Plantio Direto no Cerrado do Noroeste Mineiro (Cordeiro+Iora+Grando, Unaí MG)


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Publicado em: 01/08/2001

Plantio direto no Cerrado do Noroeste Mineiro

1Luiz Adriano Maia Cordeiro; 2Carlos Justin Iora; 3Dario Grando1Eng.-Agr., M.Sc., Professor do Curso de Agronomia da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Unaí - FACTU - Unaí-MG. l.adriano@uol.com.br; adriano@unai.ada.com.br;2Eng.-Agr., Plantar - Planejamento e Assistência Técnica Ltda. Unaí-MG. plantar@unai.ada.com.br 3Agricultor, Fazenda Canto, Presidente do Clube Amigos da Terra de Unaí, Unaí-MG.1. Introdução

A vocação e tradição agropecuária do Noroeste de Minas Gerais são características notórias desta parte do Estado, que tem no Município de Unaí sua principal cidade, hoje um dos líderes nacionais na produção de grãos, além de grande produtor de leite e de gado de corte. Ao longo das últimas décadas, esta região reuniu condições para se tornar um pólo de difusão de tecnologia agropecuária dos Cerrados. O perfil do produtor e a localização de Unaí são os principais fatores de importância para este fato, uma vez que está localizado na região mais central do Cerrado, próximo da Capital Federal, Brasília-DF, fazendo assim parte de sua região geoeconômica. O Cerrado encontra-se totalmente na região tropical e representa, hoje, não somente para o Brasil, mas para o mundo, uma das últimas alternativas viáveis e com alto potencial de produção agrícola. Entretanto, sua utilização para este fim requer uma série de precauções e medidas que visem o seu desenvolvimento sustentável, sem esgotamento dos recursos naturais, tão abundantes desta região. Uma destas principais medidas refere-se à adoção programada e continuada do Sistema Plantio Direto na Palha. Apesar de ser de ampla aceitação regional no Noroeste Mineiro, ser adotado em praticamente toda propriedade agrícola de produção de grãos e ter tecnologia própria, o Plantio Direto aqui praticado apresenta dificuldades técnico-econômico-culturais, com conseqüências nefastas ao meio ambiente e a atividade agropecuária.

2. Caracterização da região

O Município de Unaí localiza-se no Noroeste do Estado de Minas Gerais, na Microrregião dos Chapadões de Paracatu, na região central do País, próximo a Brasília em pleno bioma dos Cerrados, com altitude da sede municipal de 684,74 metros e da área agrícola (chapadas) com cerca de 900 a 1000 m, clima tropical úmido com temperatura média anual de 24°C e precipitação média anual de 1200 mm. É um Município jovem com economia solidificada, principalmente ligada ao agronegócio, destacando-se como a maior área irrigada da América Latina (em torno de 30 mil hectares), um dos líderes nacionais de produção de grãos e detentor do maior Produto Interno Bruto (PIB) agrícola do Estado de Minas Gerais. Somente na produção de grãos o Município já atingiu o patamar de 320.000 toneladas (cultivo de sequeiro e irrigado de soja, milho, feijão, trigo, cevada, sorgo), tornando-se também o maior produtor de feijão do Estado, além de outros produtos, como algodão e café irrigado.

2.1. Características da Região Central do Cerrado

PEREIRA et al. (1997) publicaram resultados recentes, em que estimaram a área de Cerrado contínuo e encontrou-se a área de 2.064.676 km2, que corresponde a 24,25% do território nacional, envolvendo, em 1992, 1.027 municípios, em onze Estados, mais o Distrito Federal. O Estado que tem maior área nos Cerrados é o Mato Grosso (422,1 mil km2), seguido por Minas Gerais (384,4 mil km2), que tem maior número de municípios incluídos na região dos Cerrados.A região dos Cerrados do Brasil é um tipo particular de savana. As principais características do Cerrado, segundo ADÁMOLI et al. (1985), são: i) clima tropical estacional, com chuvas da ordem de 1500 mm anuais; duração da época seca, definida em termos de déficit hídrico, é de 5 a 7 meses; e ii) solos distróficos, sendo que às condições de baixa fertilidade somam-se elevada acidez e altos teores de alumínio; possuindo um relevo plano a suave-ondulado, com características de boa drenagem.Segundo RESENDE (1988) os solos dos Cerrados em todas as suas modalidades tendem a ser álicos (baixa fertilidade), e para o cultivo de solos com elevadas deficiências como estes, existem práticas de redução (adubação, calagem, gessagem, adubação verde, plantio direto, etc.) e práticas de convivência (uso de espécies e variedades selecionadas).2.2. Plantio Direto e Manejo de Solos no Cerrado

