O irascível campeão da Revolução Verde
Colegas de Norman Borlaug, premiado com o Nobel, brincam que a comunicação humana falada pode se dar por três formas: o diálogo, o monólogo e Borlaug. Aos 86 anos, este agrônomo conquistou o direito de ter opiniões fortes, mas ouvi-las pode ser uma experiência sensata. Desmentindo a aparência bonachona de patriarca bíblico, o homem que é aclamado como o pai da Revolução Verde, despeja a impaciência acumulada durante o trabalho de toda uma vida.”Ridículo”, vocifera, descartando sugestões de que a agricultura orgânica poderia ser a chave da agricultura do futuro. ”É puro nonsense. Ouvi isso durante anos”, fustiga as críticas dos ambientalistas à Revolução Verde. Os sopapos intelectuais são distribuídos para todos os lados com graus variados de intensidade. De um lado, ele critica os ”extremistas” por terem transformado a expressão ”geneticamente modificado” - alvo de pesquisadores desde que Mendel fez experiências com variedades de ervilhas, em meados do século XIX - em algo assustador.De outro, espinafra as empresas de biotecnologia, cujo marketing afoito sobre as culturas geneticamente modificadas teria desencadeado o que ele considera uma compreensível preocupação com a centralização do mercado e seu controle excessivo pelas grandes corporações.”Eles lidaram de maneira atroz com o assunto, passando a impressão de serem maiores do que Deus. Foi uma das piores demonstrações de relações públicas que já vi, e ela gerou o medo de monopólios. Agora estamos pagando o preço por isso”.Sua crítica ao setor privado pode surpreender os grupos ambientalistas que fizeram da rejeição aos transgênicos seu grito de guerra. Muitos deles vêem Borlaug como arquiteto de uma abordagem que teria dispensado variedades locais e deixado de lado séculos de conhecimento tradicional, preparando o terreno para a entrada de grandes empresas no campo. É o papel de Borlaug na Revolução Verde que o coloca no centro desse debate.Trabalhando no México, nos anos 60, ele cruzou uma variedade de trigo anão japonês com uma variedade local resistente a doenças para produzir um híbrido de alto rendimento. Transplantado na América Latina e Ásia e beneficiado por uma nova compreensão das técnicas agrícolas, o híbrido fez parte de uma geração de plantas resistentes a doenças que contribuiu para quadruplicar safras, permitindo que países pobres se tornassem auto-suficientes. Em reconhecimento a seus esforços, Borlaug recebeu o Nobel da Paz de 1970. Mas a Revolução Verde, alegam seus críticos, estimulou os métodos intensivos de cultura agrícola que poluíram rios e destruíram vida selvagem, Com sua propagação, a monocultura colocou em risco a biodiversídade. Apesar de milhões terem sido salvos da inanição, as dietas foram se tomando cada vez mais pobres porque as pessoas foram abandonando suas fontes tradicionais de vitaminas e minerais: frutas e legumes cultivados em hortas e beiras de campos. Borlaug aceita essas preocupações, mas diz que os críticos exageram as pretensões da Revolução Verde. Especialistas em agricultura, cujo papel é produzir safras melhores e identificar meios de melhorar a fertilidade do solo, estão recebendo a culpa pelos erros dos políticos. ”Foi um passo na direção certa, mas nunca foi dito que ela resolveria todos os problemas das carências nutricionais do mundo”, diz ele.Ele se exalta corri o modo como o debate foi reativado pelo lançamento do milho com maior teor de proteína (QPM), mais recente e estimado projeto de Borlaug. Os nutricionistas acreditam que, por conter aminoácidos muito importantes, o QPM poderá reduzir drasticamente o número de crianças que morrem de desnutrição depois de terem sido desmamadas com mingau de milho, pobre em proteínas.Como presidente da Sasakawa Africa Association, agência de desenvolvimento financiada pelo Japão, Borlaug desempenhou um papel crucial no prosseguimento da pesquisa do QPM para permitir sua exploração comercial. Ele viajou mais do que nunca, neste ano, para dar ao QPM sustentação antes de morrer.Assim, não espanta que as críticas ao novo milho, considerado por alguns como mais uma abordagem de cima para baixo de um problema que seria mais bem tratado pela educação, faz o pesquisador espumar de raiva. Borlaug acredita que boa parte da rejeição à biotecnologia remonta a uma visão idílica da agricultura ”tradicional”, alimentada por uma geração que perdeu o contato com a realidade prática da produção agrícola. Para Borlaug, nenhum caminho - seja ele orgânico ou biotecnológico - deve ser obstruído se a humanidade quiser enfrentar um enorme desafio matemático. Tendo crescido intensamente na Revolução Verde, o rendimento da produção agrícola recentemente mostrou sinais de estagnação. Mas para alimentar uma população que deve ficar acima de 8 bilhões de pessoas, em 2025, o mundo terá que dobrar os 5 bilhões de toneladas de alimento produzidos a cada ano.Assim, ou se encontra novos meios de aumentar a produtividade, ou milhões de hectares de floresta terão de ser derrubados para abrir espaço para o cultivo. Tendo acreditado originalmente que a rejeição à agricultura transgênica era um ”soluço” temporário, Borlaug agora reconhece que subestimou o fenômeno oposicionista, que fez a sua parte e conseguiu a redução dos financiamentos para os institutos de pesquisa agrícola com os quais ele trabalha. Mas ele acredita que não vai demorar muito para o mundo ocidental, que parece ter se esquecido das fomes da batata, descobrir as alegrias dos transgênicos: ”Bastam duas ou três safras quebradas e isso vai desaparecer rapidinho”.