Nutrientes no plantio direto: antagonismos e sinergismos
Carlos Gustavo TornquistEngenheiro Agrônomo, MSc., Assessor Agronômico - Manah S.A.
Introdução
”Em uma agricultura altamente desenvolvida, grandes avanços no potencial de rendimento provavelmente virão de efeitos de interações. Os agricultores devem estar prontos para testar práticas que aumentam o potencial das culturas e estar preparados para testar combinações entre estas práticas”.
George W. CookeDiretor CientíficoAgricultural Research Council - Inglaterraem ”Maximum Economic Yield Manual”Potash&Phosphate Institute International.
As alterações químicas e físicas observadas nos solos sob Sistema Plantio Direto (SPD), tais como aumento da densidade e teor de matéria orgânica ou estratificação de nutrientes têm recebido bastante divulgação, até porque são mensuráveis a campo e laboratório.Outros aspectos do SPD um pouco mais complexos e difíceis de mensurar como as modificações no potencial de fixação de P (REINHEIMER, 2000) ou mesmo redução na atividade do Al tóxico (SALET, 1998) têm começado a receber a devida atenção, apesar de não se ter resultados definitivos.Por outro lado, as relações entre os nutrientes nem sempre são consideradas quando da avaliação da fertilidade do solo e das recomendações de adubação e manejo. Muitas vezes teores altos de determinado nutriente nas análises de solo não necessariamente implicam em pronta disponibilidade ou garantia de sua absorção pelas culturas. A situação de acúmulo de nutrientes nas camadas mais superficiais do solo (ou seja, maior concentração de nurientes na solução do solo nestas camadas) no SPD cria condições para que vários tipos de interações positivas e negativas comecem a se manifestar mais acentuadamente, interações estas que refletem na absorção dos nutrientes e rendimento das culturas.Neste trabalho vamos discutir algumas destas relações tanto positivas quanto negativas à luz do situação atual do SPD. Restringimos a discussão às interações no solo, mas não se pode esquecer que existem relações dentro da planta após absorção que são tão importantes quanto às que ocorrem no solo.Em última análise este assunto tem importância prática porque as interações entre nutrientes podem resultar em maior crescimento e sanidade das plantas.
1. Definições
As interações entre nutrientes podem ser definidas como: 1) uma influência ou ação recíproca relativa ao crescimento das plantas de um elemento (nutriente) sobre outro; 2) a resposta diferencial de um elemento (nutriente) em combinação com vários níveis (doses) de um segundo elemento aplicado simultaneamente (OLSEN, 1972).De acordo com MALAVOLTA (1987) vários tipos de interações são possíveis.
1.1. AntagonismoA presença de um nutriente causa indisponibilização de outro, apesar deste estar presente em quantidade suficiente no solo.
1.2. SinergismoA presença de um nutriente aumenta ou facilita a absorção de outro.
1.3. Inibição Competitiva Diminuiçao na absorção de um nutriente pela combinação de outro com um sítio ativo do carregador (transportador para dentro da planta). Pode ser contornada aumentando a concentração do nutriente na prática, maior quantidade de adubo.
1.4. Inibição Não-CompetitivaDiminuição na absorção de um nutriente pela combinação de outro com um sítio não-ativo do seu carregador (transportador para dentro da planta). A concentração do nutriente não afeta sua ocorrência.
1.5. Resumo dos Efeitos Interiônico
Tabela 1. Alguns efeitos interiônicos já observados (Malavolta, 1987).
ÍONS
EFEITO
Cu
Ca
Antagonismo
B
Ca
Sinergismo
K
Mg e Ca (alta concentração)
Inibição competitiva
K, Ca e Mg (alta concentração)
Al
Inibição competitiva
Zn
Ca
Inibição competitiva
Zn
P
Inibição não competitiva
Mg
P
Sinergismo
1.6. Interações entre Micronutrientes (Figura 1)2. Relações entre Macronutrientes
As interações entre macronutrientes são de natureza mais simples, pois normalmente se trata de eliminar o nutriente limitante aquele que, segundo a Lei do Mínimo de Liebig, não está presente em quantidades adequadas para a total expressão do potencial de rendimento de determinada espécie ou cultivar.
