EDITORIAL
O DESAFIO DA AGRICULTURA DE PRECISÃO
Gilberto Cunha — Agrometeorologista da Embrapa-Trigo, Passo Fundo-RS. Bolsista do CNPq.
A globalização da economia transformou eficiência e competitividade em premissas básicas de qualquer atividade. Na agricultura, a observação desses princípios, hoje, mais do que nunca, define o diferencial entre o sucesso e o fracasso dos empreendimentos.
Uma nova abordagem do manejo de culturas, denominada agricultura de precisão, tem se destacado por unificar os interesses econômicos do produtor e os princípios de conservação do ambiente.
Na agricultura de precisão, a palavra de ordem é variabilidade. Nesse contexto, seus princípios foram desenvolvidos visando a recomendação de fertilizantes com base na variabilidade temporal e espacial existente dentro das unidades de solo. A sua lógica é bastante simples: toda a recomendação de fertilizantes baseada em uma amostragem média implicará que uma parte da área receba adubo abaixo do necessário, e a outra, acima. Nesses casos, ambas as situações denotam ineficiência no uso de um insumo caro e de grande influência na expressão do rendimento econômico das culturas.
Desse modo, no caso específico do uso de fertilizantes, a solução apontada em agricultura de precisão tem sido a aplicação localizada, conforme os níveis de fertilidade do solo e seus índices de produtividade. Para sua exequibilidade, a variabilidade de solo dentro das lavouras tem de ser quantificada. Essa quantificação passa pela aplicação de princípios de geoestatística, e a sua localização espacial, via georreferenciamento por meio de GPS (Global Position System) de alta resolução. A eletrônica embarcada em semeadoras/adubadoras e em plataformas de colhedoras complementa a viabilização operacional do sistema.
Os princípios da agricultura de precisão, no tocante a contemplar escalas de variabilidade, se aplicam ao manejo de culturas como um todo. A questão passa pela identificação dos níveis de agregação das recomendações e da possibilidade de desagregá-las conforme as especialidades. Exemplificando: contemplar a variabilidade climática nas recomendações de épocas de semeadura, dezena/dezena, dentro do Estado, em níveis de região, é, se necessário, dentro do município, é imprescindível para a redução dos riscos da natureza climática e o aumento da eficiência das pesquisas.
A nível de cultura, considerar a variabilidade genética existente dentro da espécie, através de cultivares adaptadas ao local e com características de rendimento e qualidade exigidas pelo mercado, é uma questão fundamental.
No tocante ao uso de defensivos, racionalizar as aplicações via modelos epidemiológicos, considerar a especialidade produto x progaiícola/produtor e levar em conta a aplicação em função daítáveis meteorológicas são determinantes no benefício econômico da atividade.
E assim, sucessivamente, da semeadura à colheita, no manejo da propriedade se contemplar algum nível de variabilidade na tomada de decisões. A agricultura de precisão se configura como um novo paradigma para a atividade. A observação de seus princípios, provavelmente, diferenciará os eficientes e competitivos dos ineficientes e dominados, em uma aldeia cada vez mais global.
Editorial Gilberto Cunha (Agrometeorologista Embrapa-Trigo Passo Fundo-RS, Bolsista CNPq). Conceito agricultura de precisão: variabilidade espacial+temporal+GPS+eletrônica embarcada semeadoras/adubadoras/colhedoras. Recomendação fertilizantes baseada amostragem média = ineficiência. Geoestatística. Visão sistêmica: variabilidade clima+solos+genética+pragas/doenças.