A questão crucial da semeadura
Revista Plantio Direto realiza primeiro debate sobre um dos aspectos mais importantes na condução da lavoura sob plantio direto, a semeadura sobre a palha e todas as suas implicâncias
A mudança do preparo convencional para plantio direto trouxe uma série de alterações tecnológicas e diversas exigências às quais o setor agrícola, produtores, técnicos e operadores, não estavam preparados e ainda estão longe desse objetivo, considerando-se o agravante do momento em que esse fato ocorre, ou seja, na época da globalização econômica e tecnológica, em que a qualidade e o custo reduzido na produção de qualquer produto é condição básica. Com essas exigências e inserido nesse contexto, o plantio direto tem se caracterizado por compensar aqueles que utilizam os conhecimentos disponíveis, e hoje é possível dizer que existem informações, catalogadas de diversas formas, que permitem um processo vitorioso, do planejamento, passando por plantio, manejo e colheita, até a venda da produção agrícola. Porém, a grande maioria dos envolvidos com a agricultura não utiliza esses conhecimentos disponíveis, gerados por órgãos oficiais ou privados de pesquisa ou pêlos próprios produtores. É impressionante o que ainda se comete de erros na condução das nossas lavouras. A semeadura, sobre a qual estamos direcionando o foco do nosso questionamento, por ser o ponto crucial de partida da nova empreitada, tem sido relegado a um plano simplesmente mecânico, apresentando diversos problemas, o que compromete na base o potencial produtivo de cada cultura, inviabilizando, literalmente, pela raiz, o sucesso econômico do empreendimento. Por isso, motivados principalmente pelo trabalho e as informações geradas pelo engenheiro agrônomo Dirceu Gassen, atualmente assessorando a Cooplantio, a Revista Plantio Direto propôs a realização de uma mesa-redonda com o objetivo de iniciar um debate sobre essa crucial questão da semeadura no sistema plantio direto. O encontro, realizado na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, reuniu os pesquisadores Antônio Faganelo e José Portella, da Embrapa Trigo, o engenheiro agrônomo Flávio Haas, da Monsanto, os engenheiros Eduir Pretto do Amaral e Charles Rui Teixeira, da Imasa, de Ijuí-RS, Pedro Werlang e Rodrigo Sbicigo, da Semeato, de Passo Fundo-RS, o engenheiro agrônomo e produtor Humberto Falcão, da Sementes Falcão, de Passo Fundo, o produtor Cornelis Souiljee, da Sementes São Bento, de Carazinho - RS, e o próprio Dirceu Gassen, que foi o âncora da reunião. Os editores Gilberto Borges e Leonardo Borges, da Revista Plantio Direto, coordenaram os debates. A seguir, apresentamos uma resenha das principais manifestações de cada um dos participantes do evento, com o objetivo de um primeiro trabalho, com a proposta de se buscar soluções aos problemas apresentados, envolvendo todos os segmentos interessados na busca de uma agricultura moderna e sustentável em termos econômicos, sociais e ambientais.
Reunião de pesquisadores, empresas e produtores para debater a questão de semeadura.