A matéria orgânica é uma importante fonte de nutrientes, e ainda melhora as condições físicas do solo, aumenta a capacidade de retenção de água e é responsável, em grande parte pela Capacidade de Troca Catiônica (CTC). O conteúdo de matéria orgânica em solos dos cerrados, via de regra, varia de 0,7 a 6,0%, com uma mediana de 2,2%. No entanto, vários estudos realizados no Brasil Central indicam valores muito baixos da CTC dos Latossolos (classe de solos predominante nesta região), possivelmente, devido à ocorrência de óxidos de ferro e de alumínio e à elevada acidez desses solos, o que determina a baixa atividade da matéria orgânica. Os valores de soma de bases (S) são bastante baixos na maioria dos Latossolos, bem como os teores de potássio. Os valores reduzidos do número de cargas próximo ao do pH natural de Latossolos dos Cerrados, que juntamente com baixos teores de bases, indica limitada reserva de nutrientes para a nutrição de plantas. Portanto, para adotar-se um manejo sustentável (tecnicamente e economicamente) nesta região é fundamental a implantação de programas integrados de rotação de culturas em sistemas de cultivo sem revolvimento do solo para promover acúmulo e aumento da atividade da matéria orgânica, e isto somente é possível através do Sistema Plantio Direto.Segundo GASSEN e GASSEN (1996), o plantio direto tende a dominar o cenário agrícola das regiões tropicais, apesar da maior parte das informações técnicas disponíveis sobre o sistema serem oriundas do sul do País. Neste sentido, acreditam os autores, que os princípios básicos e o conhecimento teórico e prático de outras regiões, podem ser adotados nos Cerrados. Entretanto, as características da região exigem observações diferenciadas, porquanto, o fato do clima com temperaturas altas no inverno e precipitações reduzidas no período entre maio e outubro irão determinar o manejo específico de cobertura morta do solo, de controle de espécies-praga e de plantas daninhas.RESCK (1998) comenta que para o manejo da matéria orgânica sob plantio direto na região dos Cerrados não há como escapar do que denominou-se de paradoxo tropical. Inicialmente, o solo tem de ser revolvido para ser corrigido quimicamente e ativar a matéria orgânica que é de baixa atividade, apesar dos teores médios a altos nos Latossolos. Com esta ativação da matéria orgânica criam-se mais sítios de cargas (CTC), melhorando a agregação do solo. O autor considera quatro fatores componentes do manejo que devem ser aplicados no solo: i) calagem e gessagem para correção da acidez e da toxidez de alumínio superficial e sub-superficial; ii) adubação corretiva e de manutenção de fósforo e potássio; iii) rotação de culturas; e iv) dinâmica de sistemas de preparo, culminando com o plantio direto. O sucesso deste sistema nos Cerrados depende ainda do lançamento de variedades precoces e altamente produtivas de soja e milho, e também do desenvolvimento de espécies para cobertura do solo (por exemplo, milheto, leguminosas, etc.) que produzam abundante fitomassa e produção, atuando sobre a dinâmica de nutrientes como o nitrogênio e fósforo, principalmente.

3. Histórico do Plantio Direto no Noro este Mineiro

O Sistema Plantio Direto teve sua adoção iniciada em Unaí, Minas Gerais há aproximadamente quinze anos, com o plantio das primeiras áreas sem revolvimento do solo na safra de 1985-1986, pelo produtor Paulo Evandro Ferigolo, na Chapada de Cabeceira Grande. Nesta época. as grandes dificuldades estavam na falta de disponibilidade de semeadoras específicas para plantio direto na região, tendo-se que fazer inúmeras adaptações em semeadoras convencionais. Iniciava-se na região Noroeste de Minas Gerais a reviravolta na agricultura de grãos com as mesmas dificuldades, desafios e problemas que outras regiões do País sofreram outrora, porém, com uma necessidade natural talvez mais acentuada, por diversos motivos já expostos.Outros problemas referiam-se a formação e manejo de cobertura vegetal do solo, com dificuldades e falta de informações detalhadas sobre épocas e formas de dessecação, necessidade ou não de rolo-faca, ou então de rolo compactador (de pneus) para acamar as plantas de cobertura, que via de regra, era composta por plantas daninhas pós-colheita. Além disso, existia uma restrição bancária para custeio de lavouras sob plantio direto, uma vez que o sistema financeiro não estava nem informado (nem autorizado) a liberar recursos para lavouras com diferenças tão relevantes no projeto de custeio, quanto ao consumo de combustível, insumos, herbicidas, etc.Foi a partir dos anos 90 que as áreas comerciais sob plantio direto começa a crescer acentuadamente na região, devido às inúmeras vantagens observadas pelo agricultor no que se refere, principalmente, à economia de tempo e de água na época de semeadura.

