Cupins em Lavouras sob Plantio Direto (Dirceu N. Gassen Cooplantio)


Autores:
Publicado em: 01/06/2001

Cupins em lavouras sob plantio direto

Dirceu N. Gassen Eng.-Agr. gerente técnico da Cooplantio, Porto Alegre, RS.

1. Introdução

Estudiosos da ecologia sugerem que os cupins, nas regiões de clima tropical, desempenham função semelhante à das minhocas nas regiões de clima temperado. Os cupins alimentam-se de celulose acelerando o processo de decomposição da matéria orgânica e de formação de húmus. Os cupins ou térmitas são insetos sociais que se desenvolvem no solo, em madeira e nos mais diversos ambientes. Em agricultura os de maior importância vivem no solo construindo montes (Figuras 1 e 2) ou galerias subterrâneas. No Sul do Brasil, a ocorrência de montes é mais freqüente em áreas de pastagens e esporadicamente em lavouras cultivadas sob plantio direto (PD). Os cupins subterrâneos ocorrem em quase todos os ecossistemas agrícolas e florestais.

Foto: Dirceu Gassen

Figura 1. Cupim-de-monte, Cornitermes cumulans, em lavoura de soja.

Foto: Dirceu Gassen

Figura 2. cupinzeiro-de-monte, Cornitermes cumulans, em corte transversal mostrando o núcleo celulósico e a capa externa de proteção.

2 . Característica biológicas

Os cupins são organizados em castas sociais com funções definidas. Os operários fazem a limpeza, a coleta e a transformação do alimento, a construção e quase todo o trabalho do cupinzeiro. Os soldados são responsáveis pela defesa física ou química (toxinas ou substâncias pegajosas) do cupinzeiro. Os reprodutores (rei e rainha) podem viver alguns anos e apresentam alta fecundidade.

3. Hábitos alimentares e danos

Os cupins alimentam-se de produtos celulósicos. A celulose é digerida por protozoários ou bactérias no interior do tubo digestivo do inseto. Algumas espécies alimentam-se de folhas à semelhança das formigas, outras se alimentam de sementes e de raízes, mas a maioria consome material orgânico. Desempenham importante função na reciclagem de nutrientes e na quebra de substratos em partículas menores na cadeia de decomposição de vegetais. Em agricultura, os cupins apresentam características desejáveis como a abertura de galerias, a fragmentação de material orgânico e a concentração de nutrientes nos ninhos (Figura 2). Estudos sobre a concentração de nutrientes em cupinzeiros-de-monte (Cornitermes cumulans) em áreas de pastagem nativa evidenciaram que a quantidade de potássio, de fósforo, de cálcio e de matéria orgânica no núcleo celulósico e na capa externa de argila do ninho foi o dobro do constatado no solo de pastagem nativa nos arredores do cupinzeiro. Os cupins-de-monte causam danos pela área ocupada, pela dificuldade de manejo e de uso de máquinas e por ser hospedeiro de animais peçonhentos. Nas lavouras sob PD os cupins-de-monte constituem problema para as colhedoras e as semeadoras, dificultando o trabalho e causando danos às máquinas. Em áreas de arroz-irrigado e regiões de terras baixas ocorrem montículos com forma semelhante ao de cupinzeiros (Figura 3). Diferenciam-se pela cobertura externa com gramíneas e outras plantas. Esses montes são construídos por formigas do gênero Camponotus sp. Elas não causam danos às plantas e cultivam cochonilhas nas raízes das gramíneas. Iniciam os nichos sobre excrementos de bovinos. Alimentam-se de açucarados expelidos pelas cochonilhas e predando insetos e outros pequenos animais encontrados em pastagens.