2.1. N - P
Tabela 2. Relação entre doses de N e P no milho, Iowa, EUA (PPI, 1980)
N aplicado (kg/ha)
PsO5 aplicado (kg/ha)
0
220
0
16,6
39,6
220
9
141
2. 2. N - K (Figura 2)
2. 3. Mg - PEsta interação é um caso de sinergismo: tanto o magnésio como o fósforo são nutrientes importantes para o desenolvimento das plantas, mas o magnésio é também cofator de enzimas ligadas ao metabolismo do P na planta. O mecanismo não é totalmente conhecido, mas há dados empíricos mostrando esta interação positiva (Figura 3.). 2. 4. Ca, Mg e K.
As interações entre os cátions Ca, Mg e K são de natureza eletrostática e podem ser explicadas por alguns modelos como o da dupla camada difusa.De uma forma simplificada, pode-se dizer que os cátions divalentes (Ca+2 e Mg+2) são atraídos com mais força pelas partículas do solo e pelas raízes, que também têm carga negativa. A única forma de se contrapor este efeito é aumentando a concentração de K (Fig. 4).Por outro lado, escesso de Ca e/ou Mg no solo - como em situações de quantidades muito altas de calcário calcítico ou dolomítico via de regra dificultam a absorção de K. CASTRO & MENEGUELLI (1989) compilaram 74 experimentos envolvendo Ca, Mg e K e concluiram que a relação que melhor indica a probabilidade de resposta a uma adubação potássica.
Se a relação calculada é maior que 0,20, há pouca probabilidade de resposta a aplicação de K, se menor que 0,13 há alta probabilidade de resposta.3. Relações entre Macro e Micronutrientes
3.1. P - MoVários trabalhos relativamente antigos mostram que há um sinergismo entre P e Mo, cuja natureza não é bem esclarecida. Em princípio o P afeta a liberação de Mo das células das raízes para o sistema de translocação na planta (Olsen, 1972).
3.2. B - CaAlguns estudos mostram uma interrelação positiva entre Ca e B, inclusive estabelecendo uma relação ótima, que seria de 500:1 no caso da soja. Observou-se que a adição de Ca previne o aparecimento de efeitos tóxicos do B (Olsen, 1972).3. 3. P - ZnEsta interação antagonismo entre P e Zn, normalmente provocado por altas doses de fertilizantes fosfatados é conhecida desde 1936 e seu mecanismo pouco esclarecido. Incialmente suspeitava-se da formação fosfatos de zinco insolúveis, mas posteriormente esta idéia foi descartada a partir de dados experimentais. A solução para o problema é simplesmente adicionar Zn na adubação(Olsen, 1972).
3.3. S - MoAo contrário do P, o enxofre dificulta a absorção do Mo pelas plantas (Tabela 3). O mecanismo também é desconhecido. Este comportamento indica que devemos ter cuidado ao utilizar fertilizantes com altos teores de S ou mesmo ao aplicarmos gesso agrícola ao solo, principalmente se ele tiver histórico de deficiência de Mo.
4. Interações no SPD - aspectos práticos.As interações entre nutrientes discutidas até aqui devem ser consideradas à luz do situação do solo sob SPD. Algumas situações que podem ocorrer entre nós:4.1. SupercalagemA calagem excessiva seja por quantidades muito elevadas ou por repetição anual sem incor-poração leva a situação do item 2.4., onde os altos teores de Ca e Mg resultantes da dissolução do calcário leva a um incremento da atividade destes cátions, dificultando a absorção do K, principalmente no início do ciclo, quando o sistema radicular é muito superficial está concentrado nesta camada.
Tabela 3. Efeito inibidor do S sobre absorção de Mo em ervilha e tomate. O solo havia recebido 0,75 mg/kg de Na2 MoO4 no plantio (Stout et. al. 1951).
