Produção orgânica de grãos no Planalto Gaúcho
Marco Antonio Hoffmann Sustentagro Ltda. – Consultoria e Assessoria Projetos em pecuária de leite e de corte e agricultura orgânica - Fone: (54) 311-3190
Introdução
A produção de grãos orgânicos a partir da região da produção, como é conhecido o planalto do Rio Grande do Sul, através da nossa empresa, começou na safra de verão de 1997/98 com o cultivo de soja para o mercado externo. Já neste primeiro ano contamos com a parceira de Sindicatos de Trabalhadores Rurais e, em menor grau, da Emater. No ano seguinte, safra 98/99, aderiram ao trabalho novos sindicatos e uma cooperativa (COOPAC, de Constantina), e iniciou-se também a produção de trigo orgânico. Na safra 99/00, recém encerrada, novos parceiros sindicatos e Emater, e mais duas cooperativas (COASA, de Água Santa, e COTRICUZ, de Fortaleza dos Valos), tiveram significativo aumento de produtores e de área, e começamos a produção de milho orgânico (Tabela 1). A cultura principal é a da soja, responsável por mais de 90% da área plantada, o que está mudando gradualmente com as outras culturas citadas ampliando a sua área. O crescimento relativamente rápido no número de produtores, especialmente em algumas regiões, tem como conseqüência que alguns não obtém certificação das suas áreas. Na presente safra, mais de 20 produtores tiveram suas áreas reprovadas, geralmente por falta de barreira regulamentar separando de lavouras convencionais vizinhas, ou por tempo insuficiente (menos de 12 meses) desde a última aplicação de insumos proibidos pelas Normas de Produção de Produtos Orgânicos. Além disso, a nossa produção de grãos orgânicos expandiu-se para outras regiões, com produtores nos Campos da Serra, nas Missões e em Santa Catarina (Campos Novos).
Produção de soja, preço e custo de produção, novas demandas
A produção média por hectare foi de 31,8 sc/ha na safra 97/98, 26,8 sc/ha na seguinte e estimamos que supere a marca de 30 sc/ha na safra 99/00, pois é grande o número de produtores que colheu entre 40 e 50 sc/ha, com alguns atingindo 55 sc/ha e o campeão, 61 sc/ha. Nos três anos, confirmamos que o clima é o principal fator a afetar o rendimento por área; se chove bem a produção é melhor e vice-versa. Na safra passada, tivemos uma seca severa em vários municípios, assim como na safra recém encerrada, embora esta menos intensa. A produção média também esconde situações diversas. A grande maioria dos nossos produtores são pequenos, muitos com áreas de baixa fertilidade, os quais baixam a média de produção enquanto suas terras não forem melhoradas. Porém, aqueles produtores que tem solos de melhor fertilidade tem alcançado produções médias e altas, conforme citação acima. O produto orgânico recebe um prêmio acima do similar convencional. Este prêmio foi de R$ 3,00 por saca de 60 Kg em 97/98, R$ 4,50 e, 98/99, e na safra atual, com o preço em dólar, tem girado ao redor de US$ 4,00 por saca de 60 Kg. Para o produto em conversão para orgânico (menos de 24 meses desde a última aplicação de agrotóxicos e adubos proibidos), os preços foram respectivamente R$ 2,00, R$ 3,00 e ao redor de US$ 2,50 (Tabela 2). O custo de produção da lavoura orgânica é geralmente bastante inferior ao da similar convencional. No caso da soja, ele tem sido entre 30 e 60% inferior ao da similar convencional, o que se dá pelo menor uso de insumos como adubos e agrotóxicos, e também de máquinas. Os produtores orgânicos que tem um custo mais alto, o tem devido à custos fixos oriundos do seu parque de máquinas e equipamentos e das suas instalações. A manutenção e a depreciação destes podem significar até mais de 30% do custo total da lavoura orgânica. Para a safra 2000/01 os preços para a soja orgânica se mantém (US$ 13,50 sc). O soja em conversão, para o qual havia pouca demanda, volta a ser demandado para a ração animal e o produtor poderá receber por este um prêmio de US$ 1,00/sc. Novas demandas surgem para o girassol e amendoim orgânico, e no mercado interno cresce a demanda por grãos orgânicos para alimentação humana, em especial feijão e arroz, e começa a surgir também a demanda por milho orgânico.