3.1. Clube Amigos da Terra de Unaí (CAT-Unaí)

Torna-se expressiva a adoção do plantio direto no Noroeste Mineiro na década de 90 e, em 1997, para proporcionar a consolidação desta realidade foi fundado o Clube Amigos da Terra de Unaí, durante o II Seminário de Plantio Direto do Noroeste Mineiro. Esta iniciativa foi coordenada pela comissão formada pelo atual presidente Dario Grando, e os engenheiros-agrônomos Carlos Justin Iora e Eunimar Corrêa de Araújo. Nesta ocasião, estiveram presentes o Secretário Municipal da Agricultura, o Engo-Agro José Amado Noivo, e os palestrantes John Nicholas Landers, Márcio João Scaléa, Nilvo Altmann, Carlos Cordeiro e Marcos Naval.O CAT-Unaí concentra suas atividades na difusão tecnológica do Sistema Plantio Direto no Brasil Central, fazendo parte de uma rede de outros clubes vinculados à Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (FEBR APDP) e à Associação de Plantio Direto do Cerrado (APDC). A atual gestão do CAT-Unaí tem como presidente o produtor rural Dario Grando, membros da diretoria e como secretário executivo o Engo-Agro Luiz Adriano Maia Cordeiro.Neste ano, o clube está promovendo, em conjunto com a FEBRAPDP, APDC, Faculdade de Ciências e Tecnologia de Unaí (FACTU) e Centro Acadêmico de Agronomia da Universidade de Brasília (UnB), o IV SEMINÁRIO SOBRE PLANTIO DIRETO DO NOROESTE MINEIRO, a ser realizado novamente em Unaí, em meados do mês de agosto de 2001. Será um evento voltado a atualização de agricultores, técnicos e estudantes de Ciências Agrárias de toda a Região Noroeste de Minas Gerais, e regiões vizinhas de Goiás, Distrito Federal e Bahia.O CAT-Unaí recebeu em 1999, durante o 4o Encontro de Plantio Direto de Rio Verde, o prêmio de 3o lugar no concurso ”Tecnologia de Plantio Direto” promovido pelo Grupo de Plantio Direto (GPD). O projeto foi desenvolvido pelo Engo-Agro Carlos J. Iora e pelo produtor Dario Grando, da Fazenda Canto, e consiste basicamente na adaptação de semeadora-adubadora para plantio direto com uma divisão no tubo de distribuição de adubo, realizada desta forma em duas profundidades. Com esta modificação, a cultura do feijoeiro desenvolvia sistema radicular mais profundo e de maneira escalonada, contornando desta forma problemas fitossanitários relativas principalmente à fungos de solo e nematóides, muito comuns em áreas sob pivô central.Segundo o presidente Dario Grando, ”hoje o plantio direto está, em praticamente, 100% das propriedades rurais produtoras de grãos nas chapadas de Unaí, porém, em níveis de adoção diferenciados em cada uma”. Adotando o plantio direto, o agricultor consegue eliminar a necessidade das operações de preparo do solo, escapa da erosão e aproveita o início das chuvas com maior eficiência, enfatiza ainda o presidente.4. Situação do Plantio Direto no Noroeste Mineiro

Na região do Cerrado a disseminação do sistema plantio direto ocorreu devido a fatores diversos e distintos de outras regiões, devido às suas características ecofisionômicas (enquanto bioma), e às caraterísticas dos empreendimentos e empreendedores rurais (enquanto região produtora).A ocorrência de erosão hídrica durante o período chuvoso é marcante em áreas sob cultivo na região do Cerrado que não dispõe de cobertura vegetal do solo adequada para sua proteção das chuvas de alta erosividade, tanto pela alta energia cinética como pela intensidade de precipitação. Já na época seca, verifica-se a ocorrência de erosão eólica, devido a ventos fortes em áreas planas e extensas com pouca cobertura de solo. Aliada a estes fatores encontra-se a erodibilidade dos solos desta região, com características intrínsecas que conferem baixa resistência à erosão.De fato, a erosão na região do Cerrado é um dos motivos elementares para a adoção do plantio direto, entretanto, nem sempre esta questão é levada, prioritariamente, em conta, ao contrário existem outros motivos que impulsionaram a difusão do sistema nesta região.

