Evolução da Fertilidade do Solo no Plantio Direto — Um Exemplo no Planalto do RS (Tornquist Manah)


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Publicado em: 01/04/2001

Evolução da fertilidade do solo no plantio direto: um exemplo no planalto do Rio Grande do Sul

Carlos Gustavo Tornquist

Eng. Agrônomo, MSc, assessor agronômico da Manah/Divisão Rio Grande.E-mail: carlosgustavo@manah.com.br

Este trabalho é baseado num original de Cornelis Souilljee apresentado no 15o Seminário Anual da COOPLANTIO (Gramado, junho/2000).

A fertilidade do solo no SPD

Não conhecemos completamente as modificações que estão ocorrendo nos solos sob sistema plantio direto, mas muitos aspectos têm sido notados por quem já está há mais tempo no sistema. O simples fato de não realizarmos revolvimento da camada superficial afeta radicalmente propriedades química e físicas do solo. Podemos observar um aumento da densidade do solo – normalmente sem reflexo negativo no desenvolvimento das culturas. Também ocorre um incremento no teor de matéria orgânica, principalmente quando um plano de rotação de culturas é implantado. Ao mesmo tempo, não faltam referências mostrando que os resultados das análise de solo refletem incremento na concentração de nutrientes nas camadas mais superficiais (0 a 5 cm ou 0 a 10 cm), fenômeno conhecido por ”estratificação dos nutrientes”. Este aumento nos teores de nutrientes ao longo do tempo se deve principalmente à falta de incorporação do fertilizante, mas a ausência de erosão e diminuição da fixação do P também desempenham papel fundamental. Sabe-se também que a estratificação é mais acentuada nos primeiros anos após a adoção do SPD. Paralelamente devemos considererar que a adubação continuanda, já há algumas décadas no RS e SC, já vinha mostrado tendência de elevar os teores de P dos solos, mesmo sob cultivo convencional. Entendemos que o manejo da fertilidade no Sistema Plantio Direto pode e deve ser modificada tanto em quantidade (volume de fertilizante/ano) e qualidade (teores relativos de nutrientes nas formulações utilizadas) para melhorarmos a eficiência dos nutrientes e aumentarmos os rendimentos.

Tabela 1:Evolução da fertilidade de solo de uma gleba (Sementes São Bento, Carazinho - RS).