Dirceu Gassen (Cooplantio) – Em termos gerais, eu diria que o plantio direto hoje está funcionando bem, de tal forma que não existe razão técnica, quer seja de aspectos mecânicos, como semeadoras, quer seja de problemas fitossanitários ou de compactação, que justifique um retorno ao preparo convencional. Porém, nós temos exemplos de lavouras, em diversas regiões, onde houveram retrocessos e o pessoal acabou subsolando e gradeando o solo, com argumentos variados, principalmente de compactação e crescimento inadequado de raízes e plantas.Na minha opinião, temos alguns aspectos confusos ao passar do preparo convencional para o plantio direto e isso, na prática, tem significado que ainda estamos usando a lógica do preparo convencional. Ao semear, andamos na velocidade que utilizávamos no convencional. Este procedimento, somado ao tipo de semeadoras disponíveis, está abrindo um rombo no sulco de semeadura, o que favorece a perda de umidade na área onde se localiza a semente, germinação de plantas daninhas ou adensamento com excesso de chuvas. Não queremos questionar os fabricantes e os pesquisadores, mas sim colocá-los a par desses fatos e manifestar nossa angústia com o problema. O que buscamos efetivamente? Produzir igual ou melhor do que no sistema convencional, usando o plantio direto. Basicamente, queremos um plantio direto com bastante palha, uma boa semeadura e condições adequadas para que a semente germine, permitindo boa instalação da planta. Um caso que acompanhamos em Cruz Alta-RS, mostrou situação que parece ser comum em vários lugares: o produtor reclamava da germinação e do desenvolvimento das plantas. Quando abrimos um perfil no solo, o quadro mostrava um sulco liso, selado, a semente a 4 cm de profundidade e o adubo (320 kg/ha) junto da raiz. A soja germinou, parou de crescer, murchou e ele teve que replantar 300 ha. As responsabilidades, antes de qualquer coisa, sobram para a máquina, para as sementes. Outro problema, que nós vemos com grande freqüência, é a colocação de adubo no sulco, junto à semente do milho, com linhas mais espaçadas e concentração maior de fertilizantes. No caso da soja, acontecem duas coisas: primeiro, a raiz não consegue penetrar, pelo selamento do sulco, e, segundo, com o sulco muito raso, quando chove, encharca e a raiz fica necessitando de ar, volta e sobe; quando falta água, não consegue penetrar, por causa do adensamento e também pelo sal no fundo do sulco. Aí, ocorrem os conflitos mais amplos. Colocar todo o adubo na superfície ou no sulco? Melhorar o sulcador, reduzir a velocidade fazendo um sulco mais profundo para proporcionar um melhor desempenho inicial de raízes e plântulas? Cornélis Souiljee (Sementes São Bento) – Na questão do adubo, acho muito perigoso colocá-lo próximo à semente, pois esse é um dos motivos maiores de replantio. Você regula a plantadeira para um lado, ela afasta a distância para o outro, você volta e aí ela larga praticamente a semente em cima do adubo. Eu não utilizo adubo na linha há mais de 25 anos. Outra coisa é o desgaste rápido do sulcador. Em 50 a 80 ha, o pé gasta e é preciso soldar, fica um remendo. Não sei se tem alguma solução técnica, uma ferramenta que dure mais nesse processe. Sem dúvida, é um problema sério. Além disso, quando se aprofunda o sulcador, as máquinas começam a dar problemas, estoura fusível, parafuso, o operador se irrita e acaba plantando mais rápido e mais raso. Pedro Werlang (Semeato) – Agronomicamente falando, existem recomendações estabelecidas sobre a colocação das sementes ao lado do adubo, na mesma profundidade ou abaixo, na mesma linha, existe uma recomendação que possa ser seguida como norma, e que possa ser ideal? Dirceu Gassen – A recomendação é a tradicional: 2 cm abaixo, à esquerda ou à direita. Na prática, dificilmente conseguimos separar a semente de onde caiu o adubo. O corte na palha pelo disco liso e a abertura do sulco entre 4 e 6 cm de profundidade, seguido do equipamento de distribuição da semente, fatalmente provoca a sobreposição da linha da semente com a do adubo. Hoje, com lavouras que tem boa palhada, eu não teria nenhum receio em recomendar a adubação na cultura anterior concentrando todo o esforço na semeadura e numa boa deposição para a semente e não para o adubo. Aí, entramos em algumas áreas de conflito, pois setores da pesquisa contestam fertilizantes na superfície, enquanto outros já nem discutem mais essa questão. A expectativa é de uma semeadura bem feita, com a melhor colocação da semente. Se a fertilidade está adequada, aduba-se a cultura de cobertura no inverno (aveia) para proveitar os nutrientes na cultura de verão (milho ou soja) concentrando o esforço da semeadura para melhor germinação e distribuição de sementes. Flávio Haas (Monsanto) – Neste caminho de questionamentos sobre a colocação do adubo, pensando em plantar a semente na melhor condição de umidade, visando a qualidade de plantio, e a adubação sendo uma atividade separada, que antecedeu a semeadura, existe um respaldo da pesquisa , e eu não tenho mais dúvidas de que esse mecanismo é viável. Pesquisadores da Embrapa Trigo demonstraram que, quando o nível de fósforo e de potássio está médio para alto, a produtividade não diferiu estatisticamente, mostrando que é perfeitamente viável a adubação a lanço, nas culturas de inverno. No verão, devemos concentrar a preocupação com a semente, podendo até dispensar o carrinho que é caro e de difícil regulagem para andar em terreno declivoso. Outro item importante é que a grande maioria dos produtores está adubando mal e suas lavouras estão com um nível de fertilidade abaixo do ideal colocado pelos pesquisadores. Então, se elevar o nível de fertilidade ou trabalhar com um sistema diferenciado para aqueles que o tem, sem nenhum problema, a adubação vai ser uma atividade separada e feita antecipadamente. Pedro Werlang – Haveria naturalmente um maior rendimento, dobrando a capacidade da semeadora. Na prática, também ocorreria uma eliminação dos problemas ligados ao mecanismo de distribuição do adubo pois, segundo os produtores, para cada dez vezes que estraga o mecanismo de distribuição de adubo, estraga um do mecanismo de distribuição de sementes. A semeadora sem adubo terá mais espaço para a semente no reservatório. O operador não vai precisar trabalhar com uma velocidade excessiva, podendo fazer um plantio de qualidade, pois a distribuição da semente ou a própria abertura do sulco está diretamente ligada à velocidade.