Tabela 1. Evolução do número de produtores e área orgânica plantada no planalto gaúcho.
SAFRA
1997/98
1998/99
1999/00
Nº Produtores
39
195
344
Municípios
13
27
39
Área (ha)
79
554
1602
Tabela 2. Produção média e máxima por ha e prêmios pagos aos produtores.
SAFRA
1997/98
1998/99
1999/00
Nº Produção média (sc/ha)
31,8
26,8
39,51
Produção máxima (sc/ha)
50,0
52,5
61,0
Prêmios Conversão (R$)
+2,00
+3,00
+4,052
Prêmios Orgânicos (R$)
+3,00
+4,50
+7,052
1 Média de 21 produtores que entregaram no armazém em Passo Fundo; 2US$=R$ 1,82
Tabela 3. Produção de massa seca e reciclagem de nutrientes por plantas de cobertura de solo de inverno (Fiorin et al., 1998).
Plantas de cobertura
M.S. kg/ha
N---
Relação C/N
Pkg/ha
K---
Ca---
Mg---
1995/96
Ervilhaca
3268
98
13
15
156
34
9
Tremoço
3411
94
14
17
131
44
17
Nabo
4646
110
15
27
204
85
27
Aveia + Ervilhaca
3473
89
15
16
154
31
8
Aveia Preta
3307
62
21
13
106
12
6
1996/97
Ervilhaca
6490
198
13
24
239
59
22
Tremoço
7093
164
18
24
205
85
37
Nabo
7188
166
17
204
106
42
Aveia + Ervilhaca
8644
188
19
25
249
54
23
Aveia Preta
6995
82
43
14
143
23
13
Sistema de produção
O produtor pode iniciar a sua conversão para orgânico com qualquer tamanho de área, porém após 4 a 5 anos deve ter convertido toda a sua propriedade. É exigência da certificadora que já no primeiro cadastro se discuta com o produtor e se estabeleça um sistema de produção capaz de melhorar a fertilidade do solo. Este também é o principal fator de controle de pragas e doenças, juntamente com um manejo ambiental que preserve a biodiversidade local. O primeiro passo, implantado já no primeiro ano ou no segundo, é a utilização de uma cobertura de solo que beneficie a cultura seguinte (Tabela 4) e contribua para o controle de inços, sobre a qual se fará o plantio direto. Por exemplo, para soja a cobertura de solo é a aveia ou o azevém, sobre os quais plantamos direto a partir do momento em que atinjam a floração plena, observando ainda aspectos climáticos como chuva e temperatura. Quando atingimos uma espessura de palha de mais de 7 cm, garantimos, na maior parte das vezes, um controle eficiente de inços, além da reciclagem de nutrientes. Para o milho, utilizamos o nabo forrageiro e na seqüência ervilhaça, sobre a qual ainda verde o milho é plantado. Em consórcio com o milho procuramos ainda ter uma leguminosa tropical, com preferência pelo feijão de porco ou o guandu. Desta forma, podemos obter um aporte de nutrientes reciclados no próprio local para o milho e para o solo, além de uma considerável produção de matéria seca/ha, para elevar o teor de matéria orgânica (Tabela 3).
Tabela 4. Acumulação de M.S. e N em adubos verdes e a resposta do trigo às culturas que o antecederam e ao uso da adubação nitrogenada (Fiorin et.al., 1998).
Plantas de cobertura
M.S.
Nitrog.
Doses de N no trigo (kg/ha)
Sem.
Cob.
Sem.
Cob.
Sem.
Cob.
