IAPAR e Itaipu Binacional Promovem o Desenvolvimento Tecnológico do Plantio Direto


Autores:
Publicado em: 01/08/2000

Iapar e Itaipu Binacional promovem o desenvolvimento tecnológico do plantio direto

Osmar MuzilliPesquisador em Solos - IAPAR,Londrina, ParanáE-mail: omuzilli@pr.gov.br

Antecedentes

Em 1997, a Itaipu Binacional contratou os serviços do Iapar – Instituto Agronômico do Paraná – para realizar um diagnóstico do estado-da-arte e identificar entraves que comprometiam a sustentabilidade do sistema de plantio direto na região lindeira ao lago de Itaipu, Estado do Paraná. Constatou-se, na ocasião, a predominância de sistemas de produção pautados no uso da mão-de-obra familiar, com escassez de recursos financeiros para a aquisição de máquinas para semeadura e colheita. Tal fato levava grande parte dos produtores a recorrerem ao uso de maquinário alugado, nem sempre adequado às condições edafoclimáticas e socioeconômicas prevalecentes. Também havia baixo grau de diversificação e pouco uso de plantas de cobertura para proteção do solo nos sistemas de produção agrícola, fundamentados principalmente na sucessão soja-milho safrinha. Daí haver pouca formação de palhada para cobertura do solo, limitando a ciclagem de nutrientes em detrimento do equilíbrio da fertilidade do solo e facilitando a incidência de plantas invasoras. A predominância de solos muito argilosos e a realização de operações mecanizadas (semeaduras, pulverizações, colheitas) com terreno úmido, favoreciam a compactação superficial e a decomposição acelerada da matéria orgânica e a degradação das propriedades edáficas (Araújo et al, 1997; Casão et al, 1997). As informações coletadas permitiram detectar que, apesar de já ser adotado em cerca de 85% das propriedades rurais, o sistema de plantio direto carecia de ações locais de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para a melhoria da sua qualidade tecnológica e conseqüente sustentabilidade na região. Tal constatação levou a Itaipu Binacional a solicitar novos serviços do Iapar, em Janeiro de 1999, para a execução de um projeto de desenvolvimento tecnológico do sistema de plantio direto para as áreas lindeiras ao reservatório de Itaipu. As principais razões para a implementação de tal Projeto, se fundamentavam nas necessidades de:

Melhoria da qualidade ambiental, mediante um controle mais efetivo da erosão do solo, para a redução dos riscos de assoreamento e poluição das águas dos tributários que alimentam o reservatório de Itaipu.

Melhoria da sustentabilidade dos sistemas de produção e da qualidade de vida da população, pela redução dos gastos com insumos químicos para diminuir a contaminação ambiental pelo uso de agrotóxicos, redução do uso e desgaste de maquinários agrícolas, economia de tempo e redução da penosidade do trabalho em operações de campo, minimização dos riscos por estiagens, melhoria da rentabilidade dos sistemas de produção, redução dos riscos para a saúde da população rural e melhoria da qualidade dos produtos agrícolas para os consumidores.