4.1. Culturas de Sequeiro sob Plantio Direto no Noroeste Mineiro

Na região Noroeste de Minas Gerais existem, no momento, algumas culturas em utilização que combinam aptidão técnica e econômica, e que foram capazes de atrair os produtores, entre elas estão: a soja, o milho e o feijão, unânimes em áreas de sequeiro combinados ou não com milheto (formação de cobertura, produção de grãos e feno); e, em menor escala o algodão, arroz, sorgo e girassol. Uma das principais vantagens do sistema plantio direto na região do Cerrado do Noroeste Mineiro é a questão da maior economia de água durante todo o desenvolvimento da lavoura. Esta questão recobre-se de importância, pois, apesar de receber boa quantidade de água de precipitação no período chuvoso, via de regra, isto ocorre de forma irregular, com períodos de estiagem (veranicos) com extensão variável de uma semana até um mês, dependendo do ano.Em áreas de sequeiro este fato afeta intensivamente a atividade, onde o cultivo de plantas em solo com manutenção de palha na superfície promove um desenvolvimento vegetativo mais seguro pelo efeito da cobertura do solo (mulch), com redução dos riscos daqueles veranicos comuns na região. Na safra 2001, por exemplo, as áreas cultivadas sob plantio direto não sofreram tanto estresse hídrico quanto aquelas sob sistema convencional devido a esta economia de água, mesmo num longo período de estiagem, com mais de 50 dias em alguns casos. Áreas de soja sob plantio direto conseguiram atingir até 35-40 sacas/ha e milho até 100-120 sacas/ha, enquanto as áreas de convencional atingiram produtividade 30-40% menor em ambas as culturas (principalmente milho).A cultura do algodão consolida-se na região graças a sua adaptabilidade e aceitação pelo produtor, que está a cada safra investindo em maquinário e apostando num mercado bastante atrativo. Por se tratar de uma cultura de ciclo longo e de alto risco, o algodão vem sendo cultivado em muitas áreas sob plantio direto devido aos fatores já expostos, com produtividade de mais de 200 @/ha sem muita dificuldade. Além disso, tem se verificado um excelente comportamento agronômico da cultura do milho sob plantio direto em sucessão ao algodão manejado quimicamente com 2,4-D, sem a necessidade de revolvimento do solo.No sistema convencional, a dependência de período climático ideal para preparo primário do solo, para o preparo secundário do solo e, posteriormente, a semeadura em condições ideais de umidade do solo demanda muito tempo, e complica o aproveitamento das chuvas, que normalmente não são regulares em nossa região. E além destes problemas, ocorre um excessiva evaporação do solo, devido à insolação direta e intensa que ocorre no cerrado do Noroeste Mineiro, com aumento da temperatura e ressecamento da superfície, tornando o ambiente adverso à germinação de sementes e emergência de plântulas.Dentro deste contexto, no plantio direto os processos operacionais de lavoura tornam-se mais rápidos e ágeis, ou seja, mais independentes de fatores externos. Também economiza-se quantidade significativa de combustível daquelas operações de preparo, e não corre-se o risco de retardar o início do plantio devido às condições inadequadas de preparo do solo pela intensificação ou pela falta das precipitações. Após a germinação/emergência verifica-se maior oferta hídrica para o crescimento e desenvolvimento vegetal, com maior garantia de êxito produtivo na safra.Portanto, o que impulsionou a adoção do plantio direto nesta região do Cerrado foram os aspectos de cunho mais econômico (redução de custos) e operacional (rapidez), e nem sempre exclusivamente conservacionistas (eliminação da erosão), como na região Sul do País. Apesar das vantagens serem significativas, os efeitos benéficos amplamente conhecidos pela pesquisa e pelo produtor, na maioria das vezes, ocorre pouca conscientização com relação à importância dos aspectos da sustentabilidade, de conservação do solo e da água, da importância matéria orgânica do solo e da rotação de culturas.

