Agricultores Paranaenses Apostam em Cultivo Orgânico (EMATER-PR Capanema)


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Publicado em: 01/04/2001

Agricultores paranaenses apostam no cultivo orgânico

Na era da engenharia genética, muitos agricultores estão recuperando antigas práticas agrícolas. O exemplo é dado por produtores paranaenses que utilizam os recursos da natureza e a mão de obra familiar para produzir soja em sistema orgânico. Levantamento da Emater-PR, na safra 99/2000, mostra que no Paraná foram colhidas 25 mil toneladas de soja em sistema orgânico em 13 mil hectares. Esse cultivo do grão é feito por 595 produtores e representa 50% do total da produção orgânica do estado. Os produtores paranaenses produzem ainda hortaliças, açúcar mascavo, café, frutas, plantas medicinais, erva-mate, milho, trigo, feijão, arroz, leite e frango. O produtor Assis Pereira Viana, por exemplo, tem oito hectares de terra em Capanema, no Paraná, e toda a sua produção é orgânica. ”A partir da tecnificação agrícola, ficou difícil economicamente para os pequenos utilizarem o pacote tecnológico disponível no mercado. Esse foi o primeiro fator que me levou para o cultivo orgânico. Outro motivo foi a questão ambiental: quero produzir um alimento saudável para minha família”, revela. Aliás, para tocar seu pedaço de terra, Viana conta a ajuda da esposa e do casal de filhos. A prática da agricultura familiar e do cultivo orgânico é que possibilitam a sustentação econômica da propriedade. ”Os orgânicos geram menos custo de produção, porque a maioria dos insumos necessários para produzir se encontram na própria propriedade”, afirma. ”Meu cultivo orgânico é anterior ao interesse europeu por esses produtos, mas a exportação da soja tem ajudado a aumentar a nossa rentabilidade”, admite. Viana é um dos 300 agricultores do sudoeste paranaense que recebem orientação da Assessoar - Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural. A Assessoar é uma organização filantrópica que estimula o desenvolvimento da agricultura familiar num processo de cooperação entre os agricultores e busca de preservação ambiental. O objetivo da associação é auxiliar na formação técnica dos produtores; na capacitação mercadológica e organizacional, além de se preocupar com a qualidade de vida deles. ”Nós orientamos, mas todo o processo é conduzido pelo agricultor”, diz o engenheiro agrônomo Ary de Davi, da Assessoar. ”Esse ano, o número de produtores cadastrados na entidade para produção orgânica cresceu cerca de 60%”.

Interesse estrangeiro garante preços

Desde 1996, o produtor Dilson Martin Koskki também utiliza seus 16 hectares, em Santa Teresinha do Planalto, sudoeste paranaense, para cultivar soja, trigo, e milho orgânico. Koskki e a esposa não utilizam mão-de-obra externa. Assim, o casal consegue alimentar a família com 80% do que produz nas suas terras. ”Temos a garantia de consumir alimentos saudáveis e ainda estamos garantindo a preservação ambiental”, revela. Na cartilha da produção de soja orgânica, Koskki utiliza adubo orgânico, faz controle natural de plantas daninhas, controla os percevejos com compostos orgânicos e as lagartas da soja com o Baculovirus anticarsia. ”É assim que conseguimos produzir”. Além de colaborar com o equilíbrio da natureza, o casal está conseguindo equilibrar as contas. ”Com o sistema orgânico, conseguimos lucrar 40% mais, por isso, percebemos que esse é o caminho para nossa região, que é formada basicamente por famílias de pequenos produtores”. Koskki vende sua produção de soja para a empresa Terra Preservada Indústria e Comércio de Alimentos Orgânicos Ltda, que compra produtos para exportação. Na última safra, a empresa pagou U$ 12,00 pela saca de soja para o produtor que está no primeiro ano de cultivo orgânico e até U$ 15,00 para produtor com mais de três anos. Em 93, a Terra Preservada comprava soja orgânica de 90 produtores e hoje adquire a produção de quase 500 pequenos e médios produtores do norte, oeste e sudoeste do Paraná, região de Campo Novo do Parecis (MT) e região de Passo Fundo (RS). ”A cada ano cresce cerca de 30% o interesse pelo cultivo orgânico”, diz Darci Francisco dos Santos, gerente administrativo e comercial da Terra Preservada. No ano passado, a Terra Preservada adquiriu em torno de 10 mil toneladas de soja orgânica, produção destinada à Europa, Estados Unidos e Japão. A produção passou por processo de certificação, feito pelo Instituto Biodinâmico de Botucatu, SP, credenciado ao IFOAM, órgão internacional que regulamenta as normas de produção orgânica. Outra empresa que tem parcerias com produtores que cultivam soja em sistema orgânico é a Gama Importadora e Exportadora, que está comemorando o interesse estrangeiro pelo produto made in Brazil. No ano passado, a Gama comprou 2 mil 500 toneladas de produção orgânica. ”Os produtores descobriram na agricultura orgânica uma forma de agregar valor à propriedade, porque a soja orgânica garante de 30% a 50% mais que o valor pago pela soja convencional”, explica o engenheiro agrônomo Marcos Daniel Lena.

Tecnologias a serviço do cultivo orgânico

As tecnologias desenvolvidas pela Embrapa Soja também têm papel fundamental na viabilização do cultivo de soja em sistema orgânico. Na última safra, vários produtores utilizaram a BRS 36, variedade, que é resistente a doenças, apresenta alto potencial de rendimento, fornece semente graúda (21,4 gramas por 100 semente) e tem o hilo claro, (pontinho escuro presente na semente). Além disso, os produtores utilizam o controle biológico de pragas. O Baculovírus anticarsia controla as lagartas da soja. Tecnologia que pode eliminar quase totalmente a utilização de agroquímicos nas lavouras. Esses controles naturais têm contribuído para a redução do uso de produtos químicos, como também têm modificado a qualidade do ambiente produtivo. A partir da próxima safra, os produtores poderão também utilizar em sistema orgânico a BRS 155, cultivar indicada na última safra para cultivo no Paraná e Santa Catarina. A BRS 155 reduziu em 70% o inibidor de tripsina, (fator antinutricional que inibe a digestão de proteínas). Com isso, é possível melhorar a qualidade da proteína da soja. Outra vantagem é a diminuição do custo de processamento do grão, por causa da redução de tempo com tratamento térmico, processo necessário para baixar o teor do inibidor de tripsina. A pesquisadora Mercedes Carrão Panizzi, pesquisadora da Embrapa Soja, explica que a BRS 155 já foi testada por uma indústria de alimentos japonesa, para produção de natto, alimento fermentado muito utilizado no Japão. ”A variedade foi considerada adequada pelo sabor e textura que ela dá ao produto”, explica Mercedes Panizzi.

Extraído do Jornal GiraSoja, publicado pela Embrapa Soja - Londrina-PR (Outubro/2000).