0
30
0
30
60
-----
--kg/ha--
-----
Mucuna cinza
4368 c
115 b
2001 bB
2415 aA
2557 aA
Feijão de Porco
6235 b
216 a
2318 aA
2524 aA
2414 aA
Crotalaria spectabilis
7709 a
199 a
2213 abB
2608 aA
2517 aA
Crotalaria juncea
4912 c
100 b
2289 aA
2438 aA
2456 aA
Nabo forrageiro
3820 c
166 b
2474 aA
2566 aA
2519 aA
Feijão preto
898 e
10 d
2127 abB
2613 aA
2614 aA
Pousio
2420 d
47 c
1903 bB
2468 aA
2489 aA
Adubação
Dois aspectos são importantes para nossas decisões com referência à adubação, além da própria cultura: o balanço de nutrientes efetivo e a reserva total de nutrientes do solo. Para nenhum dos dois dispomos de dados precisos, mas é suficiente o conhecimento existente aliado à observação no campo. Assim, sabemos que da matéria seca dos vegetais no mínimo 95% são constituídos pelos elementos carbono, hidrogênio e oxigênio (C, H, O). Dos 5% de minerais restantes, no caso de culturas produtoras de grãos, uma parte ainda permanecerá na palha, não saindo do sistema. Disto resulta que a saída de minerais do sistema é muita pequena. Cada 1000 kg de grãos de soja, por exemplo, retiram 4,3 kg de P (fósforo), ou 10 kg de P2O5. As análises do solo não indicam o tamanho da reserva de nutrientes do solo. Para P, mesmo em solos arenosos devem haver pelo menos 1.500 kg/ha, variando de 2.000 a 5.000 kg/ha em solos de melhor fertilidade natural (Scheffer/Schachtschabel, 1984). Tanto a experiência de regiões que praticam agricultura há centenas de anos, como na Europa ou na China, assim como experimentos de longa duração, mostram que esta reserva não diminui paralelamente ao que é retirado pelas culturas. Isto evidencia que ainda não aprendemos a fazer um bom balanço de nutrientes na agricultura. Por outro lado sempre existem entradas de nutrientes no sistema, nem sempre facilmente determináveis. Mas a reciclagem é um princípio básico da agricultura orgânica, e cada propriedade tem uma situação própria também neste particular. Estercos, palhas, cinzas, rochas, fosfatos naturais, chuva, fixação biológica, são algumas das formas pelas quais a reserva do solo é reabastecida. O acesso das plantas a esta reserva também é variável, sendo fortemente influenciado pelo clima (temperatura e chuva principalmente), mas o sistema de produção pode favorecer ou dificultar este acesso. Favorecem matéria orgânica, atividade biológica, excreções radiculares, diversidade de plantas (Tabela 2). É conhecida a atuação das micorrizas e Scheller, entre outros, cita uma lista de ácidos excretados por raízes de plantas para solubilizar nutrientes. Com estes conhecimentos tem sido possível desenvolver um sistema de produção onde adubos minerais são muito poucos utilizados. A soja, na grande maioria das vezes, é plantada sem nenhum adubo. Leguminosas e estercos aportam nitrogênio (e outros minerais) a gramíneas como milho ou trigo, mas enfatizamos a produção de fertilidade no próprio local com a utilização de plantas recicladoras, as quais também aumentam a diversidade e contribuem para o controle de inços e a redução/eliminação de pragas e doenças.
Conclusão
A evolução no número de produtores e área plantada mostradas acima demonstra que o sistema de produção orgânico é aceito pelos agricultores, que vêem nele a solução de muitos problemas. Mas, ao contrário da agricultura convencional, cujas mazelas são por demais conhecidas, a agricultura orgânica não tem participado dos recursos destinados à pesquisa. Nos últimos anos isso começou a mudar, nós temos contado inclusive com o apoio da Embrapa em Passo Fundo. Mas, ainda há muito a avançar até que a pesquisa tenha um programa que responda às necessidades da agricultura orgânica. Enquanto isso, o aumento da produção de grãos orgânicos é a cada ano maior, respondendo a uma demanda nunca satisfeita, e os produtores e a assistência técnica vão encontrando as soluções dos problemas que surgem. Na maioria das vezes os agricultores demonstram que os problemas diminuíram em relação a quando praticavam agricultura convencional, razão pela qual permanecem no sistema e ampliam suas áreas orgânicas, assim como novos produtores ingressam, baseados no resultado obtido por aqueles que já estão produzindo no sistema orgânico.
Referências Bibliográficas
Fiorin, J.E. Plantas recuperadoras da fertilidade do solo. In: Fertilidade do Solo em Plantio Direto, Cruz Alta, RS, 1999. Resumos.Editora Aldeia Norte, Passo Fundo, 1999. 92 p.
Scheffer/Schachtschabel. Lehrburch der Bodenku- nde, 11ed. Stuttgard: Ferdinand Enke Verlag, 1984. 442 p.
Scheller, E. Die Bezichung der Bodenuntersuchungser gebnisse auf Kali und Phosphar zum Ertrag unscrer Kulturpflanzen. Lebengige Erde,Darms- tadt, n.1, p. 17-23 e n.2, p.66-73, Jan/ Feb e Mar/Apr, 1986