Os Homens que Descobriram a Bomba (Plantio Direto no Cerrado Úmido)


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Publicado em: 30/06/1996

PLANTIO DIRETO NO CERRADO ÚMIDO

OS HOMENS QUE DESCOBRIRAM A BOMBA

Ligar a bomba é um termo usado pelos engenheiros agrônomos Serge Bouzinac e Lucién Séguy, do Instituto Cirad, da França, ambos trabalhando em pesquisa e extensão na região do Cerrado Brasileiro. Eles se referem ao trabalho realizado pela biomassa de culturas de cobertura, como sorgo e milheto, que fazem uma função similar à reciclagem existente nas florestas, principalmente na Amazônia.

Na comparação do produtor Munefume Matsubara, da fazenda Progresso, de Sorriso, Mato Grosso, "a agricultura da região sub-tropical temperada é como um automóvel, enquanto a agricultura praticada no cerrado úmido é comparável a um avião, em termos de rapidez. Mas também o é quando se compara na proporção do desastre: as possibilidades de um acidente fatal são maiores com o avião, naturalmente."

Citado por Bouzinac, o senhor Munefume Matsubara, um dos pioneiros na implantação do plantio direto naquela região, quis se referir à intensidade das chuvas que caem sobre o cerrado úmido e que têm sido desastrosas para as lavouras de soja, milho e arroz. O plantio direto parece ser uma boa alternativa para os produtores do Mato Grosso, nas regiões de cerrado pré-amazônico, porém, o complexo de clima e solo exige uma atenção redobrada dos técnicos e produtores que atuam na área.

"Um acidente com um avião é mais grave, muitas vezes você não consegue se recuperar, é preciso uma cautela maior com a matéria orgânica, que é o coração e o esqueleto da agricultura: se você a perde rapidamente, a possibilidade de perda total é muito maior. Pois nas regiões temperadas, as possibilidades de desastre existem, porém, o tempo é mais lento", disse Serge Bouzinac, em uma entrevista à Revista Plantio Direto, durante a realização do Encontro de Plantio do Cerrado, em março do ano passado, em Brasília. Entretanto, ele acredita bastante no potencial agrícola da região do cerrado úmido.

Sem querer desmerecer o Sul, Bouzinac afirma que "aqui, as coisas crescem mais rápido, enquanto as regiões temperadas são adaptadas a um novo modelo de agronomia". A seguir, apresentamos alguns pontos da vista de Serge Bouzinac sobre agricultura dos cerrados.

A BOMBA BIOLÓGICA

Revista Plantio Direto — O que é o Cirad?

Serge Bouzinac — O Cirad é Instituto Francês de Agronomia, com trabalhos nas regiões tropicais. Nos anos 60, ou até antes, desenvolvi trabalhos principalmente na África e, mais recentemente, na Ásia e América Latina. Nosso trabalho básico é em manejo de solos, procurando dar ao produtor uma orientação sobre como produzir mais, em todo o tempo, na agricultura. No início, trabalhaíamos somente com algumas culturas, mas evoluímos para um sistema agrícola que abrange diversos cultivos.

RPD — O título da nossa matéria será "O homem da bomba biológica". Fale-nos um pouco sobre essa bomba.

Serge Bouzinac — A idéia da bomba é do meu colega Lucién Séguy. Eu sou apenas o porta-voz do homem da bomba. Cá havia algumas reservas. Ele Trabalhamos com a reciclagem de nutrientes, com sabrinha. Primeiro, recomendávamos o sorgo, que é uma excelente alternativa. Aí, tivemos a idéia de reciclar o que estava perdido, pela soja, principalmente no solo. A bomba consiste em recolher esses resíduos perdidos no fundo do solo (1.200 mm/ano).

RPD — Qual é a saída que vocês imaginaram?

