Cenário futuro da soja indica a manutenção das cotações em baixa
Eng.-Agr. Flávio Renato Gassen
E-mail: flavio@agri.com.br
Os produtores sul-americanos de grãos iniciam sua safra de verão enfrentando um cenário pouco animador no mercado internacional de commodities agrícolas para o ano de 2001. A expectativa de safra recorde de milho e soja combinada com estoques mundiais ainda elevados destes grãos mantém a resistência à elevação das cotações destes no mercado internacional. Além destes fatores inerentes à atividade agrícola, a forte pressão dos subsídios norte-americanos aos seus produtores de soja impõe severa penalização nos demais países produtores que não possuem reservas e dependem das exportações do grão para manterem sua balança de pagamentos positiva. A projeção de aumento na área de soja de 1%, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e que pode atingir 4% de acordo com algumas empresas privadas de análise de mercados, poderá provocar a queda das cotações da soja para US$ 4,25 /bushel no mercado interno dos EUA, representando os menores valores históricos pagos ao grão. Conforme gráfico abaixo, observamos que a relação entre as projeções do estoque final e da produção mundial da soja e do milho estão em pleno declínio, mas ainda acima dos patamares adequados e que correspondem à elevação das cotações. Em qualquer relação de oferta/demanda teríamos natural equilíbrio no mercado, no entanto, o governo norte-americano garante o preço mínimo de US$ 5,26 /bushel na soja e, assim, estimula o aumento da área da cultura para a próxima safra. No ano passado, segundo o professor Marcos Jank da Esalq/USP, o governo americano proveu ajuda de 2,7 bilhões de dólares à soja e para 2001 as previsões apontam para 3,3 bilhões de dólares. A título de comparação, em 2000 as exportações brasileiras de soja atingiram 4 bilhões de dólares e somente a ajuda aos sojicultores norte-americanos temos o equivalente a dois terços deste montante. Nada mais correto do que minimizar o valor das commodities agrícolas num período de paz mundial, pois não há necessidade de realizarmos reservas de alimentos. No entanto, os recentes atritos relativos aos acordos internacionais de comercialização estão indicando que necessitamos de urgente modificação nos mecanismos de estímulo à produção agrícola em todos os países que beneficiam-se do comércio internacional. Os recursos dos EUA para sustentar esta política agrícola predatória originam-se dos significativos superávits fiscais que são gerados pela exportação de produtos de alto valor agregado, cujos importadores somos nós. Segundo o relatório da produção/demanda mundial de grãos de fevereiro/01, a projeção de preços pagos ao produtor norte-americano para a safra 2000/01 deverá atingir US$ 4,65 /bushel (US$ 10,25 /60kg), representando queda de 2,1% em relação às projeções realizadas em janeiro. Observamos no gráfico abaixo que os preços pagos pelo mercado num período de estoques em baixa (95/96 e 96/97) foram significativamente superiores, demonstrando a necessidade de voltarmos ao patamar da relação estoque/produção ao redor de 15% (soja). Devemos estar cientes que modelos de projeção de eventos futuros são essenciais para o planejamento de nossas atividades econômicas, no entanto, estes apresentam relativa margem de erro, pois dependem de fatores com dinâmica de baixa previsibilidade como o clima e atitudes políticas na agricultura. Portanto, o cenário proposto para a safra 2000/2001 poderá não concretizar-se e termos melhor remuneração pelos nossos produtos, mas devemos exercitar rotineiramente este jogo internacional de mercado para nos posicionarmos estrategicamente nos negócios futuros do mercado internacional e definirmos nossas prioridades.
SOJA
O mercado da soja, aparentemente, está no patamar mais baixo para o período e não apresenta indicações de continuidade do declive de 10,8% observado nos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago no período de 19/dez/00 a 05/mar/01, pois a expectativa de aumento na produção da próxima safra norte-americana e safra atual sul-americana já foi assimilada pelo mercado e qualquer indício de redução nas projeções de oferta e aumento nas de demanda serão fatores de alta.
MILHO
O mercado futuro do milho na Bolsa de Mercadorias & Futuros de SP acumula baixa de 9,09% nos últimos 30 dias e 39,85% em 12 meses, salientando-se a necessidade de realizarmos com maior seriedade nossas projeções de produção/demanda. Apesar da pressão de baixa gerada pelo ”efeito colheita”, nota-se que as operações da BM&F apresentam tendência de estabilização já na primeira semana de março, corroborada pelo indicador FGV/BM&F do mercado disponível do interior de SP.