Estratégia de ação

A estratégia de ação do Projeto está pautada no enfoque de pesquisa participativa, onde os produtores rurais atuam como protagonistas principais. Além dos pesquisadores do Iapar, os técnicos articuladores da Itaipu, os agentes locais de ATER e os representantes de entidades públicas (prefeitura municipais) e privadas (cooperativas, empresas de insumos e maquinários), atuam como coadjuvantes e apoiadores do processo junto aos produtores rurais. A necessidade de ações pautadas na visão holística dos sistemas de produção, em decorrência da própria natureza dos desafios tecnológicos a serem superados, exigiu do Iapar a alocação de uma equipe multidisciplinar, integrada por pesquisadores especializados em diferentes áreas de conhecimento das ciências agrárias, atuando principalmente em manejo do solo, mecanização agrícola, rotação de culturas, integração lavoura-pecuária e difusão de tecnologia. Especialistas de outras áreas do conhecimento técnico-científico também podem ser alocados ao Projeto, a medida que os problemas tecnológicos demandem a sua presença. Essa equipe multidisciplinar conta com o apoio e a contrapartida de um elenco de técnicos locais da Itaipu Binacional, encarregados de estabelecer os contatos e a articulação com os agentes assistência técnica e extensão rural (ATER), a comunidade rural e as lideranças políticas locais, cuja participação se faz necessária para o adequado andamento das ações de P&D. A estratégia metodológica envolve atividades de: a) validação de inovações tecnológicas em propriedades de referência, para o ajuste e comprovação de modelos preditivos de sistemas de produção através do plantio direto; b) capacitação de produtores rurais e profissionais locais de ATER, para atuarem como agentes multiplicadores do desenvolvimento tecnológico do plantio direto; c) difusão do plantio direto em sistemas diversificados de produção adequados às condições agroecológicas e socioeconômicas predominantes na região lindeira ao reservatório de Itaipu. No Estado do Paraná, a região lindeira ao lago de Itaipu abrange cerca de 6.732 km2 e é integrada por 15 municípios: Foz do Iguaçu, Santa Terezinha, São Miguel do Iguaçu, Medianeira, Itaipulandia, Missal, Santa Helena, Diamante do Oeste, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado, São José das Palmeiras, Marechal Cândido Rondon, Guaíra e Terra Roxa (Figura 1). Os sistemas de produção representativos do público-alvo do Projeto concentram-se predominantemente em 8 desses municípios, os quais foram agrupados em 3 sub-regiões, para facilitar o gerenciamento dos trabalhos:

Sub-região I, integrada pelos municípios de Medianeira, Missal e Itaipulandia.

Sub-região II, integrada pelos municípios de Santa Helena, Entre Rios do Oeste e Pato Bragado.

Sub-região III, integrada pelos municípios de Marechal Cândido Rondon e Mercedes.

Atividades Realizadas

Etapas preparatórias No primeiro semestre de 1999, após a estruturação da equipe multidisciplinar encarregada de planejar e conduzir o Projeto, foi cumprida uma seqüência de etapas preparatórias, destinadas a internalizar e motivar a participação de parceiros no trabalho programado, envolvendo: a) Contatos iniciais com representantes das Prefeituras Municipais, Cooperativas, empresas revendedoras de insumos e maquinário e agentes locais de ATER, nos municípios de abrangência do Projeto, com as finalidades de apresentar a proposta e motivar o estabelecimento de parcerias mediante uma agenda de trabalho intersetorial. b) Capacitação metodológica em pesquisa participativa, visando internalizar os procedimentos metodológicos previstos de serem empregados na fase executiva do Projeto. c) Reuniões e debates regionais, para nivelar conhecimentos e promover o intercâmbio de experiências entre os pesquisadores, os agentes de ATER e os produtores rurais, acerca de aspectos técnicos e práticos do plantio direto nas diferentes sub-regiões de atuação do Projeto, além de compartilhar-se pontos de vista e experiência para orientar a formulação dos modelos físicos de validação em propriedades de referência e definir ações de capacitação e difusão necessárias para a região. d) Participação de pesquisadores do Iapar em encontros regionais de plantio direto, promovidos por entidades locais. e) Realização de treinamentos e estudos de motivação, visando preparar os agentes locais de ATER para atuarem como coadjuvantes e animadores nas atividades de desenvolvimento tecnológico e difusão do plantio direto nos municípios lindeiros. f) Apresentação do Projeto – seus objetivos, estratégia de trabalho, razões para a implementação – à Diretoria de Coordenações da Itaipu Binacional e ao Conselho de Desenvolvimento dos Municípios Lindeiros do Lago de Itaipu.

Priorização de entraves tecnológicos

O intercâmbio de experiências e de conhecimentos permitiu atualizar o diagnóstico realizado em 1997 e priorizar um elenco de demandas caracterizadas como entraves tecnológicos para o desenvolvimento do sistema de plantio direto na região, segundo a percepção dos protagonistas e coadjuvantes do processo (Tabela 1). O elenco de prioridades identificadas orientou a formulação de modelos físicos de sistemas de produção, destinados à introdução, ajuste e comprovação de inovações tecnológicas, assim como as necessidades de capacitação e difusão para promover-se a mudança dos processos tecnológicos tradicionalmente praticados pelos produtores que adotam o plantio direto na região.