Semeadura com excesso de velocidade, dificultando o corte da palha e abrindo exageradamente o sulco de semeadura
José Portella (Embrapa Trigo) – Há muito tempo atrás já se falava na questão do adubo em banda. Não é novidade, os americanos fazem isso há muito tempo. Só que, com a filosofia do plantio direto nas décadas de 70-80, que preconizava um corte mínimo no solo, o enfoque era de que não se devia agredir o solo, deveria ser um corte estreito, foi uma filosofia que nós acabamos agregando nas semeadoras e todas as indústrias seguiram esse padrão. Os discos duplos com ângulo de 12 graus, passaram para 7-8 graus, e hoje está fechando mais ainda para tentar agredir menos o solo, abrir menos o sulco. Por isso, nós abandonamos essa linha de pesquisa, mas chegamos a trabalhar com o sulcador em banda, quer dizer com duas saídas, onde havia uma penetração melhor e a ponteira ficava mais firme, com o único inconveniente de agredir mais o solo. Eram colocadas duas linhas de adubo e só isso era uma grande vantagem. Na cultura do milho significaria um grande avanço. O que nós precisaríamos para ter esse tipo de colocação do adubo em bandas? Teríamos que ter um bom sistema de fechamento de sulco. As semeadoras evoluíram em relação aos modelos das décadas de 70-80, em termos de estrutura, peso e hoje são melhores do que as antigas, podendo suportar uma demanda maior de energia. Vai gastar mais combustível e vai demorar mais a plantar? Sim, mas elas tem uma estrutura boa para fazer isso e eu acho que uma das soluções ainda poderia ser a utilização desse mecanismo de adubo em bandas
Soja semeada sobre área de terraço, preparada com arado e grade e plantio direto sobre palha, caracterizando que a semeadora está bem regulada para plantio convencional de solos.
Gilberto Borges, Revista Plantio Direto – Existe algum modelo disponível no Brasil? José Portella – Aqui no Brasil não, mas nos Estados Unidos e na literatura temos vários modelos. Esse tipo de adubação teria que ser casado com um bom fechamento de sulco. Os nossos compactadores não estão fechando o sulco de forma adequada. Qualquer máquina americana ou canadense possui uma chapinha lateral, que puxa a terra para dentro do sulco de volta, além do compactador, que funciona. É um novo conceito, seria mais caro, teria mais componentes mecânicos, mas seria uma solução. Trata-se de uma ponteira com uma espécie de asa, com duas bandas, onde cai o adubo. Além de dividir o adubo, você teria uma faixa onde a semente seria melhor colocada. Eles utilizam mais em cultivo mínimo e plantio convencional. Em plantio direto, precisamos fazer mais pesquisas. Confesso que nós abandonamos essa linha em função do rumo que o plantio direto tomou, que era de cortar mais fino, para ser menos agressivo, preservando a palha na superfície. Hoje, talvez estejamos pagando por isso, e aí está a reação do pessoal querendo lavrar a terra de novo. Eduir Pretto do Amaral (Imasa) – A maioria das semeadoras que utilizamos são derivadas do plantio convencional, surgiram poucas exclusivamente para o plantio direto. Outro fator que poderia minimizar a questão da concentração do adubo seria a adubação em dois níveis, um embaixo e outro em cima. Além disso, com o desenvolvimento de espaçamentos menores entre as fileiras de plantas, também diminuirá o volume de adubo depositado nas linhas. Outra forma seria aplicar parte do adubo na superfície, a lanço, e parte na linha. Humberto Falcão (Sementes