Foto: Dirceu Gassen

Figura 3. Formiga-cupin, Camponotus sp., em pastagem após arroz irrigado

4. Controle

A adoção de estratégias de manejo e de controle de cupins depende da espécie e de suas características biológicas. Os cupins-de-monte, em pastagens e em lavouras sob PD, podem ser controlados através da destruição mecânica dos insetos ou através da injeção de inseticidas. Os cupins subterrâneos, que não constroem montes, encontrados em lavouras, causam danos nos cerrados onde se justifica a necessidade de controle. No sul do Brasil os cupins alimentam-se de material vegetal seco. Para melhor entendimento agruparam-se os métodos de controle em mecânico, biológico e químico

4.1. Controle mecânico

O controle mecânico de cupins adquiriu nova motivação com o desenvolvimento da broca-cupinzeira desenvolvida e patenteada no Mato Grosso do Sul (Ávila e Goulart, 1992). Este equipamento se assemelha a uma furadeira de solo adaptada a tomada de força de trator. Com este método o índice de controle atinge 85% dos cupinzeiros. Apresenta a vantagem de destruir a estrutura do cupinzeiro que, nos casos de controle biológico ou químico, permanece na lavoura ou na pastagem. Uma das dificuldades deste método é a possibilidade dos cupins substituírem a rainha morta e continuar o desenvolvimento. Por isso, sugere-se destruir os cupinzeiros, antes da primavera, fora da época de reprodução. Além disso, após dois meses, deve-se repassar a broca nos cupinzeiros que continuam em atividade. Destruir ou derrubar o cupinzeiro na parte acima da superfície, além de não matar os cupins, pode resultar no aparecimento de novos cupinzeiros no mesmo local. Nas lavouras sob PD sugere-se matar os cupins-de-monte com a injeção de inseticidas e depois destruir o cupinzeiro para evitar a disseminação da praga.

4.2. Controle biológico

Pouco se conhece sobre os fatores bióticos e abióticos que determinam a dinâmica populacional dos cupins. Na evolução das castas dos cupins aparecem com destaque os soldados que tem a função de defesa do cupinzeiro contra inimigos naturais. A capa de argila endurecida nos ninhos e nas galerias é outra forma de proteção contra predadores e parasitóides. Durante a revoada, as aves tornam-se predadores vorazes e para compensar esse controle natural, os cupins liberam milhares de formas reprodutivas ao mesmo tempo. Para cupins-de-monte o uso de fungos parece ser uma excelente alternativa de controle biológico. No interior destes cupinzeiros a temperatura é mantida a 20ºC e a umidade relativa em 96%, aproximadamente, através de eficiente sistema de aeração. Este ambiente é protegido contra raios ultravioleta e favorável a epizootias causadas por fungos. Estudos com a injeção de Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae em cupinzeiros (Cornitermes cumulans) resultaram na paralisação dos operários numa semana e a morte dos insetos aos dez dias após o tratamento (Fernandes e Alves, 1991). Os resultados com fungos são promissores, entretanto, ainda não estão sendo comercializados para controle de cupins.

4.3. Controle químico

Para os cupins-de-monte, a forma mais eficiente de controle é a injeção de inseticida (líquido, pastilha, pó-seco ou isca granulada) através de um orifício no topo do cupinzeiro com auxílio de picareta ou enxadão. Nas lavouras sob PD, a aplicação de inseticidas dentro do cupinzeiro é a alternativa prática de controle da praga. Depois da morte dos insetos, deve-se destruir os montes para evitar danos em semeadoras e em colhedoras. Para os cupins subterrâneos, que não constroem ninhos, o controle pode ser obtido com o tratamento de sementes ou a aplicação de inseticidas no sulco. Deve-se destacar que os cupins no sul do Brasil, raramente causam danos diretos às plantas, enquanto no cerrado causam danos em pastagens, cana-de-açúcar, milho e arroz, necessitando a adoção de medidas de controle.

5. Manejo de cupins sob plantio direto

Os cupins são insetos de ciclo biológico longo, que são associados a campos nativos e desempenham função semelhante à das minhocas na decomposição de material orgânico. O controle do cupim-de-monte deve ser feito com a aplicação de inseticidas, nos meses de outono e inverno, antes das revoadas da primavera. É importante controlar os cupinzeiros no início da ocorrência antes da disseminação generalizada na lavoura ou pastagem. Após a morte do cupinzeiro se pode destruir os montes com lâmina niveladora ou escarificador.