhecer as respostas da época e da quantidade de nitrogênio a aplicar. A antecipação da aplicação de nitrogênio ou a utilização de maior quantidade de nitrogênio junto com a adubação de base, é prática adotada por alguns produtores, mas são questionamentos que precisam ser melhor entendidos tecnicamente, para que se estabeleça com clareza as doses e épocas de aplicação do fertilizante nitrogenado.

Época da irrigação definitiva

O menor desenvolvimento inicial que observa-se em lavouras de cultivo mínimo, quando comparados ao cultivo convencional, pode estar relacionado com restrição no desenvolvimento do sistema radicular. Antecipando-se a irrigação, ocorre a minimização do estresse na fase inicial do desenvolvimento da planta, provocado pelo adensamento do solo na área de crescimento radicular. Mas para que esta proposta seja exeqüível, é preciso adequar a área, ou seja, corrigir o microrelevo através do aplainamento e também planejar o entaipamento, de modo que a lâmina de água fique o mais uniforme possível. Assim, taipas de base larga mais próximas, com o menor leiveiro possível, são importantes para que não se fique com ”três lavouras”, dentro de uma mesma lavoura: (área entre taipas, área de leiveiro e área das taipas), viabilizando estabelecer a irrigação definitiva um pouco mais cedo.

Quantidade de resíduos de plantas dessecadas

A quantidade de palha oriunda da dessecação é outro aspecto que necessita melhor compreensão neste ambiente de solos hidromórficos. Em função de permanecerem mais tempo com os poros preenchidos por água, há influência na temperatura do mesmo e por conseqüência na decomposição do material vegetal que foi dessecado. É preciso conhecer os efeitos da atividade biológica na massa de plantas de diferentes espécies em função da lâmina de água que estabelece pela irrigação definitiva.

Efeito do cultivo mínimo na parte física e química do solo

Além da produtividade, ainda são escassos os efeitos do cultivo mínimo sobre as propriedades físicas e químicas em solo de várzea, pois a filosofia adotada no de manejo de solos de coxilha, nem sempre se aplica quando se trabalha em áreas de várzea devido ao processo de irrigação do arroz.Pelo exposto constata-se que o cultivo mínimo é um sistema de implantação da lavoura importante para o cultivo de arroz irrigado no Rio Grande do Sul, no entanto, o melhor entendimento de alguns aspectos de manejo permitirá utilizar melhor seu potencial produtivo.

Bibliografia

ANDRES, A , LEITÃO, E., MENESES,V.G. et al. Controle de arroz vermelho em sistemas de cultivo de arroz irrigado. In: REUNIÃO DA CULTURA DO ARROZ IRRIGADO, 22, 1997. Camburiú, SC. Anais... Camburiú, 1997. p.412-420, 580pGOMES, A D S., MACHADO, M.O , VERNETTI JR, F. DE J., FERREIRA, L.H., GONÇALVES, G.K., GOMES, D. N. Influência de sistemas de produção envolvendo arroz irrigado, sobre o nível de fertilidade de um solo de várzea da região sul do Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ARROZ IRRIGADO, 1, REUNIÃO DA CULTURA DO ARROZ IRRIGADO, Anais.., Pelotas, Embrapa, 23., 1999. p.302-305, 727p.PALMEIRA, P.R.T., PAULETTO, E.A , GOMES, A, da S., BATISTA, da S. J. Efeito de diferentes sistemas de cultivo sobre o estado de agregação de um planossolo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ARROZ IRRIGADO, 1, REUNIÃO DA CULTURA DO ARROZ IRRIGADO, Anais... Pelotas, Embrapa, 23., 1999. p.257-259,727p.