Ironia das águas - Uso e preservação da água no tempo da crise
A humanidade está entrando numa fase decisiva de sua história em relação ao uso e proteção de seu substrato básico de vida, a água. Ironicamente, por sermos uma espécie dotada de inteligência, deixamos a situação chegar no limite do perigo para iniciarmos ações necessárias à solução do problema, apesar das inúmeras advertências da comunidade científica e ambiental. Segundo todas as informações, a agricultura é a maior responsável pelo uso e deterioração das reservas de água doce, em todo o mundo. No Brasil e na América, o plantio direto, uma revolução silenciosa que se instalou na agricultura, reduziu drasticamente o impacto que o sistema de preparo e plantio vinha acarretando a rios, lagos e às fontes de água como um todo. No momento, um dos objetivos dos produtores e das instituições, ligadas ao plantio direto, é demonstrar para a sociedade e para a área política os resultados positivos que o sistema está proporcionando à hidrosfera e ao meio ambiente em geral.
Uso e preservação da água no tempo da crise
A imagem, já captada e exibida inúmeras vezes, mostrando águas limpas saindo de lavouras sob plantio direto, e de águas escuras escorrendo de lavouras preparadas, é um ícone muito caro aos aficionados do sistema plantio direto. No entanto, embora existam estudos e projetos que trabalham os resultados positivos da semeadura direta sobre os corpos dágua, em várias situações, a sociedade, como um todo, longe está de reconhecer o impacto transformador que o sistema significou para a hidrosfera, principalmente no Continente Americano, onde se encontra a imensa maioria de lavouras, cerca de 45 milhões de ha, que passaram a utilizar o plantio direto, nas últimas três décadas. Isto é importante salientar, no momento em que o 7º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha é realizado, em Foz do Iguaçu/PR, tendo como pano de fundo os projetos em desenvolvimento para a proteção do lago de Itaipu, através do incremento e difusão do uso do plantio direto entre os produtores lindeiros, e também num angustiante momento da história mundial em que, entre tantos outros assuntos cruciais, a questão da disponibilidade, uso e proteção das reservas de água doce dirige-se para uma encruzilhada, um caminho aparentemente sem rumo para uma parcela significativa da espécie humana. A forma como a humanidade utilizou a água, e continua fazendo, é uma das grandes ironias que a história do Planeta Terra registra, a partir do momento recente, e quase inexistente, em que a espécie humana começou a circular, a partir do Leste da África. A sua trilha é devastadora e seca. Nas regiões mais antigas de seu habitat, nações precisam comprar água de outros países próximos (Israel vai importar água da Turquia, ZH, 9/7/2000), e guerras pela posse de mananciais estão previstas pela própria FAO, se já não aconteceram. As guerras do futuro serão por água e não por petróleo. Segundo a Revista Super Interessante (julho/2000), metade da população mundial ficará sem água em 2025. As atuais gerações se impressionavam com a mística do ano 2000, há 30 anos atrás, como algo distante. Hoje, sabemos que o ano fatídico chegou e passou numa rapidez indescritível, e que 2025 é depois de amanhã. Seres inteligentes que somos, num paraíso de águas vivas, desperdiçamos e poluimos a fração mínima de água doce (menos de 1% do fantástico total) com a qual a natureza nos proporcionou a vida. Organismos científicos, entidades governamentais e ambientalistas de vários países aceleram uma batalha cerrada, na tentativa de reverter o quadro, que presume um futuro extremamente pessimista para parcelas significativas da humanidade, principalmente de países pobres. No caso do Brasil, a ironia é mais aguçada ainda. Possuímos invejáveis 16% da água utilizável em todo o mundo ( o país mais bem dotado), usamos somente 1% dessa fatia, nossas maiores cidades já enfrentam severos racionamentos, o desperdício é enorme e uma grande parte dos nossos rios já estão mortalmente feridos pela poluição urbana, industrial e agropecuária. O plantio direto e a palha, que cobre o solo das lavouras e é a sua vantagem maior, já demonstraram na prática e na teoria o seu potencial de proteção das bacias hidrográficas, dos lagos e de todos os mananciais das regiões agrícolas. O grande projeto de proteção ao lago de Itaipu, que está sendo trabalhado por diversas instituições, é o reconhecimento de que a agricultura conservacionista pode ser uma das saídas importantes para essa questão fundamental, que determinará o futuro da humanidade nos próximos anos.