Análise e Tendências Climáticas para 2001 (Clima, Paulo Etchichury SOMAR)


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Publicado em: 01/06/2001

Análise e tendências climáticas para 2001

Paulo Etchichury Meteorologista (e-mail: paulo@somar.met.com.br) SOMAR Meteorologia – São Paulo - SP (www.tempoagora.com.br)

A Meteorologia como instrumento de tomada de decisão

Cada vez mais o homem do campo encontra na tecnologia aliados importantes na incessante busca do entendimento, adaptação e equilíbrio com os elementos e fatores do TEMPO e do CLIMA. Os adventos tecnológicos como os satélites, os supercomputadores, a automatização das observações e as telecomunicações, têm permitido um constante avanço da Meteorologia, permitindo resultados mais objetivos, confiáveis e para prazos mais distendidos. A partir de complexos modelos numéricos de previsão de tempo (modelos matemáticos com fundamentos físicos), é possível fazer uma simulação da atmosfera, de forma que são disponibilizados resultados com informações de previsão de tempo válidas de 01 a 10 dias, tendências climáticas sazonais com 01 a 05 meses de antecedência e previsões interanuais de fenômenos climáticos de grande escala(El Niño e La Niña) com até 01 ano de antecedência. Gradualmente as informações do tempo e do clima estão sendo incorporadas como uma importante variável no processo de tomada de decisão do Agricultor. Prova disso, é que já existe um volume grande de informações disponíveis na INTERNET, assim como, os meios de comunicação (rádios, jornais e TVs) passam a destinar maior espaço na grade das suas programações.

CLIMA em constante evolução

O modelo de produção agrícola do Brasil está muito relacionado às oscilações sazonais do clima, ou seja, em função das estações do ano. Temos a safra de verão, as culturas de inverno, as safrinhas, as culturas irrigadas e assim por diante. Só que o clima não apresenta um comportamento regular e, normalmente, um ano é bem distinto do outro, e nem sempre apresentam as condições ideais para o desenvolvimento das culturas. De uma maneira geral, num período de dez anos, pelo menos em quatro é comum se observar frustração total ou parcial de safra em função de problemas climáticos. Essa variabilidade do clima, seco ou chuvoso, frio ou quente, está relacionados a ciclos da natureza, muitos deles ainda desconhecidos. No entanto, ao longo dos últimos anos, aprendemos que o ciclo do comportamento do Oceano Pacífico equatorial, apresenta duas fases distintas: a fase quente conhecida como El Niño e a fase fria conhecida como La Niña. As fases extremas de El Niño e La Niña podem causar alterações climáticas mais ou menos opostas em várias partes do globo, especialmente nas regiões tropicais e sub-tropicais. No Brasil, a Região Sul é afetada com chuvas acima do normal na primavera/verão do ano que começa o El Niño e no outono/inverno do ano seguinte, enquanto o leste da Amazônia e o norte da região Nordeste são afetados por secas. O El Niño também é responsável por temperaturas mais altas durante o inverno nas Regiões Sul e Sudeste. Em anos de La Niña ocorrem secas no Sul e, em partes, favorece as chuvas no Nordeste. Exemplos recentes e marcantes do La Niña foram as secas intensas vividas pela Região Sul, sobretudo o Rio Grande do Sul. Todos estão lembrados que nos últimos três anos vivemos sob influência de episódios climáticos bem distintos. Em 1997/98 tivemos o El Niño mais intenso do século, que nem bem tinha acabado e ainda no segundo semestre de 1998, já sentiamos os efeitos do fenômeno La Niña que se prolongou durante os anos de 1999 e 2000.

Clima contribui para a safra recorde

A safra recorde de 93,4 milhões de toneladas que o Brasil está colhendo, entre outros fatores, naturalmente em grande parte se deve ao fato de que o clima de um modo geral colaborou. O verão de 2000/01 no sul do País, diferentemente dos anos anteriores, foi marcado pelo predomínio das condições tropicais. Essas condições além do calor, também contribuíram com umidade da Amazônia, o que associado com as frentes fria vindas do sul, foram responsáveis pelas chuvas observadas no período, o que beneficiou para que a Região Sul tivesse uma das melhores safras dos últimos anos. Já as Regiões Sudeste e Centro-Oeste no último verão tiveram um regime de chuva bastante irregular e mal distribuído. Mesmo assim, de um modo geral foi o suficiente para o desenvolvimento normal da última safra na maior parte da Região. O leste de Goiás e o centro-norte de Minas Gerais foi uma das regiões afetadas com a escassez de chuva e tiveram quebra nas lavouras de milho e soja principalmente. O Sudeste do Brasil há mais de dois anos vem apresentando déficit no índice de chuvas, o que se reflete nos níveis do rios e represas da região, comprometendo inclusive o sistema de geração de energia hidrelétrica e, em algumas cidades, até mesmo o abastecimento de água para a população. No Nordeste, a má distribuição das chuvas no último verão, com chuvas abundantes no início e falta de chuva especialmente entre janeiro e fevereiro, em partes prejudicaram a lavoura de soja do oeste da Bahia, sul do Maranhão e sul do Piauí. No entanto, a lavoura de feijão da Bahia, especialmente na região de Irecê, foi a mais prejudicada com a escassez de chuva no início do ano.