Falcão) – Acho importante discutirmos com todos a questão do facão, o perfil dele para um revolvimento menor, para não afastar tanta palha, essa é uma solução que estamos buscando. Trabalhamos com facão desde o início, começamos com os maiores, na PS-6, porque o disco não penetrava. O que precisa, na nossa opinião, é melhorar esse corte, de forma que pudesse fazer um rompimento e evitar a compactação. Nós estamos concentrando a adubação, de forma mais pesada, na cultura de inverno, onde a distribuição é mais uniforme, não é feita a lanço, mas o espaçamento é menor, concentra mais e uniformiza mais rapidamente em relação às culturas de verão. No caso da semeadora, eu gostaria de continuar com o facão, para cortar e romper, mas que pudesse revolver menos, isso seria ideal. Cornelis Souiljee – Eu utilizo sulcador para colocação de sementes desde 87. Um problema que eu vejo é que, numa hora de correria, o sulcador gasta de meio a um centímetro por dia e, no terceiro dia em diante, ele já não está mais plantando na profundidade que havia sido programada e ninguém mais vai lá conferir. Eu já estive até pensando em colocar vídia, que é usada nas brocas de perfurar rocha, para evitar esse desgaste. A vídia não resiste ao impacto, mas tem um tipo especial que é usado em furadeiras de rocha e esse resiste. Utilizei esse material e fiquei impressionado pois trabalhei dois anos com aqueles discos, de tal forma que chegou a gastar a lateral do disco. Se desse para conseguir uma pastilha pequena, que fosse possível embutir e fixar com parafuso na ponta do sulcador, resolveria o problema do desgaste. José Portella – Realmente, um dos problemas do facão é o desgaste, principalmente em terras arenosas. Depois de um período ao redor de 100 horas, dependendo da qualidade do produto, essa ponteira gasta e o trabalho fica comprometido. Nós tínhamos algumas soluções para a indústria, que pegamos da literatura. Uma delas, que estranhamente até hoje ninguém usa, é o poliuretano, que já ganhou prêmios na Europa, onde há 20 anos se utiliza nos subsoladores. Aqui no Brasil, a Baldan e a AGCO já tinham alguns modelos de arados de disco ou aiveca revestidos com esse material, é um plástico endurecido, de alto poder de resistência, que não desgasta. Um dos motivos da ponteira comum permanecer é que ela é barata. Porém, mesmo sendo barata, nosso agricultor não tem a cultura de comprar uma nova e trocar.
Plantio direto ideal, com preparo de solo no sulco da semeadura, coberta de palha e germinação uniforme das plantas.
Eduir do Amaral – O poliuretano é usado contra o desgaste, mas ele não tem resistência ao choque. O problema dele é que não se consegue injetar pois, se fazer uma matriz, ele já perde as características. O ideal seria usinar, mas aí encarece. O que se tem usado normalmente é o aço e o manganês, uma liga um pouco mais cara, tem uma resistência maior ao desgaste em relação ao aço 1070, que normalmente soluciona parte do problema. Antonio Faganello (Embrapa Trigo) – Hoje existe material sintético e a porcelana está entrando, embora ainda inviável. Porém, o ponto de desgaste é pequeno e a possibilidade de utilização se torna real. José Portella – O nosso grande problema não é o impacto e sim o atrito, a abrasão. No Cerrado ainda é o problema, mas, do Paraná para baixo, o grande problema é a abrasão. A pesquisa e as empresas deveriam pensar em outros materiais, existem outros melhores, mas nós nem nos damos conta.