Seleção e caracterização das Propriedades de Referência

Dando-se por concluída a fase preparatória do Projeto, a partir de Julho de 1999, foi iniciada a fase executiva, pela seleção de treze Propriedades de Referência previamente escolhidas pelos respectivos agentes locais de ATER (Tabela 2). Essas Propriedades de Referencia passaram a constituir unidades produtivas representativas do ambiente agroecológico e socioeconômico onde o sistema de plantio direto vem sendo praticado, cujos proprietários se dispuseram a participar de forma efetiva na condução e avaliação das Unidades de Teste e Validação (UTVs) planejadas como modelos físicos preditivos para cada situação. Dentro de cada Propriedade de Referência, foram selecionadas glebas com tamanho aproximado de 1 a 2 ha, destinadas ao estabelecimento e condução das UTVs. Cada gleba foi diagnosticada acerca do seu histórico de uso e manejo nos últimos 5 anos, itinerário técnico dos sistemas de produção praticados, procedimentos de implantação e condução do sistema de plantio direto, principais problemas detectados pelos produtores, etc., além de proceder-se ao diagnóstico do perfil cultural do solo e a caracterização de sua fertilidade. Após a caracterização detalhada dos sistemas de produção predominantes em cada Propriedade de Referência, foram formulados modelos físicos de UTVs, submetidos à discussão e aceitação pelos respectivos produtores de referência, em conjunto com os agentes locais de ATER e os articuladores de campo da Itaipu Binacional. No processo de planejamento dos modelos físicos, buscou-se orientar a tomada de decisões para componentes tecnológicos factíveis de serem incorporados aos sistemas de produção existentes, em consonância com as demandas priorizadas e levando-se em conta a lógica dos produtores cooperantes no processo de gestão, os meios de trabalho e os recursos disponíveis nas propriedades. Os modelos físicos em fase de teste e validação foram formulados em caráter individual, isto é, levando-se em conta as circunstancias de cada propriedade, mas tendo-se o cuidado de assegurar o prevalecimento de premissas básicas para a melhoria tecnológica do sistema de plantio direto na região, tais como: l A diversificação dos sistemas de rotação de culturas. l A inclusão de espécies para formação de palhada sobre o solo. l Emprego de semeadoras apropriadas para a semeadura de grãos miúdos ou graúdos. l A racionalização do uso de insumos químicos (adubos, herbicidas, etc.), visando reduzir os custos de produção e os riscos de contaminação ambiental. Para cada Propriedade de Referência foi estabelecido um plano de trabalho, cujos diagramas seqüenciais de rotação de culturas produção estão programados para três safras consecutivas, a exemplo do modelo mostrado na Figura 2. A execução desses planos foi iniciada em Agosto de 1999, pela implantação de espécies para cobertura do solo na entresafra do milho safrinha com as culturas de verão, seguindo-se a semeadura de milho e soja no período compreendido entre final de Setembro a início de Novembro, de acordo com o calendário agrícola na região. Durante cada safra agrícola, vem sendo procedido o monitoramento das UTVs, através do registro sistematizado de parâmetros relacionados ao clima e solo, itinerário técnico dos sistemas de produção, práticas de mecanização agrícola, ocorrência e controle de ervas daninhas, pragas e doenças, além do registro da produtividade física das culturas comerciais e a estimativa de parâmetros financeiros (custos variáveis e renda bruta). O registro desses parâmetros é procedido de forma compreensiva tanto para os pesquisadores como para os produtores e agentes locais de ATER; daí a preocupação em manter-se o necessário equilíbrio entre o rigor científico e o senso prático na coleta e registro das informações. Em cada Propriedade de Referência vem sendo acompanhada também uma parcela típica do sistema de produção praticado pelo produtor, independente das culturas nela instalada, considerando-se os mesmos parâmetros já mencionados.

Tabela 1. Síntese da prospecção de demandas e entraves tecnológicos para o desenvolvimento tecnológico do sistema de plantio direto na região lindeira ao reservatório de Itaipu, Estado do Paraná (junho de 1999).

