Manejo de plantas daninhas pós-colheita
Dirceu N. Gassen1Flávio D. Haas2
1Eng.-agr., gerente técnico da Cooplantio.E-mail: dirceu@agri.com.br 2Eng.-agr., gerente técnico da Monsanto.E-mail: flávio.d.haas@monsanto.com
1. Evolução do uso de herbicidas e de ocorrência de plantas daninhas
O controle de plantas daninhas é o componente fitossanitário de maior custo e de maior preocupação para o agricultor. Decisões erradas na escolha de herbicidas e as condições adversas de clima podem resultar na frustração de controle de plantas daninhas com reflexos negativos nas safras seguintes. Os problemas também ocorrem com a seleção de novas espécies e o desenvolvimento de populações resistentes aos herbicidas tradicionais. A partir de meados da década de 80 a oferta de novos herbicidas, mais eficientes, com menor impacto sobre os recursos naturais, combinado com o aumento acentuado do custo da mão–de-obra, resultou na mudança de estratégia de controle de plantas daninhas. O agricultor deixou de fazer a capina manual ou mecânica e passou a usar herbicidas. Na década de 70 o herbicida trifluralina (Treflan) foi usado em larga escala para controle de gramíneas em lavouras de soja. O uso continuado do mesmo produto permitiu a sobrevivência e a multiplicação de picão-preto (Bidens pilosa). No fim da década de 70, a nova planta daninha em soja determinou o uso de metribuzin (Sencor ou Lexone) misturado com trifluralina. O uso continuado dessa mistura resultou no desenvolvimento e na multiplicação de leiteirinho (Euphorbia heterophylla). A partir de meados da década de 80 o herbicida imazaquin (Scepter) foi usado, continuamente, nas mesmas áreas, e muitas vezes em subdoses, até a seleção de populações de leiteirinho resistentes, além de selecionar populações de saco-de-padre ou balãozinho (Cardiospermum halicacabum), espécie com grande capacidade de propagação via sementes. Assim, o uso continuado de herbicidas na mesma área permitirá o desenvolvimento de espécies novas e a seleção de populações resistentes aos produtos usados na lavoura, mostrando a importância da adoção de estratégias de manejo, objetivando prevenir a ocorrência de plantas daninhas de difícil controle.
Figura 1.Lavoura com plantas daninhas no fim da fase de desnvolvimento de milho.
Figura 2.Lavoura de milhoinfestado com plantas daninhas após a colheita.
2. Seleção natural
Na agricultura, o princípio de desequilíbrio está no cultivo de plantas, muitas vezes exóticas, em áreas extensivas. No Rio Grande do Sul cultivam-se em torno de 3 milhões de hectares de soja, 1,7 milhão de ha de milho e 900 mil ha de arroz determinando o desenvolvimento de populações de pragas e de doenças que se alimentam das plantas disponíveis. As plantas consideradas daninhas que se adaptarem às condições de cultivo de soja, milho ou arroz, desenvolverão rapidamente, competindo com a produção de grãos. Além da rotação de culturas e de herbicidas deve-se considerar que fatores de controle natural (predadores, parasitos e patógenos) limitam a proliferação e a sobrevivência de plantas daninhas. Assim, é importante identificar os fatores de controle biológico mais eficientes e criar condições favoráveis aos agentes de controle natural.
3. Rotação de práticas de controle
Como regra geral pode-se afirmar que é necessário alternar práticas de controle, adotando a rotação de culturas e de herbicidas, para dificultar o processo de seleção de plantas daninhas resistentes às práticas de controle adotadas na lavoura. A seleção de espécies de plantas daninhas de difícil controle e de populações resistentes a herbicidas tende a se repetir com os novos produtos e as novas práticas, se não forem adotadas estratégias de manejo, de dose correta e de rotação de culturas. O princípio básico de controle de plantas daninhas, de pragas e de doenças é a alternância (rotação) de culturas, de práticas (herbicidas, épocas de controle, cobertura vegetal etc.) para evitar (retardar) o aumento da população dos organismos indesejáveis.
4. Meia dose e subdoses
A adoção da prática de doses reduzidas (subdoses) para controle de plantas daninhas apresenta a vantagem de baixar custos. Por outro lado, a estratégia de meia dose (dose letal para 50 % da população) é a metodologia mais indicada para seleção rápida de populações resistentes. Deve-se evitar doses reduzidas e misturas que permitem a sobrevivência de parte da população ou de espécies que toleram a dose aplicada, gerando as chamadas “plantas daninhas de difícil controle”. Elas são, na realidade, a conseqüência da “dose problema”. Como princípio básico deve-se adotar a rotação de produtos, de práticas para dificultar a seleção de populações resistentes e a manutenção de cobertura de solo adequada e permanente. Quando usar herbicidas deve-se aplicar a dose correta e no momento com expectativa da melhor eficácia possível, sempre com base na dose necessária para matar a espécie de mais difícil controle, ocorrente na área a ser tratada.
