Uma Velha Doença que Ressurge (Cercospora zeae-maydis no Milho)


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Publicado em: 01/08/2000

Uma velha doença que ressurge

”Nunca vi uma epidemia assim na minha vida profissional”, afirmou o pesquisador Erlei Melo Reis, professor do curso de mestrado em fitopatologia da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, numa entrevista à Revista Plantio Direto. Ele estava se referindo ao severo ataque de cercóspora na cultura do milho safrinha, que aconteceu neste ano, principalmente no Sudoeste de Goiás, envolvendo municípios produtores como Rio Verde, Mineiros, Jataí e Montevidiu. ”Quando percorremos a região, no mês de maio, relatou ele, visualizamos 50 mil ha em que havia um dano calculado de 70% sobre a expectativa de produção. O milho estava morto na lavoura.” Aqui, algumas das informações prestadas pelo professor. Erlei Melo Reis, sobre o ataque de Cercóspora e os trabalhos que está realizando com sua equipe da UPF, que tem se destacado como um pólo importante na pesquisa de doenças da cultura do milho no Brasil.

Revista Plantio Direto - Qual o histórico dessa doença? Erlei Melo Reis - Nos Estados Unidos, ela foi descoberta em 1924, no estado de Illinois. Poucos ouviram falar de incidência de cercosporiose em milho no Brasil e eu fiquei surpreso quando ví um trabalho do Dr. Viegas, de Campinas, de 1934, que abordava a questão. Há cerca de 4 anos atrás, recebemos informações de que a doença estaria aparecendo na região de Uberlândia. Nos Estados Unidos, a cercóspora permaneceu como doença secundária durante mais de 50 anos, tendo ressurgido no final da década de 70, início dos anos 80.

RPD - O que aconteceu para que a doença aparecesse em caracter epidêmico? Erlei Melo Reis - A região dos Estados Unidos onde ela ressurgiu com intensidade elevada, planta o cereal há 200 anos. O que pode ter mudado nessa região para que a doença se manifestasse? É interessante notar que aqui começa uma relação com o plantio direto, e imediatamente eu pergunto: vamos condenar o plantio direto por isso? Naturalmente que não. No Brasil, a epidemia surgiu no ano 2000 e também perguntamos: o que mudou em Goiás, onde a doença atacou? Há cerca de 8 anos, o plantio direto teve avanços significativos naquela região e existe um paralelo entre a nossa situação e o que aconteceu nos Estados Unidos. Na safrinha, que foi plantada em Goiás, no início do ano, nos meses de fevereiro e março, choveu o dobro em relação aos anos anteriores e, para aqueles que não sabem, os agricultores de lá fazem monocultura de soja no verão, plantada em outubro, colhem a soja precoce e plantam o milho, em semeadura direta. O milho, cultivado no outono/inverno, também é uma monocultura. Com o dobro da precipitação normal ocorrida, em fevereiro e março, estavam somadas todas as condições para que a doença aparecesse de forma tão devastadora.

RPD - Como que a doença chegou à região e ao Brasil? Erlei Melo Reis - A literatura cita que o único hospedeiro é o milho. Como teria vindo para o Brasil? Aparentemente, seria um caso de geração expontânea, porque em nenhuma das citações alguém admitiu a possibilidade de ter vindo através da semente. Para mim, trata-se de uma questão de metodologia para provar que o fungo veio através da semente e está se disseminando pela semente, à semelhança de outras cercósporas. Nossa tarefa na Universidade será a de mostrar esse mecanismo, como funcionam as fontes de inóculo, onde o fungo permanece quando não tem milho na lavoura, por quanto tempo ele sobrevive no período de entressafra, etc. Na verdade, são fungos de crescimento lento e pouco competidores. É possível fazer um paralelo com a mancha salpicada da folha do trigo, que demorou muitos anos para alguém provar que a transmissão era via semente. O principal hospedeiro da doença é o trigo mas, se você fica 5 anos sem plantar e volta com trigo, a septoriose pode aparecer.

RPD - Quais as recomendações para evitar o ataque da doença? Erlei Melo Reis -A monocultura de milho é o grande problema. Nas amostras de restos culturais que trouxemos do Brasil Central foram contados 654 mil esporos/grama de tecido foliar. Então, se tem monocultura e o patógeno está presente na resteva, para explodir a epidemia, basta uma condição climática favorável, e foi o que aconteceu. Naquela região, com oito anos de monocultura de milho e soja, eu diria que os produtores estão sobre um barril de pólvora. Em soja, podemos perguntar qual será a próxima epidemia. Nós temos que tentar uma resistência genética e para isso temos boas informações, a variabilidade do fungo não é grande, não existem citações de raças, embora ele varie em agressividade. Temos que produzir sementes sadias e uma das recomendações é não produzir sementes de milho híbrido naquela região.