Demandas e entraves tecnológicos identificados

Priorização sub-regional(1)

Priorização conjunta(2)

I

II

III

Falta de rotação de culturas

1

2

3

1

Compactação superficial do solo

4

1

2

Aumento da incidência de pragas e doenças

7

3

9

3

Falta de cobertura vegetal (palhada) sobre o solo

2

1

2

4

Falta de maquinário adequado para semeadura

3

6

---

5

Falta de equipamentos para o manejo da palhada

5

---

6

Falta de opções econômicas para cultivo no inverno

--

5

4

7

Pouco uso da prática de adubação verde

8

7

5

8

Falta de critérios para o manejo da fertilidade do solo

---

9

Dificuldades no controle de plantas invasoras

6

---

6

---

Dificuldades no controle biológico de percevejos

---

7

---

Falta de variedades resistentes a doenças

---

8

---

Falta de estudos climáticos para a região

---

8

---

Colheita com solo úmido

---

Uso excessivo biocidas químicos

---

Excesso de umidade do solo na semeadura

---

Revolvimento excessivo do solo por semeadoras

---

(1) Resultante da percepção dos produtores entrevistados durante levantamento realizado nas 3 sub-regiões de concentração das atividades de validação(2) Resultante da percepção de 19 produtores líderes e de 26 agentes de ATER representantes das três sub-regiões, num diagnóstico rápido participativo realizado em Maio/1999.

Tabela 2. Municípios, nomes dos produtores cujos estabelecimentos rurais foram selecionados como Propriedades de Referência e respectivos agentes locais de ATER.

Municípios

Produtores de referência

Agentes locais de ATER

Sub-região I

Medianeira

Elídio Variani

Agostinho Perin/Prefeitura MunicipalOmilson dos Reis/CotrefalEgídio Gotardo/Emater-PR

Itaipulândia

Amantino L. Donini

Evaldo Mendes/Cotrefal

Missal

Normélio RosaErnesto J. Schneider

Giovani M. Nandi/CotrefalRoseane Paulus/Prefeitura Municipal

Sub-região II

Santa Helena

Amadeus S. BortoliniAldecir J. Terol

Neri A. Noro/Cotrefal

Entre Rios do Oeste

Milton WietholtherFrancisco J. G. FoellmerAurélio Maldaner

Arnélio Roque Anderli/Pref. MunicipalMárcia V. Toledo/Emater-PR

Pato Bragado

Victor ReinkeJosé Balduíno Führ

Jandir L. Lange/Pref. MunicipalFrancisco Winter/Emater-PR

Sub-região III

Mal. Cândido Rondon

Paulo Rohr

Paulo G. Royer/Pref. MunicipalFrancisco D. Borzatto/Emater-PR

Mercedes

Fernando Rauber

Paulo César Pedron/Pref. MunicipalRuben Weiss/CoopagrilMarcos Pompeu/Emater-PR

Resultados preliminares

Comportamento climático no decorrer da safra 1999/2000

Na safra 1999/2000, as atividades de validação tiveram parte de seus objetivos comprometida pela má distribuição das chuvas e estiagens, ocorridas principalmente no período de Julho e Dezembro de 1999, e que estenderam-se com menor intensidade até o mês de Fevereiro de 2000. A precipitação ocorrida no período totalizou apenas 60% do normal registrado na região em anos anteriores. Em função da escassez de chuvas no período posterior á colheita do milho safrinha, houve pouca formação de palhada pelas plantas de cobertura usadas na entresafra (milheto e sorgo forrageiro), facilitando o posterior desenvolvimento de ervas daninhas, cujo controle onerou os custos de produção nas culturas de verão subseqüentes. Essa ”janela” do sistema fortalece ainda mais a necessidade de estabelecer-se plantas de cobertura capazes de provocar modificações no complexo florístico, na reciclagem de nutrientes e na retenção de água pelo solo, proporcionado palhada para o sistema de plantio direto. Embora tenha proporcionado rendimentos inferiores aos historicamente obtidos na região, a semeadura do milho nas UTVs em época posterior à normalmente adotada pelos produtores da região permitiu a obtenção de rendimentos da ordem de 4,0 a 5,0 t/ha. No caso da soja, houve boa recuperação das plantas após as chuvas ocorridas em Janeiro/2000 e os rendimentos superaram as expectativas na maioria das UTVs, perante as condições climáticas prevalecentes na safra.