Ano

pHH2O

pHSMP

P

K

M.O

AI

Ca

MG

Sat.Bases

S

ZN

B

Cu

Mn

Mg L-1

%

comlc L-1

%

mg L-

1988

5,8

6,4

28

184

3,0

0

5,7

3,0

88

9

0,6

0,5

3

0,6

1992

6,1

6,2

33

152

3,1

0

7,0

2,8

87

9

4

0,5

3

1,3

1995

6,6

21

132

3,2

0

7,0

3,3

81

11

9

0,8

5

---

1999

5,5

5,9

34

318

3,7

0

7,6

2,8

74

16

29

0,8

4

7,3

Um estudo de caso

O produtor Cornelis Souilljee nos traz um excepcional testemunho do potencial de produção de grãos do Rio Grande do Sul neste novo contexto tecnológico. Na sua propriedade (Sementes São Bento, Carazinho) de mais de 1.100 ha, nos últimos 10 anos, colheu-se em média 49 sacos de soja, 50 sacos de trigo e 106 sacos de milho por hectare! Ao conhecermos o trabalho que Cornelis vem desenvolvendo, fica evidente que não há justificativa agronômica (e quem sabe econômica?) para que os rendimentos médios no RS dificilmente passem dos 30 sacos/ha na soja, 25 sacos/ha na cultura do trigo e 42 sc/ha no milho. Cornelis iniciou seu trabalho em 1967 nos solos argilosos do Planalto Riograndense, que apresentam média declividade, com baixa fertilidade natural e alta acidez . Por volta de 1975, Cornelis passou a realizar toda a adubação a lanço, no inverno, visando atender a necessidade da cultura de inverno e de verão. A isto chamamos de sistema de adubação do sistema de produção: as necessidades nutricionais das culturas de verão são supridas pelo efeito residual da adubação feita no inverno e pela reciclagem dos nutrientes na palhada. A adubação a lanço garante a distribuição dos nutrientes por todo o volume do solo, estimulando o desenvolvimento do sistema radicular das culturas. Neste sistema, as doses de fertilizantes são calculadas pela reposição da exportação de nutrientes nos grãos colhidos na safra precedente, com um fator de segurança para compensar eventuais perdas no sistema. Também é feito monitoramento contínuo da fertilidade das glebas por análises de solo anuais. Em 1990-91 foi adotado o SPD com um sistema rígido e intensivo de rotação de culturas em toda a área. Esta iniciativa permitiu viabilizar a cultura do trigo, além do nabo forrageiro como cobertura para as áreas onde será cultivado milho, e mais recentemente a canola. É imprescindível a inclusão do milho no sistema de rotação. Há uma grande preocupação em aproveitar ao máximo o tempo disponível para culturas de cobertura: estas são semeadas imediantemente após a collheita da cultura de verão. Desta forma, o solo estará sempre coberto com plantas produzindo massa verde. Áreas novas levam no mínimo 5 anos para apresentar estabilidade de rendimentos, muito em função do aumento da matéria orgânica e estruturação do solo.

O manejo da fertilidade conta com uma adubação multinutriente (feita c/ FOSMAG® da Manah desde 1989) visando atender as necessidades nutricionais mais amplas das culturas. Todas as formulações desta linha contém multifosfato magnesiano (fonte de P com solubilidade gradual), sulfato de cálcio e micronutrientes (especialmente Zn, B, Mo e Co). Além de garantir P em níveis adequados às taxas de absorção das culturas utilizadas, as quantidades de K, Ca e Mg adicionadas tem sido suficientes para manter a saturação de bases em torno dos 70%, com níveis de alumínio trocável próximos a zero. Assim, já há 8 anos não é feita calagem nas áreas antigas. A adubação nitrogenada no trigo, no milho e na canola é feita com NAM (nitrato de amônio) uma fonte mais eficiente de N, principalmente para o milho. Este sistema de adubação tem sido adequada para repor as extrações dos principais macro e micronutrientes das culturas empregadas na Semente São Bento, como pode-se ver nos resultados das análises de solo e análise do balanço de nutrientes Os gráficos-torta mostram a quantidade de nutrientes adicionada a cada ano e a saída (exportação) nos grãos colhidos. O saldo positivo (adubação – exportação) é a margem de segurança, que garante a adequada nutrição das culturas mesmo em situações de stress (seca, baixa luminosidade, frio fora de época). Este saldo também é o responsável pelos incrementos nos teores de nutrientes observados nas análises. O acompanhamento técnico feito pela Manah já promoveu 3 alterações nas formulações de FOSMAG® utilizadas para garantir adubação adequada, acompanhando a evolução da fertilidade com custos compatíveis dentro da conjuntura econômica dominante.

Conclusões

Cornelis considera o solo como um parceiro mudo, que se comunica com o agricultor pela qualidade e pelo rendimento das culturas. Para que esta parceria se desenvolva, é necessário que o produtor seja um observador atento do que está acontecendo em sua propriedade. As análises de solo, o registro das colheitas em cada gleba, além da escolha criteriosa das formulações de fertilizantes, embasada na assistência técnica comprometida com rendimentos compatíveis, são instrumentos fundamentais neste processo. Lamentavelmente ainda hoje, em épocas de PCs, GPS e outras tecnologias de fácil acesso, temos propriedades sem mapas e sem registros a altura do valor da produção. Os gráficos comparando os rendimentos de Cornelis e a média do RS nos últimos 10 anos demonstram não haver dúvida de que o sistema de plantio direto é a plataforma ideal sobre a qual podemos obter maior estabilidade de produção e maior rentabilidade na produção de grãos.