Diferenças
Antonio Faganello – A grande diferença de uma semeadora de plantio direto para uma semeadora de plantio convencional, praticamente, é o que está embaixo da semeadora, ou seja, os mecanismos de corte, sulcadores e rompedores de solo. Não existe uma preocupação da indústria em desenvolver diferentes kits, que existem na América do Norte e Europa, para serem acoplados na parte debaixo da semeadora. Isso me daria a opção de, conforme a condição do solo, palha, umidade, etc., utilizar diferentes instrumentos. É interessante termos máquinas pneumáticas para uma colocação eqüidistante das sementes, mas de nada adianta se nós trabalharmos a 10 km/h e não melhorarmos os mecanismos que estão embaixo das nossas semeadoras. O que temos hoje é o que se apregoava há 10-15 anos atrás: disco de corte, disco duplo, disco defasado e desencontrado, em torno de 18 polegadas de diâmetro. Algumas indústrias já tem facão, sulcadores com um ângulo de penetração em torno de 20-15 graus, o que confere uma menor necessidade de peso na semeadora, porque é possível trabalhar com uma máquina mais leve. Também é possível trabalhar com semeadora hidráulica, desde que eu tenha embaixo só sulcador, tipo facão, com esse ângulo de penetração. E por que não uma máquina com 3 ou 4 chassis, que a gente já vem falando há tempos, com a qual se possa trabalhar só com facão até no inverno? No Canadá eles plantam trigo com facão. Claro que com menos palha, mas poderíamos trabalhar também com menos palha nas nossas condições. Realmente, as nossas máquinas de plantio direto não deixam de ser concepção das semeadoras de plantio convencional. A chave, eu diria, está embaixo da semeadora. Desde que tenhamos uma boa fertilidade do solo, deveríamos nos preocupar com a colocação da semente no solo. Claro que é muito melhor você trabalhar com uma semeadora de disco, os problemas de embuchamento são menores do que com facão. A indústria e a pesquisa precisam desenvolver facões em que a palha possa fluir embaixo. Por que nos escarificadores não ocorre embuchamento? Porque há um vão livre entre as hastes e a palha pode fluir. Dirceu Gassen – Temos uma outra situação que é generalizada e para a qual gostaria de chamar a atenção: uma má semeadura começa numa má distribuição de palha. É comum encontrarmos sementes na superfície da terra e culpamos a velocidade ou o operador. Na verdade, não estamos conseguindo peso ou uma combinação técnica para conseguir cortar a palha e colocar a semente de forma adequada no solo. Pedro Werlang – Isto também pode ocorrer quando você está fazendo uma pequena curva e a semente pode sair da linha do adubo. A linha da semente normalmente não tem o poder de corte e isso pode provocar o encestamento. Dirceu Gassen – Essa é uma das razões pelas quais o agricultor tira os terraços e planta em linha reta. Realmente, plantar direto em curva é uma dificuldade do ponto de vista de abertura do sulco, com as máquinas que temos. A retirada dos terraços tem apresentado um quadro clássico, em que a semeadora passa sobre duas situações: com plantio direto com palha e preparo convencional no terraço desmanchado sem palha, onde o produtor tende a dizer: no plantio convencional a germinação e o desenvolvimento das plantas é melhor. A resposta é a seguinte: a semeadora está perfeita para plantio convencional não para plantio direto. Na questão da palha, temos um endeusamento do picador, quando ele, em muitas ocasiões, piora a situação, especialmente no caso de milho. Se tivéssemos um distribuidor (esparramador) de palha mais grossa, a deposição seria mais adequada, facilitando a semeadura. Pedro Werlang – O agricultor não respeita a palha quando ela se encontra úmida. Nesse caso, não existe disco que corte e a pressa de colher e plantar só vai piorar a situação. Humberto Falcão – Outro problema é que as plataformas das colheitadeiras estão ficando cada vez maiores, recebemos uma com 7m, de plataforma e não está dando cobertura, isto vai ser visto com maior freqüência. Vamos ter que resolver o problema da distribuição dessa palha e, com plataformas de 7 a 9 m, podemos ter problemas de concentração e falta de palha ao mesmo tempo. Cornelis Soulijee – Realmente, tenho observado que os espalhadores deixam muito a desejar. Se pudéssemos trabalhar com a máquina sempre em nível a palha seria depositada em toda a largura. Nas ladeiras, o picador pega e vai largando numa fileira grossa, e não existe plantadeira que