Perfil cultural e manejo da fertilidade do solo

O conjunto das informações diagnosticadas permitiu inferir as seguintes informações sobre o estado inicial do perfil cultural do solo nas áreas de trabalho: Atributos organo-biológicos: As camadas superiores (com espessura variando de 2 até 15 cm), apresentavam teores altos de matéria orgânica (acima de 3,5%), decrescendo de forma gradativa ao longo do perfil cultural. A cobertura da superfície do solo por resíduos do milho safrinha e do trigo era satisfatória na maioria dos casos. Em todas as situações, a concentração de raízes (remanescentes das culturas de inverno ou do milho safrinha) era abundante na camada superior e diminuia de forma gradativa, tornando-se escassa na camada inferior, quando esta ultrapassava os 30 cm de profundidade. Atributos físicos: Em todas as situações, predominou teores de argila bastante elevados (superiores a 60%), uma característica típica dos solos da região. Apesar de, em algumas situações, ter sido constatada a presença de adensamento ou ligeira compactação nas camadas intermediária ou superior, tais condições não constituiam impedimento à penetração de raízes, embora pudessem dificultar a operação de semeadura Atributos químicos:Todas as situações evidenciaram tendência de maior concentração de nutrientes na camada superior, que diminuia de forma abrupta nas camadas subjacentes. Tal situação caracteriza a predominância de solos de baixa fertilidade natural na região, cuja correção nas lavouras conduzidas em sistema de plantio direto tem ocorrido de forma gradativa e com maior intensidade nas camadas superficiais, pelo uso freqüente e contínuo de calcário e fertilizantes químicos. O uso de calcário e de fertilizantes químicos vem sendo praticado de modo rotineiro e contínuo ao longo do tempo e tal fato evidencia a possibilidade de orientar o manejo da fertilidade do solo de forma mais racional e econômica, como alternativa para reduzir-se os custos de produção no sistema de plantio direto.

Mecanização agrícola

Nas condições prevalecentes, o curto período útil para a mecanização das lavouras faz com que o tráfego de máquinas seja realizado, na maioria das vezes, estando o solo em estado de consistência plástica, onde as deformações de sua estrutura são permanentes, agravando assim o problema de compactação. Daí a necessidade de adaptação e aquisição, pelos produtores da região, de máquinas semeadoras providas de hastes sulcadoras, ao invés de discos duplos, para permitir um sulcamento adequado na implantação das culturas de soja e milho. Em função dessa situação, uma das hipóteses do trabalho é a utilização de hastes sulcadoras sempre que o solo apresente alta resistência á penetração mecânica (acima de 1500 kPa). As hastes sulcadoras, por sua vez, devem ser preferencialmente estreitas e possuírem um ângulo de ataque em torno de 20°, para que a mobilização do solo nos sulcos seja mínima, tendo profundidade adequada sem que a semeadora demande excessiva potência do trator. Outra preocupação é de que as semeadoras utilizadas reponham a palhada sobre os sulcos de semeadura, no sentido de reduzir-se ao mínimo sua exposição; nesse sentido, o uso de discos aterradores tem se intensificado na região. Foi determinado o rendimento operacional da semeadura, identificando-se que, nos casos onde houveram problemas de embuchamento, o serviço chegou a ser seriamente comprometido. Observou-se que as semeadoras que operaram com discos duplos apresentaram, como era de se esperar, um melhor rendimento na cultura da soja (0,48 horas/ha), enquanto que as semeadoras dotadas de hastes sulcadoras dispenderam 0,60 horas/ha.

