Fundamentos para Integração Lavoura-Pecuária no Sistema Plantio Direto


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Publicado em: 01/11/1996

Integração de atividades agrícolas e pecuárias, no Planalto Médio e nas Missões, foi intensificada a partir da década de setenta, com a introdução de novas espécies forrageiras, tanto para a terminação de bovinos de corte como para a alimentação de bovinos leiteiros. Neste período, ocorreu a reestrutração e a criação de novas bacias leiteiras na região, fazendo com que a produção de grãos e a produção animal dividissem espaços na propriedade. A produção de grãos e as pastagens devem ser trabalhadas como sistemas que contemplem o solo, as plantas e os animais.

Esse sistema pode ser de curta duração, através do cultivo de pastagens anuais e/ ou de média e longa duração, onde encontram-se as pastagens perenes na exploração das propriedades.

Manejo forrageiro da aveia preta em plantio direto Em um sistema de curta duração, a aveia preta pode ser utilizada para a produção de carne ou de leite. À época de semeadura vai de março a junho, de forma escalonada, com intervalos de 15 a 20 dias entre glebas, proporcionando maior período de utilização.

A densidade recomendada é de 350 a 450 sementes aptas/m2. A adubação nitrogenada é realizada considerando o teor de matéria orgânica do solo. Recomendação de 10 a 15 kg/ha na semeadura e o restante em duas a três aplicações, sendo a primeira no perfilhamento e o restante após cada pastejo. Postiglioni (1982), em trabalhos realizados no Paraná, encontrou resposta de até 120 kg/ha de nitrogênio, em pastagens consorciadas de aveia e azevém.

Quanto ao manejo das pastagens, para a terminação de bovinos, segundo Maraschin (1994), deve-se Observar a rela. ção entre ganho/animal x ganho/área, uma vez que busca-se o ganho de peso num curto espaço de tempo. Sugere trabalhar com média a alta disponibilidade de forra- Jair da Silva Mello!

gem, visando ao maior ganho por animal e também a manter uma boa área residual da pastagem. O momento ideal para a entrada dos animais, segundo Floss (1988) e Fontaneli (1994), é quando a aveia apresenta em torno de 1.500 kg de matéria seca/ha. Ao nível de campo isso significa entre 0,7 a 1,0 kg/m? de matéria verde, o que deve coincidir com uma altura de 30 a 35 cm de altura.

No sistema de pastejo contínuo, devese ajustar a carga animal à disponibilidade de forragem. Em termos médios, ao nível de propriedade, se tem trabalhado com 15 a 2,0 UA/ha, com bons resultados.

No pastejo rotativo, buscam-se curtos períodos de utilização dos piquetes, observando uma altura de resteva de 0,7 cm a 1,0 cm para a retirada dos animais. Neste caso, o intervalo de utilização do piquete varia de 30 a 35 dias, dependendo das condições climáticas e da fertilidade do solo. O pastejo rotativo apresenta as vantagens de melhor utilização da pastagem e da distribuição mais uniforme do esterco e da urina.

A aveia preta poderá ser utilizada em Consorciações com o centeio, pela sua precocidade, com o azevém, pelo ciclo de produção inverno/primavera, e com o trevo vesiculoso, pela qualidade de forragem e também pelo ciclo de produção. No caso de — COnsorciações de aveia preta, azevém e tre- VO Vesiculoso, é possível utilizar a área em pastejo por 140 à 180 dias, proporcionando ganhos de 400 a 600 kg/ha de peso vivo, ou 9.000 a 6.000 kg de leite/ha. Nesse caso, deve-se diferir a pastagem até a segunda quinzena de novembro, permitindo, com 15SO, que o trevo rebrote, formando matéria Seca, onde a área poderá ser ocupada com milho semeado no início de janeiro ou com à pastagem de milheto ou sorgo forrageiro. Para plantio de soja, sobre aveia preta, deve-se diferir a pastagem no mínimo 45 a 50 dias antes da semeadura. Isso visa à permitir o rebrote da aveia, formando maténa seca, além de recuperar um pouco à.

densidade do solo, pelo crescimento do sistema radicular, pois tem se verificado que o efeito do pisoteio causa uma certa compactação na camada de 8 cm a 8 cm. O ideal é retirar os animais da área de 10 a 20 de setembro. Para o plantio direto de soja recomendase utilizar semeadoras com sulcador e disco de corte.

Nesse sistema tem se obtido, ao nível de propriedades, rendimentos de 80 a 250 kg/ha de peso vivo variando em função da disponibilidade de forragem e das condições climáticas. É importante observar o correto manejo da pastagem e dos animais, evitando, se possível, a permanência destes, em dias chuvosos e com solo excessivamente úmido. Por isso, é fundamental ter na propriedade áreas de campo nativo melhorado (bordas de lavoura), com introdução de espécies como, aveia, azevém, cornichão, trevos, etc.

Reciclagem de nutrientes Segundo Petersen et al. (1976), citados por Monteiro & Werner (1989), um bovino adulto esterca a cada 2 horas e urina a cada 3 horas, cobrindo respectivamente 0,09 m? e 0,26 m?. Quanto ao N contido na forragem, Scott (s.d.) cita que em torno de 70% é excretado na urina e o restante nas fezes. As perdas por volatização do N da urina, segundo Ball et al. (1991), varia de 30%, em condições úmidas e frias, para mais de 70%, quando quente e seco.