trabalhe nisso. Há alguns anos desenvolvi um sistema de espalhar atrás do picador. No lugar daquelas chapas, onde ele bate e joga para os lados, eu coloquei duas hélices e o resultado é satisfatório, a palha passa pelo picador e depois ela é distribuída, a rotação das hélice faz uma turbulência, levanta a palha por cima e não deixa amontoar. Na região de Carazinho, muitos produtores adotaram esse sistema e estão satisfeitos na hora de semear. Na resteva de trigo ou aveia, quando há necessidade de colher e entrar no mesmo dia, ou no seguinte, utilizo facas menos rombudas no picador, porque elas demandam muita energia e não cortam direito. Com pedaços menores de palha, quando vem o disco de corte, só ocorre um deslocamento para o lado, facilitando o plantio. Eduir do Amaral – Considero que este encontro foi muito importante porque ele trouxe à cena um fator que talvez seja a sobrevivência do plantio direto, que são os sulcadores. Até hoje foi conversado pouco, pelas próprias indústrias, sobre essa questão. Pelo que nós sentimos e ouvimos, trata-se de um fator fundamental, que pode determinar o futuro do plantio direto ou eliminá-lo do segmento. O produtor, muitas vêzes, não se dá conta que ele veio de um plantio convencional e deixou jogado uma porção de ferros e a quantidade de discos e materiais em que ele teve abrasão. Hoje, ele está só com a semeadora, mas não faz os cálculos do que isso possa significar. José Portella – Na década de 90, quando plantamos a idéia de fazer os ensaios de máquinas, a tentativa era de aproximar indústria e a pesquisa e aconteceu uma integração positiva. Quando a Tatu veio e mostrou a rosca sem fim, todo mundo viu e, dali a dois anos, todas tinham aproveitado a idéia. Depois, por diversas razões, a proposta foi desativada. Acho que hoje seria muito importante que essa integração voltasse a acontecer. O ensaio de máquinas significou um avanço. As sugestões que iniciam numa mesa redonda como esta podem ser incorporadas em máquinas e serem avaliadas pelo quadro técnico. As melhorias aprovadas poderiam ser utilizadas. Pedro Werlang – Um aspecto que deve ser levado em consideração, e que foi comentado, sobre o desgaste dos elementos, é que o produtor precisa colocar como preocupação a manutenção. Não só nas hastes e ponteiras mas em toda a semeadora, distribuição de adubo e sementes. Há a necessidade da consciência da manutenção que a máquina necessita, mesmo em época de apuro. Outra questão que eu gostaria de frisar é a da regionalização pois, se considerarmos as partes de corte da palha, há que considerar os tipos de solo, estrutura do solo e a cobertura utilizada. A indústria precisa diferenciar o que serve para o Rio Grande do Sul e o que é bom para o Mato Grosso. Nós já tivemos experiências em que o que serve para a Bahia não é bom para o Rio Grande e a nossa empresa tem tido a preocupação, através do pessoal de projetos, acompanhar cada vez mais a nível de campo, para checar essas necessidades. Isso envolve uma série de aspectos, como materiais a serem utilizados, desgaste de componentes e, enfim, aos diversos fatores que são parte dessas regiões diferenciadas. Dirceu Gassen – Um fato é certo: estamos saindo do plantio convencional para o plantio direto, mas fazendo as coisas do convencional. Eu diria hoje que, dos fatores limitantes para a viabilização do plantio direto, a semeadura é o aspecto principal. Isso engloba o agricultor, o operador e a semeadora. Precisamos melhorar a relação entre a pesquisa, a indústria, a assistência técnica, o produtor e operador. A questão é: melhorar a semeadura. Deveríamos preparar o sulco de semadura com 10 a 12 cm de profundidade e colocar a semente a 3 ou 4 cm, garantindo condições de absorção de água para germinação e ar para o crescimento das raizes. O adubo estaria separado da semente e o excesso de chuva não encharcaria o sulco, prejudicando as raizes ou favorecendo doenças, dando condição de desenvolvimento da raiz e, ao mesmo tempo, garantindo terra encostada na semente e um espaço abaixo para, se chover demais, a semente não cair no fundo do sulco. O agricultor precisa andar mais devagar e as indústrias devem ficar atentas. O agricultor está procurando melhores equipamentos de preparo de sulco de semeadura. É necessário melhorar a relação entre as necessidades da planta, as demandas do agricultor, a informação da pesquisa e o fabricante de semeadoras para melhorar a produção de grãos sob plantio direto.