Como melhorar a cobertura foliar e diminuir a deriva na aplicação de defensivos
Fabio P. Torres Eng.-Agr., Deptº de Marketing/Jacto (14) 452-1811 - ramal 449 - E-mail: jacto@jacto.com.br
Várias tecnologias novas estão surgindo, visando melhorar a qualidade dade de aplicação de defensivos agrícolas. Bicos de baixa deriva, bicos com injeção de bolhas de ar nas gotas, controladores eletrônicos e comandos de pulverização mais precisos são grandes ferramentas que estão à disposição dos agricultores atualmente. Um dos mais recentes avanços na aplicação de defensivos é a utilização de pulverizadores dotados do sistema de barra ventilada, também conhecido como vórtex ou cortina de ar. O sistema Vórtex consiste em um pulverizador de barras que possui um potente ventilador que gera um grande volume de ar. Este ar é conduzido através de um duto, saindo por uma canaleta ao lado dos bicos a 100 – 150 km/h, impulsionando a pulverização em direção ao alvo (plantas ou solo). Este sistema passou a ser conhecido comercialmente na década de 80, mas em 1960 já tínhamos no Brasil um aplicador de DDT para a cultura do amendoim, que utilizava este conceito. O princípio deste sistema é gerar uma ”cortina” de ar que impulsiona as gotas geradas em direção ao alvo, evitando a deriva além de movimentar as folhas permitindo uma melhor cobertura em ambas as faces das folhas. Vários trabalhos feitos no Brasil e no exterior apontam resultados interessantes. A redução da deriva, maior deposição de gotas no terço inferior da planta (parte baixa) e aumento do número de gotas na face inferior das folhas são resultados freqüentes em todos os ensaios. As pesquisas na área de aplicação de defensivos geralmente procuram mensurar a quantidade do produto aplicado que fica nas plantas, o que escorre para o solo e o que se perde por deriva. Vários métodos são utilizados, mas o mais comum é:
Detalhe do ventilador do sistema Vortex
Aplicador para DDT em pó com ventilador (1962)
Deposição nas plantas: É colocado na água do pulverizador um ”traçante”, ou seja, uma substância química conhecida. Após a pulverização são retiradas folhas de locais estratégicos (a planta é dividida em três partes, por exemplo: terço superior, médio e inferior), lavadas em um água destilada e depois esta solução é analisada em um espectofotômetro de absorção atômica, aparelho que medirá as quantidades do traçante presentes nas folhas. Muitos trabalhos medem inclusive a deposição na parte superior e inferior das folhas, visando melhorar a aplicação na página inferior. O papel hidro-sensível (papel amarelo que em contato com gotas de água muda a coloração para azul) pode ser utilizado como um método prático de se avaliar a deposição de gotas nas plantas.
Escorrimento para o solo: Pode-se colocar coletores como, por exemplo, placas de fórmica ou papéis mata-borrão sobre placas de vidro no chão. Após a pulverização estas placas são lavadas em água destilada e esta água é analisada, chegando-se à quantidade do traçante que caiu no solo. Papéis hidro-sensíveis podem ser colocados no chão para uma análise prática, sem fins científicos.
Deriva: Para medição da deriva geralmente são colocados hastes de madeira ou outro material qualquer de 3 a 6 metros de altura em locais pré-determinados, distanciados da aplicação a 1, 3, 5, 7m, por exemplo. Nestas hastes são colocados coletores, que são alvos com a função de reter as gotas para se medir posteriormente a quantidade coletada em deriva. Estes coletores podem ser tiras de papel mata-borrão ou, o que é mais comumente utilizado, limpadores de cachimbo, que são arames de 15 a 20 cm recobertos de algodão. São colocados 6 coletores em cada haste, a alturas de 0,25 metros, 0,50 m, 0,75 m, 1,0 m, 1,5 m e 2,0 m. Pode-se variar o número de coletores e a altura deles, de acordo com o trabalho. Estes limpadores de cachimbo são então lavados em água destilada, que é analisada no espectofotômetro, mostrando a quantidade de calda coletada em deriva. Em práticas de campo, é possível utilizar os papéis hidro-sensíveis para este fim também. Os resultados normalmente são em micro-litros (µl = 1 L/1.000.000) devido aos pequenos volumes que coletamos em deriva, deposição ou escorrimento nestes experimentos. Um trabalho publicado pela Embrapa CNPMA ( Centro Nacional de Pesquisa e Monitoramento e Avaliação de Impacto Ambiental/ Jaguariúna – SP ) pelo Engº Agrº M. Sc. Aldemir Chaim et alii denominado ”Método para Monitorar Perdas na Aplicação de Agrotóxicos na Cultura de Tomate” mostra em detalhes os procedimentos para avaliação de deposição de gotas, escorrimento e deriva. Trabalhos recentes publicados pela Embrapa Jaguariúna e executados pelo Dr. Aldemir Chaim, Pedro J. Valarini, Domingos de Azevedo Oliveira, Roberto V. Morsoleto e Luiz César Pio (Avaliação de perdas de pulverização em culturas de feijão e tomate. Embrapa Meio Ambiente – 1999 ) mostram que, em uma pulverização com equipamentos convencionais, na cultura de feijão, grande parcela do produto fitossanitário aplicado não chegou às plantas. As conclusões desta avaliação foram:
Falcon Vortex trabalhando em algodão, cultura de difícil controle de ácaros e lagartas principalmente no terço inferior das plantas.
