Adubação Nitrogenada em Cevada — Redução de Uso (Geraldino Peruzzo Embrapa Trigo)


Autores:
Publicado em: 01/08/2001

Adubação nitrogenada em cevada, redução de uso

Vários trabalhos enfocando diversos aspectos sobre manejo de nitrogênio tais como: resposta a doses de N, melhor época de aplicação, fontes de N, interações com outros nutrientes, foram estudados com a cultura da cevada no sistema convencional de preparo do solo (aração + gradagens). No entanto, o advento e a crescente adoção do sistema plantio direto forçou as instituições de pesquisa a intensificarem os trabalhos de fertilidade do solo nesta nova linha de pesquisa. A implantação do sistema plantio direto ocorreu inicialmente em lavouras em elevado estado de degradação. A necessidade, nesse estágio, residiu na acumulação de palha na superfície do solo com o intuito de reduzir a erosão. Com o tempo evidenciou-se que a rotação de culturas constituiu-se, da mesma forma em fator importante na sustentabilidade desta técnica. Todas estas práticas somadas reestruturaram os solos já desgastados. Por outro lado, a atividade biológica destes solos intensificou-se agregando vida ao sistema produtivo destas lavouras. O plantio direto acrescentou maior biomassa microbiana, maior número de microorganismos nitrificadores, maior número de células de Bradyrhizobium japonicum, e maior teor de compostos fenólicos com atividade biológica maior do que o sistema convencional de preparo do solo. As implicações, obviamente benéficas, alteraram também os aspectos químicos, notadamente nos níveis de fertilidade destes solos, dentre os quais destaca-se a contribuição dos restos culturais agregados ao solo através da rotação de culturas associado ao tempo de adoção do plantio direto. O efeito destes resíduos, em lavouras com muitos anos de adoção do sistema plantio direto, ocasionaram aumento no teor de carbono orgânico e a conseqüente liberação de N ao longo deste período, em função da sua velocidade de decomposição. Este incremento na disponibilidade de nitrogênio no solo é avaliado pelos teores de matéria orgânica dos solos, constituindo-se na principal fonte de N do solo. A inclusão de leguminosas no sistema de rotação de culturas aumenta ainda mais a disponibilidade deste elemento no solo. O milho cultivado em sucessão a aveia preta com 120 kg/ha de N produziu o mesmo rendimento de grãos que a dose de 60 kg/ha na sucessão com leguminosa. Da mesma forma que o trigo necessita de maior quantidade de N para atingir seu máximo rendimento quando é cultivado após a sucessão aveia preta/milho em relação as sucessões que envolvem leguminosa/milho. O rendimento de grãos de trigo também tem sido maior quando cultivado sobre resíduos de soja, do que quando cultivado sobre palha de milho. A diferença tem sido atribuída a presença de palha com maior relação C:N, que pode afetar a taxa de decomposição e limitar a reciclagem de N no solo. As condições de solo, associadas ao clima, estabelecem processos de transformação diferenciados na dinâmica do nitrogênio neste sistema de produção. Observa-se uma redução na necessidade de nitrogênio ao longo do período de adoção do plantio direto. O rendimento de grãos de trigo após a cultura de soja foi, em média, cerca de 362 kg/ha maior do que após a cultura de milho, com a utilização das doses de N de 40 ou 50 kg/ha aplicados em cobertura. A diferença de rendimento de trigo entre as restevas de soja e de milho aumentou para 648 kg grãos/ha. O acamamento constitui outro fator muito dependente do N aplicado, razão pela qual a dose de N deve ser apropriada, para evitar prejuízos no rendimento.

Tabela 1. Indicações de nitrogênio para cevada em função da cultura precedente. Embrapa Trigo, 2001.

Matéria Orgânica

Dose de nitrogênio (kg N/ha)

no solo (%)

Após soja

Após milho

£ 3,0

60

80

3,1 - 4,0

40

60

4,1 - 5,0

20

40

>5,0

20

Observações: aplicar 15 a 20 kg/N na semeadura, e o restante em cobertura no estádio de perfilhamento.

Os resultados em relação ao nitrogênio, para a cultura de cevada, em plantio direto são limitados. Nesse sentido, foram conduzidos na Embrapa Trigo, em Passo Fundo, RS, na Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (Fapa), em Guarapuava, PR, na Companhia Antártica Paulista, em Lapa, PR e na Companhia Cervejaria Brahma, em Encruzilhada do Sul, RS, durante as safras de 1998, 1999 e 2000, ensaios em solos com diferentes níveis de matéria orgânica, mas com histórico de manejo semelhante (plantio direto por, no mínimo, seis anos) em dois experimentos distintos, um após resteva de soja e outro após resteva de milho. O objetivo foi avaliar a aplicação de nitrogênio, em cevada cultivada após a cultura de soja e após cultura de milho, sobre o rendimento e a qualidade de grãos, visando a estabelecer doses de N econômicas para produção comercial de cevada cervejeira.Os experimentos indicaram diferenças em rendimento de grãos obtidas em função, somente, do efeito da cultura de verão anterior, soja em relação ao milho, sem o uso de nitrogênio. A amplitude dos valores variaram de 437 a 1.836 kg/ha respectivamente para as safras de 1998 e 1999 em solo com 5,0 % de matéria orgânica. Em solo com 2,8 % de matéria orgânica a diferença foi de 738 kg/ha, em 1998. Na situação intermediária de matéria orgânica, 3,5 a 4,0 % a diferença foi de 737 até 1.006 kg/ha, nas safras de 1999 e 2000, respectivamente. Esse valores revelaram a possibilidade de se ajustar as doses de nitrogênio, atualmente em uso, para a cultura de cevada, conforme sugerido na Tabela 1. As doses de nitrogênio indicadas em função do teor de matéria orgânica e da cultura anterior, proporcionam uma redução desse insumo, sem contudo perder-se em produtividade e em qualidade de grãos para fins de malte cervejeiro. É recomendável, portanto, dar preferência ao cultivo de cevada sobre resteva de soja, a fim de se utilizar o benefício do efeito residual de N proporcionado pela leguminosa. Dados gerados em experimentos de doses de nitrogênio com as cultivares de cevada BR 2, Embrapa 127 e MN 698, levando-se em consideração as novas doses de N sugeridas por esse estudo, proporcionaram rendimento máximo de grãos todavia sem comprometer a qualidade de grãos em relação ao teor de proteínas e ao acamamento. Esses valores em rendimento