Redução da dose de herbicidas utilizada na cultura do milho através da adoção de menor espaçamento entre linhas
Gilber Argenta1; Paulo Regis Ferreira da Silva2; Clayton Giani Bortolini3; Aldo Merotto Junior4; Everton Leonardo Forsthofer5; Mércio L. Strieder5 1Eng. Agr., M.Sc., Estudante de Doutorado do Curso de Pós-Graduação em Fitotecnia, Faculdade de Agronomia da UFRGS. Bolsista do CNPq. Av. Bento Gonçalves, 7712. Caixa Postal 776. CEP 91540-000, Porto Alegre/RS. E-mail: plantas@vortex.ufrgs.br2Eng. Agr., Ph.D., Professor Adjunto do Departamento de Plantas de Lavoura da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Pesquisador do CNPq.3Eng. Agr., Estudante de Mestrado do Curso de Pós-Graduação em Fitotecnia, Faculdade de Agronomia da UFRGS. Bolsista da CAPES.4Eng. Agr., M.Sc., Professor do Departamento de Plantas de Lavoura da Faculdade de Agronomia da UFRGS.5Acadêmicos do Curso de Graduação em Agronomia da UFRGS. Bolsistas de Iniciação Científica do CNPq.
Introdução
O decréscimo no espaçamento entre linhas ou o aumento na população de plantas pode aumentar a competitividade da cultura do milho com as plantas daninhas. O arranjo mais eqüidistante das plantas de milho com redução no espaçamento entre linhas diminui o potencial de crescimento das plantas daninhas por aumentar a quantidade de luz que é interceptada pelo dossel da cultura (Teasdale, 1998). Alguns trabalhos têm evidenciado a possibilidade do use de menor quantidade de herbicida devido ao aumento da competitividade da cultura com as plantas daninhas que se verifica com a redução no espaçamento entre linhas (Teasdale, 1995, Forcella et al., 1992). Esta possibilidade torna-se importante no controle da contaminação ambiental uma vez que resíduos de muitos herbicidas utilizados na cultura do milho foram detectados no solo, em águas superficiais e em lençóis freáticos (Teasdale , 1995). Outra vantagem relaciona-se ao aumento da sustentabilidade do sistema, devido à diminuição nos custos de produção. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da redução do espaçamento entre linhas sobre a dose de herbicida necessária para controle de plantas daninhas em milho.
Material e métodos
O experimento foi conduzido a campo na Estação Experimental Agronômica (EEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, localizada no município de Eldorado do Sul, região fisiográfica da Depressão Central, do estado do Rio Grande do Sul, na estação de crescimento 1999/2000. Os tratamentos constaram de dois espaçamentos entre linhas (40 e 80 cm) e de sete sistemas de controle de plantas daninhas (1 - sem controle; 2 – 1,3 l de nicosulfuron (52 g i.a./ha) (Sanson); 3 - 0,65 l de nicosulfuron (26 g i.a./ha) (Sanson); 4 – 6,0 l de atrazine (1200 g i.a./ha) + metolachlor (1800 g i.a./ha) (Primestra); 5 – 3,0 l de atrazine (600 g i.a./ha) + metolachlor (600 g i.a./ha) (Primestra); 6 – 6,0 l de atrazine (1200 g i.a./ha) + metolachlor (1800 g i.a./ha) (Primestra) + 0,65 l de nicosulfuron (26 g i.a./ha) (Sanson); e 7 – 3,0 l de atrazine (600 g i.a./ha) + metolachlor (900 g i.a./ha) (Primestra) + 0,65 l de nicosulfuron (26 g i.a./ha) (Sanson)).A cultivar reagente foi a Cargill 929, híbrido simples e de ciclo precoce. O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados, com quatro repetições, dispostos em parcelas subdivididas. Os espaçamentos entre linhas foram locados nas parcelas principais e os sistemas de controle de plantas daninhas nas subparcelas. O milho foi implantado em sistema de semeadura direta, em sucessão ao consórcio de aveia preta e ervilhaca comum, sendo semeado sete dias após a dessecação das coberturas de solo de inverno. A