Bouzinac — A idéia vem da Floresta Amazônica, onde você tem um circuito quase fechado. Carbono, nitrogênio, oxigênio são elementos que estão numa quantidade na ar atmosférico e que sobre as plantas. Os sistemas radiculares chegam a um metro, mas há recicladores especiais que descem até quatro ou cinco metros, já sabiamos que o ar atmosférico era pobre. Então, você tem uma cobertura permanente sobre o solo, com o ciclo de retorno aberto. A reciclagem da matéria orgânica é o esqueleto principal e que reduz o efeito predador. Nós queremos descartar a soja, que foi o motor de desenvolvimento do Cerrado, mas não podemos continuar na monocultura, como foi feito no caso do arroz.

RPD — A cultura da soja pode continuar na região?

Bouzinac — Não estou colocando a soja para fora do Cerrado, pelo contrário, quero que a soja fique, mas para isso ela vai que se saiar a partir de outras culturas, tem que manter uma rotação, é preciso que essa soja seja motor de desenvolvimento das células. Sabemos que a cultura do milho apresenta questões econômicas, mas isso não é o problema. Se queremos esse sistema ecológico da soja, ele só consegue manter se essa pessoa e o motor de desenvolvimento do Cerrado, mas não podemos continuar a monocultura como foi feito no caso do arroz.

O TRABALHO DO CIRAD

Os trabalhos de pesquisa conduzidos pelo Cirad-CA, durante 10 anos, sobre as fronteiras agrícolas da área tropical úmida, no Oeste do Brasil, permitiram a criação de uma agricultura sustentável, lucrativa e preservadora do meio ambiente. Estes novos conceitos de gestão ecológica dos solos e dos sistemas de cultura, inspirados no funcionamento da floresta, foram traduzidos em práticas agrícolas, com o apoio dos agricultores, nas suas áreas de produção.

Estes trabalhos de pesquisa-ação, em ligação direta com o desenvolvimento, mostraram que a chave essencial da gestão ecológica dos latíssolos nas regiões quentes com forte pluviometria, superior a 2.000 mm em 7 meses, é modernamente reside no não cultivo, sua manutenção contínua de uma cobertura orgânica do solo durante o ciclo das culturas.

SISTEMA MANTENEDOR DA FERTILIDADE (Cultura soja 5 dezões / S. BOENICK / M7/1991)

Reciclar para a superfície, as bases e elementos minerais lixiviados em profundidade. Minimizar as perdas de nutrientes, sendo o solo-cultura (à semelhança da floresta). Alimentar a cultura comercial, por via biológica, de maneira contínua, ao longo de seu ciclo.

Diversos sistemas de cultura de produção contínua de grãos, onde a soja, em seguida o arroz de qualidade são as culturas principais, foram elaborados, ajustados e difundidos. Estes sistemas de produção contínua máximos ("níveis de reciclagem biológica máxima"), podem ser também praticados em rotação com pastagens, em 3-4 anos, somando assim os efeitos orgânico-biológicos das duas atividades em produção de grãos, sobre o meio tropical.

Extraído da publicação "A construção de uma agricultura sustentável, lucrativa, adaptada às entressafras pedoclimáticas das regiões tropicais úmidas", de Lucién Séguy, Serge Bouzinac e Ayrton Trentin.

Entrevista. Serge Bouzinac e Lucién Séguy (Instituto CIRAD-França, pesquisa+extensão Cerrado BR). Produtor citado Munefume Matsubara (Faz. Progresso Sorriso-MT, pioneiro PD MT). Conceito 'bomba biológica': culturas de cobertura sorgo+milheto reciclam nutrientes (similar à floresta amazônica). Cerrado úmido (>2.000mm em 7 meses) exige cuidado redobrado. CIRAD-CA 10 anos pesquisas Oeste BR criou agricultura sustentável+lucrativa. Sistema Mantenedor Fertilidade (Séguy/Bouzinac/Ayrton Trentin): reciclar para superfície, minimizar perdas, alimentar cultura comercial via biologia contínua. Páginas 8-11.