Rotação de culturas e uso de plantas de cobertura

A manutenção dos resíduos vegetais sobre a superfície do solo é fundamental para o sucesso do sistema de plantio direto na região, devendo constituir preocupação prioritária dos produtores pretendentes á prática desse sistema. Além dos impactos em propriedades edáficas, a proteção contínua do solo com resíduos vegetais propicia também a redução da incidência de algumas pragas e doenças e o controle alelopático ou físico das plantas invasoras, ajudando a reduzir os gastos com agroquímicos e melhorar a rentabilidade dos sistemas de produção no médio e longo prazo. Nas atividades de validação em andamento, a estratégia para assegurar-se a formação e manutenção dos resíduos vegetais está fundamentada na adoção de esquemas diversificados de rotação de culturas com a inclusão de plantas de cobertura para formar e manter a palhada sobre o terreno. A ocorrência de um prolongado período de estiagem nos meses de Setembro e Outubro, numa situação atípica para a região, prejudicou de maneira drástica e generalizada o desenvolvimento vegetativo do sorgo forrageiro e do milheto, estabelecidos logo após a colheita do milho safrinha. Perante tais condições, persiste a necessidade de dar-se prosseguimento aos planos de rotação programados, visando aumentar a cobertura do solo por resíduos vegetais através do cultivo de espécies de inverno (aveia, ervilhaca, nabo forrageiro, etc.), visando aumentar a cobertura do solo por resíduos vegetais visando a melhoria do sistema de plantio direto. Na safra de verão 1999/2000, a produtividade de milho variou entre 4500 e 5550 kg/ha; considerando as condições climáticas adversas prevalecentes em quase todo o decorrer da safra, tais rendimentos podem ser considerados satisfatórios. Quanto à soja, as produtividades variaram desde 2360 até 3970 kg/há. Em todas as situações, predominou a incidência de plantas invasoras de folha larga, cuja incidência era maior em áreas onde o embuchamento durante a operação de semeadura provocou falhas na cobertura do terreno. No decorrer da safra de verão, não foram detectados problemas graves de natureza fitossanitária, que viessem a demandar soluções específicas. Existe, por parte de alguns produtores da região, o interesse em produzir silagem ou feno para a alimentação de animais no período de inverno. Nesse cenário, destaca-se a possibilidade de utilização da aveia que, além de oferecer forragem de melhor qualidade nutritiva, irá proporcionar a necessária palhada para o plantio direto.

Resultados financeiros

Os resultados financeiros estimados para cada cultura ou safra isolada, estão sendo interpretados com bastante cautela, já que a avaliação comparativa da eficiência econômica exige considerar-se os sistemas de produção como um todo, ao longo do tempo em que os mesmos serão avaliados. Mesmo assim, cabe ressaltar que, na safra de verão 1999/2000, foram cultivadas 5 UTVs com milho e 15 com soja; dentre elas, 8 apresentaram eficiência econômica superior à das respectivas parcelas-testemunha. Os herbicidas representaram, em média, 18% dos custos variáveis, alcançando até 34% em casos mais extremos. Quanto aos fertilizantes, sua participação nos custos variáveis foi, em média, de 16,4% (alcançando até 27,4%) no caso da soja e de 37% (alcançando até 54,2%) no caso do milho. Além do ônus financeiro que o uso desses insumos representa para os sistemas de produção, há que considerar-se os riscos de qualidade ambiental e de saúde dos animais e pessoas. Por tais razões, é importante buscar-se alternativas capazes de substituir ou racionalizar o uso de insumos químicos nas lavouras, para melhoria da sustentabilidade do sistema de plantio direto. No caso dos fertilizantes, uma das hipóteses sob validação é a de que, mediante um critério de economicidade, o emprego de doses e fontes específicas de nutrientes, ao invés do uso rotineiro de fórmulas comerciais genéricas, será suficiente para suprir as deficiências de fertilidade do solo, possibilitando racionalizar os custos da adubação. Os efeitos serão complementados e potencializados pela solubilização e ciclagem de nutrientes no solo, através de mecanismos bioquímicos promovidos pela diversificação dos sistemas de produção com rotação de culturas e plantas de cobertura devidamente selecionadas.

Atividades de difusão Dentro da estratégia de difusão dos resultados obtidos nas atividades de validação de tecnologia em Propriedades de Referência, foram realizados três Dias de Campo no mês de Fevereiro/2000, com a participação de 107 pessoas (39 técnicos e 68 produtores) representando os diversos segmentos de ATER e lideranças rurais da região. Esses eventos tiveram como objetivo principal estimular a motivação dos produtores e agentes locais de ATER, no sentido de manterem-se atuantes e assegurar a continuidade de sua participação e apoio ao Projeto.

Proposta de ValidaçãoMunicípio: MedianeiraProdutor: Elidio Variani