adubação foi realizada na linha, por ocasião da semeadura, utilizando-se 30 kg/ha de N, 120 kg/ha de P2O5 e 120 kg/ha de K2O. A adubação nitrogenada em cobertura foi parcelada em três doses iguais de 50 kg/ha, aplicadas, respectivamente, nos estádios de 3-4 folhas, de 6-7 folhas e de 10-11 folhas completamente desenvolvidas. A semeadura do milho foi realizada manualmente (saraquá), objetivando-se a densidade de 75.000 plantas/ha. O herbicida de pré-emergência correspondente aos tratamentos 6 e 7 foi aplicado 1 dia após a semeadura do milho. A aplicação dos herbicidas nos demais tratamentos, bem como do herbicida de pós-emergência nos tratamentos 6 e 7, ocorreram aos 27 dias após a emergência (DAE) do milho. As determinações realizadas constaram de: rendimento de grãos e grau de infestação de plantas daninhas. O rendimento de grãos foi estimado através da extrapolação da produção colhida na área útil das subparcelas para um hectare, corrigindo-se a umidade para 13%. A infestação de plantas daninhas foi avaliada nos estádios de 4-5 folhas e de 12-13 folhas completamente desenvolvidos e no pendoamento do milho, correspondendo, respectivamente aos 27, 57 e 75 DAE. No estádio de 4-5 folhas, a infestação de plantas daninhas foi obtida através da contagem do número de plantas daninhas presentes em duas áreas de 0,25 m2 do centro da subparcela. Neste estádio, devido aos tratamentos 1 a 5 ainda serem iguais, considerou-se como tratamentos sem controle. Nos outros dois estádios a infestação foi estimada pela coleta das plantas daninhas presentes em duas áreas de 0,25 m2 do centro da subparcela, obtendo-se a massa seca da parte aérea. Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância. As médias dos valores foram comparadas pelo teste de Duncan, ao nível de 5% de probabilidade. Os dados de infestação de plantas daninhas sofreram transformação segundo raiz quadrada de x +1.
Figura 1. Efeito do espaçamento entre linhas de milho e de sete sistemas de controle sobre a infestação de plantas daninhas aos 27 dias (A), 57 dias (B) e aos 75 dias (C) após a emergência do milho, correspondendo, respectivamente, aos estádios de 4-5 folhas e 10-11 folhas expandidas e pendoamento do milho. EEA/UFRGS, Eldorado do Sul, RS, 1999/2000
1Considerou-se como testemunha o tratamento com espaçamento de 80 cm entre linhas de milho e sem controle de plantas daninhas. A população de plantas daninhas correspondeu a 53 plantas/m2, 12,5 g de massa seca/m2 e a 100,5 g de massa seca/m2, respectivamente, aos 27 dias, 57 dias e 75 dias após a emergência do milho. O herbicida de pré-emergência nos tratamentos 6 e 7 foi aplicado 1 dia após a semeadura do milho. A aplicação dos herbicidas nos demais tratamentos, bem como do herbicida de pós-emergência dos tratamentos 6 e 7, foram aplicados aos 27 dias após a emergência do milho. 2Barras com mesma letra minúscula (comparação de espaçamentos entre linhas no mesmo nível de sistemas de controle de plantas daninhas) e mesma letra maiúscula (comparação de sistemas de controle de plantas daninhas no mesmo nível de espaçamento entre linhas) não diferem significativamente entre si pelo teste de Duncan, ao nível de 5% de probabilidade. 3pós-emer.= herbicida de pós-emergência (nicosulfuron); pré-emer.= herbicida de pré-emergência (atrazine + metolachlor).
Figura 2. Efeito do espaçamento entre linhas e de diferentes sistemas de controle de plantas daninhas sobre rendimento de grãos de milho, EEA/UFRGS, Eldorado do Sul, RS, 1999/2000
NSNão significativo, a 5% de probabilidade.1pós-emer.= herbicida de pós-emergência (nicosulfuron); pré-emer.= herbicida de pré-emergência (atrazine + metolachlor).
