Soja transgênica vai bem na Argentina
Os produtores argentinos responderam à pressão econômica da globalização unindo a utilização do plantio direto e da biotecnologia, principalmente com a soja resistente ao dessecante glifosate, para melhorar a produtividade e continuar competindo no mercado internacional. ”Apesar dos preços baixos da soja, a produção argentina passou de 17 para 28 milhões de toneladas, em um período de 5 anos, sem incrementar novas áreas, graças ao avanço do plantio direto e das variedades RR”, afirmou categoricamente Roberto Peiretti, engenheiro agrônomo e produtor rural da Província de Córdoba, na Argentina, durante a realização do 16º Seminário de Gramado, quando foi um dos palestrantes mais aplaudidos. Peiretti é sócio fundador e um dos diretores técnicos da AAPRESID - Asociación Argentina de Productores en Siembra Directa, entidade que comanda o plantio direto no País, com uma área que já se aproxima dos 10 milhões de ha. Em Gramado, além de ouvir sua excelente apresentação, conversamos sobre suas atividades atuais, como produtor, conferencista e membro da AAPRESID e também da CAAPAS - Confederação das Associações de Agricultores Americanos Para Uma Agropecuária Sustentável, presidida atualmente pelo brasileiro Manoel Henrique Pereira. Engenheiro agrônomo, formado pela Universidade Nacional de Córdoba, Roberto Peiretti estudou na Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Atualmente, ele dirige, além de dois mil ha de lavouras da própria família, na região de Cruz Alta, na Província de Córdoba, cerca de dez mil ha de soja, milho, trigo e pecuária, tudo sob plantio direto. ”Sempre estive empenhado em buscar alternativas, em mudar processos que nos proporcionasse uma engenharia de produção eficiente, a curto prazo. Fizemos pouco, mas acho que encontramos um caminho que nos dá uma perspectiva para superarmos o quadro atual”, disse ele em Gramado. Roberto Peiretti considera que agora existe um caminho, via plantio direto, bem mais adequado do que havia há 20 anos atrás. ”Não quer dizer que atingimos o ponto final, frisou ele, mas sentimos que estamos num caminho bem mais adequado.”A seguir, o que ele pensa sobre a utilização de plantas transgênicas, na Argentina e no mundo.Revista Plantio Direto - Qual a área de soja e milho com plantio direto e qual o percentual de variedades transgênicas utilizadas na Argentina atualmente?
Roberto Peiretti - Cerca de 45% da área plantada atualmente na Argentina está sob plantio direto. Isto significa algo em torno de nove milhões de ha. Na cultura da soja, estimamos que 65% está sob plantio direto e que 90% de toda a soja cultivada na Argentina é transgênica. Na cultura do milho, cerca de 30 a 35% das lavouras são plantados com variedades modificadas geneticamente. Nós estamos expandindo o plantio direto em áreas infestadas por plantas daninhas nas quais, sem a utilização de materiais transgênicos, seria muito difícil. São plantas daninhas muito resistentes e de controle difícil. Estamos conseguindo bons resultados técnicos, econômicos e também sob o ponto de vista ambiental, na medida em que, além de todos os benefícios trazidos pelo plantio direto, estamos deixando de aplicar uma quantidade maior de produtos químicos, normalmente mais agressivos ao meio ambiente.
RPD - Os produtores argentinos já enfrentaram algum problema na comercialização, com tanta soja transgênica produzida?
Peiretti - Em absoluto! Até o momento, não conheço nenhum caso. Não existe notícia de exportadora que tenha tido problema em colocar a produção nos países que nos compram soja. Não anotamos nenhum impacto no mercado, não existe diferenciação de preço, não ouvimos falar de exportador ou fábrica que esteja pedindo soja não transgênica, na Argentina não existe esse mercado. Sabemos de movimentos de rejeição na Europa, mas acreditamos que não deverão durar muito, porque não possuem argumentos sólidos para contrapor a todos os benefícios que esta tecnologia possui. O mercado nos mostra que passamos de uma produção de 17 para 28 milhões de toneladas de soja e seguimos exportando normalmente, inclusive para a Europa, que nos comprou mais soja com o episódio da ”vaca louca”.
RPD - Existem muitos debates e opiniões diversas sobre a questão da produção de alimentos, da sua distribuição e de parcelas significativas da população humana que passam fome. Como é possível trabalhar num cenário semelhante?
Peiretti - Estive na Inglaterra, em janeiro, num evento organizado pelo Príncipe Charles, onde discutimos a fome no mundo e a biotecnologia. Deverei voltar a Universidade de Londres, este ano, com o mesmo objetivo. Podemos falar muito sobre esta questão, que não existe quantidade suficiente de alimentos, ou que se distribui mal, porém, este é o mundo real em que vivemos. Uma visão que tenhoé que, se produzirmos mais, essa comida poderá chegar mais facilmente aos necessitados, por um caminho ou por outro, especialmente se utilizarmos um sistema mais produtivo e mais limpo, e sabemos que existem formas de fazê-lo. Insisto que a alta produtividade é o que vai ajudar a preservarmos o que está intocado, em termos de reservas naturais. No outro caminho, se não aumentarmos a eficiência produtiva, utilizando todos os recursos técnicos disponíveis, inclusive a biotecnologia e os organismos geneticamente modificados, iremos fazer um nível de pressão tal que podemos arrasar com o que resta.
RPD - Existe uma contradição nesse sentido.
Peiretti - Exatamente. As correntes de pensamento que se manifestam contra os organismos transgênicos, e outras formas de tecnologia, de um lado defendem a biodiversidade mas, de outra parte, não se importam com o avanço sobre as reservas que restam. Se vamos cuidar das espécies, a primeira é a espécie humana e 800 milhões de pessoas estão abaixo da linha de alimentação aceitável. É fácil ser ambientalista com a barriga cheia. Eles estão preocupados com as mudanças que possam ocorrer em pássaros, do que não existe nenhuma evidência, mas os habitantes de países pobres estão observando os pássaros com a intenção de comê-los e não para protegê-los.