O trabalho de Wilkinson & Lowrey (1973), citado por Malavolta et al. (1986), mostra que mais de 95% do fósforo ingerido pelo animal é excretado no esterco e que de 70% a 90% do potássio é excretado na urina.

Portanto, o retorno desses nutrientes ao solo, sendo reciclado pelos microorganismos e pelos besouros coprófagos, em um sistema de plantio direto, provavelmente explique o aumento de produtividade, tanto de soja como de milho, na sucessão em áreas cultivadas com pastagens de estação fria, sob o pastejo, uma vez que, segundo Ball et al. (1991), animais em pastejo removem relativamente pequenas quantidades de nutrientes, e quando são engordados apenas as perdas são significantes.

— Algunsresultados da integração lavoura-pecuária Medeiros et al. (1986), traba- Ihando durante 7 anos com aveia, com azevém e com trevos, no inverno, e com milheto com feijãomiúdo, no verão, obtiveram rendimento médio de 773 kg/ha de peso VIVO, Com uma carga animal média de 2,7 UA/ha.

Souza et al. (1988) avaliaram O ganho de peso de novilhos, em terminação sobre aveia preta, obtendo 393 kg GPV/ha, com uma carga animal média de 2,56 UA/ha, durante 98 dias de utilização de pastagem, e um ganho médio diário de 1.350 g./novilho.

Ries (1993), citado por Fontaneli (1994), acompanhando a terminação de bovinos de corte, em aveia preta, na região de Cruz Alta, cita ganhos de peso viso de 97 a 210 kg/ha, na média de 6 propriedades acompanhadas.

Formigheri et al. (1994) avaliaram o desempenho de bovinos em terminação sobre pastagens de estação fria, em plantio direto, obtendo os seguintes resultados: aveia preta + centeio BR -| 87 kg / ha; cevada forrageira 154 kg GPV/ ha; aveia preta 159 kg GPV/ha e aveia preta + azevém + trevo vesiculoso 341 kg GPV/ha. Na média dos quatros tratamentos, obtiveram 185 kg GPV/ha, com 103 dias de pastejo, lotação de 1.36 bovinos/ha e ganho médio diário de 1.066 g./bovinos.

Quadros (1984), citado por Fontaneli (1994), trabalhando com aveia + azevém + trevo vesiculoso, em Guaíba, RS, obteve 495 kg de ganho de peso vivo/ha/ano. O mesmo autor obteve, com azevém + trevo branco + cornichão, 531 kg de ganho peso vivo/ha/ano.

Abrahão (1981), citado por Fontaneli (1994), avaliando a produção de leite em pastagem de aveia preta, obteve 3.824 kg de leite/ha, durante 126 dias de avaliação, em 2,5 ha com pastejo rotativo observando uma relação de 0,56 kg de MS/kg de leite produzido.

Moraes & Maraschin (1993), citados por Maraschin (1994a), avaliando ganho se peso sobre pangola + azevém + trevo branco, obtiveram 652 kg de ganho de peso vivo/ha, no inverno-primavera, com uma oferta de 10,5 kg MS/100 kg PV, e 519 kg de ganho de peso vivo/ha no verão, para uma oferta de 7,0 kg MS/100 kg PV somando 1.171 kg de peso vivo/ha ano. Fontanelii Ambrosi & Dikesch (1993), analisando a economicidade de quatro sistemas de produção de grãos com pastagens anuais de estação fria, em plantio direto relatam que sistemas de rotação de culturas para trigo com pastagem anual, de aveia consorciada com ervilhaca ou trevo, e com soja em rotação com milho em 33 a 50% da área, mostraram maior rentabilidade. Obtiveram uma receita líquida de US$ 443 ,00/ ha para o sistema 50% trigo - 50% pastagem consorciada, no inverno, e 50% soja - 50% milho, no verão. Para o sistema 33% trigo - 67% pastagem consorciada e 67% soja - 33% de milho, no verão, obtiveram US$ 412,00/ha.

Considerações finais A integração lavoura-pecuária, no sistema plantio direto, tem mostrado que é possível e viável economicamente, porém, algumas considerações merecem destaque.

- Devem ser buscados sistemas de rotação de média e de longa duração, integrando a produção de grãos com pastagens perenes, permitindo maior estabilidade ao sistema, bem como melhor resultado econômico.

- É importante incluir leguminosas nas pastagens, visando à maior produção animal e a melhorias nas condições físicoquímicas do solo, dentro de um planejamento de rotação de culturas.

- Para as pastagens anuais de estação fria, como a aveia preta, com bovinos em terminação, Maraschin (1994b) sugere traba- Ilhar com média e alta disponibilidade de forragem, visando ao maior ganho por animal, em função do curto espaço de tempo para o obtenção de um produto animal comercializável. Esse manejo também favorecerá a manutenção de uma boa cobertura vegetal, que servirá de proteção ao solo, minimizando os efeitos do pisoteio em áreas que serão ocupadas por culturas de verão, em plantio direto. bh.