4.2. Culturas Irrigadas sob Plantio Direto no Noroeste Mineiro

Nas áreas irrigadas sob pivô central (em 3a safra), a presença constante é do feijão, e em menor escala trigo, cevada e milho, raramente a soja (em 1a safra ou para produção de sementes no inverno), e mais recentemente o café. As combinações destas culturas em seqüência são muito variáveis dependendo de cada realidade, de cada propriedade e de cada ano agrícola.Importância da economia de água e rapidez operacional é também muito notada em áreas irrigadas, no sentido de menor necessidade de irrigação devido à menor evapotranspiração pelo efeito mulch, menor consumo líquido, economia de energia elétrica ou diesel, menos desgaste do pivô central, maior giro de capital, menor erosão hídrica e eólica, etc..Segundo STONE e MOREIRA (1998), no plantio direto sob irrigação a cobertura vegetal do solo e a presença de raízes mortas aumentam em conjunto a rugosidade e a infiltração de água no solo. Assim, este fato aliado à maior estabilidade estrutural (bioestrutura de agregados) faz com que infiltre-se maior quantidade de água e reduza-se a perda de água por escoamento superficial. Além disso, o que verifica-se também nesta situação é um maior armazenamento de água no solo, que em conjunto com temperaturas maisestáveis, têm garantido maiores volumes de água disponível às plantas no perfil de solo sob plantio direto. Estes autores realizaram pesquisa com feijão irrigado, e verificaram menor tensão matricial de água no solo e menos variável no tratamento sob plantio direto, o que significa dizer que sempre houve mais água disponível para as plantas e menor variação no seu conteúdo. Portanto, o manejo de irrigação sob plantio direto deve ser diferenciado, uma vez que houve significativa economia e uso mais eficiente de água quando o solo está coberto uniformemente por palha (pelo menos 50%). No plantio direto, a produtividade de feijão obtida com 240 mm de água foi semelhante aquela obtida com 400 mm no preparo com grade sem cobertura do solo, o que representa uma economia de 40%. Com relação a cultura do trigo, a região de Unaí chegou a produzir em torno de 3000 ha, com produtividade média de 5000 kg/ha., sendo uma ótima opção (gramínea de inverno) para rotacionar com o feijão em pivô central. As principais variedades utilizadas são a ’EMBRAPA-22’e a ’EMBRAPA-42’. Além de ser atrativo do ponto de vista de rotação de culturas, o trigo oferece um bom retorno econômico devido aos preços praticados este ano (US$ 150/tonelada) e a garantia de comercialização por contrato firmado com moinhos regionais.A cultura da cevada é uma outra opção para pivô central de grande interesse agronômico e comercial para Unaí e região, com produtividade já alcançada acima de 5000 kg/ha. Para atender esta realidade, foi desenvolvida pela EMBRAPA-Cerrados e pela EMBRAPA-Trigo a cv. ’BRS-180’, que é uma cultivar de cevada cervejeira de seis fileiras de grãos própria para cultivo no Cerrado. No ano de implantação em 1999, e no subsequente 2000, a cv. ’BRS-180’ cultivada em Unaí apresentou todas as principais características de classificação como cevada industrial: boa qualidade de grãos, boa qualidade de malte, alta germinação e teor de proteína máximo de 12%. A cultura não oferece grandes riscos ao produtor uma vez que a possibilidade de ocorrência de doenças é muito baixa devido ao clima seco nesta época do ano. No entanto, deve-se tomar cuidado com o manejo de água de irrigação e de nitrogênio, evitando-se excessos em ambos os casos, para evitar crescimento exagerado. Apresenta-se, portanto, como opção vantajosa em relação ao trigo irrigado pelo menor consumo de água.Entretanto, um ponto preocupante na região refere-se a disseminação de queimadas, principalmente, em áreas de pivô central (devido a questões fitossanitárias oriundas da falta de rotação com o feijão ou pelo excesso de palhada de milho das águas que atrapalha a semeadura). E estas situações estão ocorrendo com crescente freqüência em várias propriedades da região e com grande dificuldade de controle. Em verdade, o que percebe-se é uma plena falta de continuidade do sistema, com retorno freqüente ao convencional frente às primeiras dificuldades. Após 4 a 5 anos de plantio direto, em algumas propriedades, retorna-se ao preparo convencional, ressuscitando grades para destruir um lento processo de bioestruturação do solo que estava sendo (re)construído.4.3. Integração Lavoura-pecuária sob Plantio Direto no Noroeste Mineiro