Resultados e discussão
Na primeira época de avaliação da infestação de plantas daninhas (27 DAE), houve efeito significativo apenas dos fatores isolados. A redução no espaçamento entre linhas de 80 para 40 cm diminuiu a infestação de plantas daninhas, independentemente de sistemas de controle de plantas daninhas (Figura 1A). Os sistemas com aplicação de herbicida em pré-emergência proporcionaram maior redução na infestação de plantas daninhas em relação ao sistema sem controle, independentemente do espaçamento entre linhas. Nas avaliações realizadas aos 57 e 75 DAE, houve efeito significativo da interação entre espaçamento entre linha e sistema de controle de plantas daninhas. Na avaliação realizada aos 57 DAE, constatou-se que nos sistemas sem controle e com aplicação de herbicida em pós-emergência a infestação de plantas daninhas foi menor no espaçamento entre linhas de 40 cm em relação ao de 80 cm (Figura 1B). Nos demais sistemas de controle de plantas daninhas não houve efeito de espaçamento entre linhas. Ao se analisar o efeito de tratamentos no espaçamento entre linhas de 40 cm, verifica-se que os sistemas que melhor controlaram as plantas daninhas foram os com aplicação de herbicida em pós-emergência e o sequencial com herbicida em pré-emergência (6 l/ha) e em pós-emergência (0,65 l/ha). Já, no espaçamento entre linhas de 80 cm, os sistemas que proporcionaram melhor controle de plantas daninhas foram os com aplicação sequencial de herbicida em pré-emergência e em pós-emergência, não se diferindo do tratamento com aplicação de somente herbicida em pré-emergência na dose cheia (6 l/ha). Na avaliação realizada aos 75 DAE, o controle de plantas daninhas foi superior no espaçamento entre linhas de 40 cm em relação ao de 80 cm, independentemente do sistema de controle de plantas daninhas (Figura 1C). Nos dois espaçamentos, os tratamentos com melhor controle de plantas daninhas foram os com aplicação sequencial de herbicida em pré-emergência e em pós-emergência, não se diferindo do com aplicação de somente herbicida em pós-emergência na dose cheia (1,3 l/ha). Ao se analisar os resultados obtidos nas três épocas de avaliação constata-se que a redução no espaçamento entre linhas de 80 para 40 cm foi benéfica pois reduziu a infestação de plantas daninhas. Os sistemas de controle de plantas daninhas com aplicação sequencial de herbicida em pré-emergência (dose cheia ou meia dose) e em pós-emergência (meia dose) deram o melhor controle. Este resultado evidencia a possibilidade de redução da dose do herbicida em pré-emergência sem afetar a eficiência no controle de plantas daninhas. A eficiência no controle de plantas daninhas do herbicida em pós-emergência foi maior no menor espaçamento (40 cm) em relação a do herbicida em pré-emergência. O rendimento de grãos de milho não foi afetado pelo espaçamento entre linhas e pelo sistema de controle de plantas daninhas (Figura 2). Esta resposta pode ser atribuída à baixa infestação de plantas daninhas (53 plantas/m2) e, principalmente, ao fato da espécie predominante Eleusine indica (L.) Gaertn (capim-pé-de-galinha) ser pouco competitiva com a planta de milho. Portanto, em situação com elevada infestação de plantas daninhas e com espécies mais competitivas, por exemplo Brachiaria plantaginea (LinK) Hitchc. (papuã), espera-se redução no rendimento de grãos de milho.
Conclusões
A redução no espaçamento entre linhas de 80 para 40 cm constitui em prática benéfica para reduzir a infestação de plantas daninhas na cultura do milho. Nas condições deste experimento, a adoção de menor espaçamento entre linhas torna viável a redução na dose dos herbicidas em pré-emergência e em pós-emergência utilizados na cultura do milho.
Referências bibliográficas
FORCELLA, F. , WESTGATE, M.E.; WARNES, D.D. Effect of row width on herbicide and cultivation requirements in row crops. American Journal of Alternative Agriculture, v.7, p.161-167, 1992.
TEASDALE, J.R. Influence of corn (Zea mays) population and row spacing on corn and velvetleaf (Abutilon theophrasti) yield. Weed Science, Champaign, v.46, n.4, p.447-453. 1998.
TEASDALE, J.R. Influence of narrow row/high population corn on weed control and light transmittance. Weed Technology, Lawrence, v.9, n.1, p.113-118. 1995.