5. O Sistema de Manejo Pós-colheita
Nas lavouras infestadas com plantas daninhas (Figuras 1 e 2), principalmente aquelas de difícil controle, deve-se planejar estratégias para evitar dificuldades de controle na safra seguinte. Impedir a produção de sementes das plantas daninhas, controlando as que sobreviveram aos herbicidas e às práticas adotadas na lavoura. Essas plantas isoladas são as que toleraram (resistiram) ao herbicida, à dose utilizada ou a outras práticas usadas na lavoura (Figuras 1 e 2). As plantas produzirão sementes e se desenvolverão durante o inverno, armazenando reservas e agravando os problemas na safra seguinte. Para algumas dessas plantas daninhas não se consegue controle efetivo, apenas com a dessecação de primavera, sendo fundamental o manejo pós-colheita, no outono, fase de produção de sementes. O manejo pós-colheita é alternativa eficaz de controle de plantas daninhas em áreas com capim-amargoso (Digitaria insularis), capim-de-Rhodes ou coqueirinho (Chloris gayana e Chloris distichophylla), trapoeraba (Comellina sp.), poaia-branca (Richardia brasiliensis) e de outras denominadas “plantas daninhas problema”. O pior cenário para o agricultor é deixar a área em pousio, à mercê da erosão e da multiplicação de plantas daninhas. A colheita do milho ou da soja permitirá à planta daninha o aproveitamento integral da luminosidade e da fertilidade do solo (Figuras 1 e 2). As plantas crescerão com vigor e produzirão grande quantidade de sementes e, no caso dos capins, ocorrerá a formação de touceiras perenizadas. A dessecação com herbicidas de amplo espectro de ação causará a morte de plantas e impedirá a produção de sementes, reduzindo, ao longo do tempo, o banco de sementes no solo. A semeadura de plantas de cobertura com crescimento rápido, como o nabo forrageiro, é desejável para suprimir plantas daninhas e para estimular a atividade biológica na superfície do solo, princípio básico na prática do plantio direto. Deve-se planejar a rotação de culturas para a safra de verão seguinte com o uso de práticas culturais e herbicidas que possam cortar o ciclo natural da seleção de populações resistentes aos métodos convencionais. A alternativa de roçar ou de picar a palha, cortando as plantas daninhas, pode reduzir o potencial de produção de sementes, mas traz como problema a falta de folhas para adequada absorção de herbicidas em dessecações posteriores e induz à formação de touceiras e o rebrote, permitindo a produção de sementes, resultando em problema crônico. O manejo de plantas daninhas após a colheita apresenta as seguintes vantagens: redução ou eliminação da produção de sementes; manejo efetivo de plantas de difícil controle; evita a formação de touceiras perenizadas; melhora a eficiência da semeadura, pela ausência de touceiras de plantas; aumenta a eficiência na dessecação de primavera; elimina o risco de controle deficiente, causado pelo “efeito guarda-chuva” de plantas perenizadas; reduz a ocorrência de pragas e de doenças, pela eliminação de hospedeiros intermediários (plantas daninhas e plantas tigüeras ou guachas), “pontes-verdes” entre duas safras; possibilidade de redução nas doses de herbicidas nas dessecações subseqüentes.
6. Como fazer o manejo pós-colheita
Sugere-se aguardar duas a três semanas após a colheita, permitindo a germinação da sementeira superficial e das plantas tigüeras (aquelas voluntárias resultantes da perda de sementes na colheita), o crescimento das plantas daninhas e a brotação ou recuperação daquelas cortadas na colheita. Essa recuperação da área foliar das plantas é fundamental pela necessidade de equilíbrio na relação entre raízes e área foliar para absorção e eficácia de herbicidas dessecantes. Outra alternativa é a colheita com equipamento com espalhador de palha, sem picador, para distribuir uniformemente os restos culturais, permitindo rápido reposicionamento das folhas das plantas daninhas. Um ou dois dias após a colheita fazer a dessecação e semear alguma cultura de crescimento rápido como o nabo-forrageiro ou o milheto.
7. Comentários finais
Para adotar estratégias adequadas de controle de plantas daninhas é necessário conhecer a biologia das plantas e seus fatores de controle natural, adotando estratégias de rotação de culturas e práticas culturais que dificultam a sobrevivência das espécies indesejáveis. As lavouras de agricultores que adotam estratégias de manejo de plantas daninhas encontram-se limpas e sem problemas de plantas de difícil controle ou resistentes a herbicidas. As práticas de manejo de plantas daninhas devem ser direcionadas para evitar a seleção de populações resistentes aos herbicidas usados na lavoura; evitar o aumento de populações de espécies de difícil controle e evitar o desenvolvimento de novas espécies que toleram as práticas adotadas na lavoura. A eliminação de plantas daninhas e de plantas tigüeras ou voluntárias (plantas cultivadas que nascem após a colheita) hospedeiras de pragas (percevejos, brocas, lagartas, cochonilhas e pulgões) e de doenças, diminuirá a possibilidade de infestação de lavouras, eliminando a chamada “ponte verde” que serve de abrigo e de alimento às pragas e patógenos, entre duas safras. Sugere-se utilizar estratégias de manejo com herbicidas eficazes e na dose correta para um controle efetivo, com menor impacto negativo sobre os recursos naturais, aliadas ao aumento da produção de biomassa para estimular os agentes de controle natural.