A integração lavoura-pecuária que já é uma realidade em outras regiões do Cerrado, chega a região de Unaí tida como a grande saída para a crise tècnica-econômica do setor primário, mas ainda com índice de adoção muito baixo. Um exemplo bem sucedido é praticado na Fazenda Dom Bosco, de propriedade do Engo-Agro Sebastião Conrado de Andrade, onde realiza-se integração pecuária-lavoura, sob orientação técnica da equipe Monsanto (Ver Figura 1). Segundo relato do produtor, ”a lavoura contribui na amortização do custo de formação do pasto, deixa residual de adubação e fixa nitrogênio, produz forragem na ’safrinha’, possibilita o uso de culturas diferentes e promove um giro de capital mais rápido da fazenda. E por sua vez, a pecuária produz uma excelente palhada para o sistema plantio direto (cobertura vegetal do solo), com efeito supressor de plantas daninhas problemáticas, aumentando a reciclagem e aproveitamento de nutrientes, produção de proteína animal com menos risco - enfim, a integração é um casamento estável!”. Com adoção deste sistema (ou similar), o produtor consegue aumento de produtividade (na lavoura e na pecuária), melhora a conservação e aumenta a fertilidade do solo, melhorando o retorno econômico anual de cada hectare, dentro de um sistema mais sustentável com maior estabilidade econômica. Os dados da Fazenda Dom Bosco, envolvendo três produtos finais (soja, feijão e boi), a receita média por hectare foi de R$ 1040,00, a um custo médio de R$ 633,00, proporcionando um lucro médio do sistema de R$ 406,00/ha, com produtividade entre 42 sacos/ha de feijão, 45 sacos/ha de soja e 11 @/ha de carne bovina.

5. Considerações Finais

Apesar de existirem tecnologias desenvolvidas para superar as limitações naturais que o ecossistema dos Cerrados impõe à atividade agrícola na região, esta em sido praticada utilizando-se principalmente os sistemas de manejo caracterizados pelo revolvimento e alto grau de perturbação do solo (RESCK, 1998).Na realidade de Unaí e de todo o Noroeste Mineiro, existem produtores que conduzem seu sistema de forma mais correta do que outros, e são justamente aqueles que conhecem melhor (e adotam) a filosofia do plantio direto, que vêm mantendo altos índices de produtividade com menores custos. Certamente, estes produtores não serão excluídos da atividade rural, evidentemente por se tornarem mais eficientes e competitivos. Os melhores agricultores da nossa região são os melhores ”plantadores na palha”, entretanto, o que o CAT-Unaí busca é a generalização deste quadro.A questão que tornou-se preocupante diz respeito a falta de conhecimento dos meandros científicos do sistema, uma vez que é esto fato que está comprometendo a continuidade da adoção. Para obter sucesso na adoção o produtor não só deve conhecer, mas principalmente, respeitar os requisitos básicos do plantio direto: solo coberto o ano todo, não-movimentação do solo (nem sequer para calagem, etc.) e adoção de um programa de rotação de culturas. A rotação de culturas tem se mostrado a chave do sistema aqui, na maioria das regiões agrícolas do mundo. Tanto é verdade que, na sua ausência (ou adoção sem planejamento criterioso), ocorrem as principais evidências de frustração de safra e insucesso financeiro. Em suma o que verifica-se com freqüência, é uma situação oscilante em que frente às primeiras situações ditas ”problemáticas”, o produtor volta a manejar mecanicamente seus solos desconsiderando, assim, o serviço de reestruturação que estava sendo processado no seu agroecossistema particular. Vários são os motivos considerados ”problemáticos” que levam os produtores à ressuscitar o sistema convencional (ou lançar mão de queimadas), entre eles podemos destacar: o adensamento do solo (por manejo mecânico e/ou falta de cobertura vegetal); dificuldades de convivência com altas populações de fungos e pragas de solo (principalmente nas áreas irrigadas com monocultura contínua = feijão); dificuldades no controle de lesmas, formigas, cupins e tatus; necessidade de calagem e gessagem (incorporação); excesso de palhada em áreas irrigadas dificultando e atrasando plantios por embuchamento de semeadoras (principalmente com palha de milho das águas); falta de opções economicamente viáveis para a cobertura vegetal do solo e para comporem o programa de rotação de culturas (tanto para áreas de sequeiro como irrigadas); entre outros.A agricultura tropical passa pelo manejo da matéria orgânica; a agricultura moderna passa pela necessidade de economia de insumos e redução de custos; a agricultura sustentável passa pela eliminação da erosão e pela melhoria ambiental; enfim, a agricultura de Cerrado eficiente passa e depende do Sistema Plantio Direto.

6. Referências Bibliográficas

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