Deposição no topo das plantas foi maior que a da região mediana e basal.
Perdas (defensivo que não chegou às plantas) em feijão ficaram entre 49 e 88 % do total aplicado.
Perdas em tomate entre 44 e 70 % do total aplicado.
A velocidade do vento tem grande influência nas perdas por deriva, que chegou à 49,01 % do ingrediente ativo aplicado. O que nós vemos é que grande parte do produto aplicado se perde por evaporação, escorrimento ou deriva e a deposição de defensivos em uma pulverização convencional tende a se concentrar no topo das plantas. Outro trabalho recente, tese de mestrado do Engº Agrº Fernando César Bauer (Unesp – Botucatu) visava comparar a influência da assistência de ar na deposição de gotas e as perdas em pulverizações na cultura da soja. Neste trabalho, dois pulverizadores operaram simultaneamente, um convencional (Condor M-12) e outro com o sistema vortex (Columbia Vortex). O pulverizador convencional aplicou uma solução com 2% de cloreto de sódio enquanto o com sistema vortex aplicou uma solução com 2 % de cloreto de potássio. Amostras das plantas foram coletadas, lavadas para a retirada destes elementos e mediu-se a quantidade presente nas plantas, utilizando-se um espectofotômetro de absorção atômica. Como conclusão o Engº Agrº Fernando César Bauer citou:
A assistência de ar junto a barra de pulverização promoveu significativo aumento da deposição nas porções média (+ 48%) e, principalmente, inferior (+ 58 % ) das plantas de soja.
As perdas para o solo na cultura da soja foram significativamente maiores (591%) para o equipamento convencional quando comparada com o equipamento provido de assistência de ar junto a barra de pulverização.
Redução significativa de deriva foi constatada com o uso da assistência de ar junto a barra de pulverização em relação ao equipamento convencional, em mesmas condições meteorológicas (983% maior com o pulv. convencional) . Estes dados são similares aos trabalhos publicados em vários países, principalmente do continente europeu, onde em função das rígidas leis ambientais a utilização de pulverizadores com o sistema Vortex é cada dia mais comum. Em um congresso recente na Holanda (Formulação e Aplicação de Pesticidas – Como Reduzir os Efeitos Indesejáveis Através de Novos Métodos / Fev 2001) o Engº Jan C. Van de Zande, Cientista Sênior de Proteção de Culturas do IMAG – Holanda, apresentou um trabalho verificando a redução da deriva com diferentes bicos e também com o pulverizador com o sistema vórtex. Em média houve uma redução de 70 % na deriva quando se utilizava a cortina de ar. Em combinação com bicos com injeção de ar nas gotas a redução de deriva chegou a 96%. Trabalho de M. J. May, do Morley Research Center –I nglaterra / 1995, mostrou que a deriva foi 53% menor quando se utilizava a barra com cortina de ar aplicando para baixo. Se direcionarmos a pulverização em ângulo de 30graus para trás a deriva é reduzida em 75%.A maioria destes equipamentos permite que se mude o ângulo de pulverização para melhorar ainda mais a cobertura foliar. Há a necessidade de novos trabalhos mostrando a possibilidade de reduzir a deriva e aumentar a cobertura foliar utilizando-se em conjunto todas as técnicas disponíveis. Comparar a eficiência do sistema Vórtex trabalhando em conjunto com bicos com injeção de ar. Estudar a interação da cortina de ar com bicos em diferentes pressões de trabalho e diferentes tamanhos de gota, etc. O conhecimento das características operacionais de cada tipo de equipamento e a sua interação com as plantas a serem tratadas são essenciais na definição da tecnologia a ser empregada. Neste sentido, a troca de informações entre pesquisa, assistência e os usuários tem sido fundamental para que cada vez mais as vantagens destes novos equipamentos possam ser melhor aproveitadas.