Absorção de Mo (mg/kg)
S-SO4 (mg/kg)
Tomate
Ervilhas
0
5,2
13
70
3,5
8
280
2,4
5,7
Um efeito associado é que pode-se formar uma camada superficial neutra ou alcalina (p-HH2O igual ou maior que 6,5-7,0) . Nesta situação haverá indisponibilização de uma série de micronutrientes como Zn, Cu, Mn.
4.2. Adubação desbalanceadaDa mesma forma que uma calagem mal feita, adubações equivocadas por falta de informação e/ou orientação podem levar a outras situações apresentadas anteriormente:4.2.1. Altas doses de P2O5 - pode haver baixa absorção de Zn e Mo induzida por uma fosfatagem (correção de níves muito baixos do P) ou por repetido uso de formulações alto P (p.ex. 00-30-15, 00-30-20) em culturas com baixa exportação de P. Nestes casos deve se considerar o uso de adubação com Zn e Mo para amenizar ou corrigir o problema.Convém lembrar que a cultura da soja exporta aproximadamente o dobro de K2O em comparação ao P2O5 , portanto devemos utilizar formulações com mais potássio (principalmente em solos com teores altos de nutrientes).
4.2.2. Gessagem apesar de pouco comum entre nós, tem havido interesse por parte de produtores interessados em melhorar as condições químicas de camadas mais subsuperficiais ou elevar os teores de S. A aplicação pouco criteriosa do gesso pode levar ao carregamento em excesso de Ca , Mg e K para a subsuperficie e dificultar a absorção de Mo.
4.3. Atenuação do Al tóxicoUm manejo balanceado que adicione quantidades suficientes de nutrientes catiônicos para atender a extração e exportação das culturas pode diminuir a atividade do Al tóxico, tornando a calagem menos importante ou até desncesserária pelo menos por algum tempo. A adição de K, Ca e Mg em doses adequadas no programa de manejo de nutrientes diminui a força do íon Al+3.
4.4. Aumento da eficiência de utilização do P.Conforme já foi observado, uma nutrição adequada de Mg é importante para garantir uma boa absorção do P (item 2.3.). Na medida em que podemos (e até devemos) diminuir a aplicação de calcário no SPD pelo risco de se criar uma camada de solo alcalina na superfície é interessante aplicarmos formulações que tenham Ca e Mg em sua composição.
4.5. Uso indiscriminado de micronutrientesA tabela 1 nos dá uma idéia de possíveis interações negativas entre micronutrientes. Fica implícito o risco que existe na aplicação de fontes de micronutrientes, principalmente as concentradas. A opção que se impõe é a adicição controlada, com formulações de baixa concentração, para a recuperação gradual dos teores dos micronutrientes no solo. Eventuais deficiências durante o ciclo podem ser corrigidas por aplicações foliares.
5. Referências
CASTRO, A. F. e MENEGHELLI, N. A. ”As relações K+/(Ca++ + Mg++)1/2 e K+/(Ca++ + Mg++) no Solo e as Respostas a Adubação Potássica”. Pesq. Agrop. Bras. 24(6):751-760.,1989. MALAVOLTA, E. ”Nutrição Mineral das Plantas”. p.33-101 in Curso de Atualização em Fertilidade do Solo. Fundação Cargill. Campinas, 1987. OLSEN, S. R. ”Micronutrients Interactions”. p.243-2288 in J.J.MONTVERDT, P.M. GIORDANO e W.L. LINDSAY (eds). Micronutrients in agriculture. Soil Science of America Monographs . Madison, Wisconsin, 1972.REIHEIMER, D. Dinâmica do Fósforo em Sistemas de Manejo de Solos. Dissertação de Doutorado, UFRGS, 2000.SALET, R. Toxidez do Alumínio no Sistema Plantio Direto. Dissertação de Doutorado, UFRGS,1998.STOUT, P. R., W.R. MEAGHER, G.A. PEARSON e C.M. JOHNSON. Molibdenum nutri-tion of crop plants. Plant and Soil 3: 51-87.