Vem aí um novo EL NIÑO?

O resultado do modelo oceânico do Centro Norte-Americano de Meteorologia (NCEP/NOAA) de maio, figura 1, mostra que a partir de maio o Oceano Pacífico passa a apresentar condições de neutralidade, não apresentando anomalia (desvio) na variação da temperatura da superfície do mar, ou seja, nesse período não teremos nem El Niño e nem La Niña. Porém, segundo esse mesmo modelo, a partir de julho e até fevereiro de 2002, a previsão é do Oceano Pacífico (partes central e leste) gradualmente entrar numa fase de aquecimento das águas superficiais, na figura abaixo representada pelas áreas nos tons de cor amarelo/laranja, significando uma elevação da temperatura da água entre 1,0 e 2,5 °C. Por enquanto, essa tendência de aquecimento representa apenas uma inversão no padrão observado nos últimos anos, ainda sendo prematuro se afirmar sobre configuração definitiva de um novo episódio de El Niño, o que caso venha se confirmar, suas conseqüências só seriam sentidas no início de 2002.

Tendências climáticas para 2001

Região Sul: Segundo os modelos de previsão climáticas dos Centros Americanos (NCEP e IRI/NOAA) a tendência para o INVERNO é de um período de chuvas em torno da normal a ligeiramente abaixo da média, portanto, um pouco mais seco. Condição essa que é favorável às culturas de inverno. Com relação ao comportamento da temperatura, a previsão é que a partir de maio fique ligeiramente abaixo da média, quando já é comum a incursão de massas de ar frio de origem polar e até mesmo as primeiras geadas. Para o INVERNO, segundo esses mesmos modelos, a tendência de um inverno bem típico, com as temperaturas em torno da média. Embora não haja previsão de inverno rigoroso, a tendência é que, neste ano, o frio seja mais distribuído durante o período, principalmente entre junho e julho. No entanto, a partir de agosto as temperaturas já voltam a se elevar gradualmente. A projeção para a próxima PRIMAVERA é de condições próximas da média climatológica, ou seja, prevalece o que é comum em cada região. Essa condição também se estende para, pelo menos, o início do VERÃO 2001-02, podendo ser mais chuvoso na segunda metade, caso até lá se confirme a configuração definitiva de um novo El Niño. De uma maneira geral, as condições climáticas se mostram favoráveis para a próxima safra de verão 2001/02.

Figura 1. Previsão de Anomalia da Temperatura da Superfície do mar (ºC) ao longo do Oceano Pacífico Equatorial, para o período de maio de 2001 a fevereiro de 2002. (Fonte: NOAA).

Regiões Sudeste e Centro-Oeste: Nessas regiões, o outono normalmente se caracteriza como o período de transição entre o período chuvoso (verão) e o período seco (inverno), quando os totais de chuva diminuem substancialmente. Para o INVERNO, embora esteja previsto a passagem de algumas frentes frias, continua a tendência de ser seco. Esse quadro, agrava ainda mais o déficit hídrico acumulado nos últimos meses, principalmente no Sudeste, afetando diretamente o sistema de geração de energia hidrelétrica, assim como, representa um risco mais para o final do inverno, de falta de umidade para as culturas perenes como o café, laranja e cana de açúcar. Com relação a temperatura, a tendência é de um inverno bem típico, com as temperaturas em torno da média. Embora não haja previsão de inverno rigoroso, espera-se a atuação de algumas massas de ar frio, especialmente entre junho e julho, inclusive com riscos de alguns episódios de geadas nas regiões produtoras de café. Porém, segundo os modelos climáticos, já em agosto as temperaturas voltam a se levar. Para a PRIMAVERA a projeção é de que neste ano, contrário dos anos anteriores, o período de chuvas comece um pouco mais cedo e sejam mais regulares durante o próximo verão. Por último, ressaltamos que embora alguns resultados promissores, os modelos climáticos referenciados acima são experimentais e ainda não totalmente validados. Por isso, as informações aqui repassadas necessitam de um constante monitoramento e atualização, devendo ser complementadas com orientações de uma assistência técnica especializada.