Resistência de plantas à herbicidas (Kurt G. Kissmann, cobre p21+p22+p23)


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Publicado em: 29/02/1996

RESISTÊNCIA DE PLANTAS À HERBICIDAS

Kurt G. Kissmann

BIODIVERSIDADE

Todos os seres vivos, ao se reproduzirem, transmitem características básicas aos seus descendentes. Na reprodução sexuada nunca essas características são todas exatamente iguais às de um dos ascendentes. A ocorrência de um fator desfavorável pode eliminar os indivíduos mais sensíveis e permitir a sobrevivência dos mais resistentes. Charles Darwin formulou a teoria da seleção de indivíduos mais aptos. A biodiversidade é um fator que a natureza criou para garantir a perpetuação das espécies. A resistência de determinados biótipos a um herbicida precisa ser considerada dentro desse contexto.

RESISTÊNCIA A PRODUTOS QUÍMICOS

O fenômeno da resistência de organismos a produtos químicos é conhecido há cerca de 50 anos. Na década de 40 foi constatada a resistência de insetos a inseticidas, sendo que hoje mais de 500 espécies de pragas apresentaram resistência a um praguicida. Na década de 50 constataram-se as primeiras resistências de agentes patogênicos a fungicidas. Em relação a plantas daninhas, as primeiras observações foram feitas no fim da década de 50, sendo o primeiro caso registrado uma resistência de Daucus sp. ao 2,4-D nos Estados Unidos.

Em 1964 observou-se nos EUA que plantas de Senecio vulgaris, Chenopodium album e Amaranthus sp. não estavam mais sendo controladas por triazinas, após 7 ou 8 anos de uso. A partir de 1993 passaram a ser constatados casos de resistência também no Brasil. Os herbicidas com maior histórico de resistência são os do grupo das triazinas. Estima-se que no mundo hoje haja 3 a 4 milhões de hectares com invasoras apresentando alguma resistência a triazinas.

ESTUDOS SOBRE RESISTÊNCIA

A indústria tomou a iniciativa, através do GIFAB (Federação Internacional das Associações Nacionais de Fabricantes de Defensivos Agrícolas), constituindo um grupo permanente de cientistas para estudar o assunto. Esse grupo (HRAC — Herbicide Resistance Action Commitee) formou três subgrupos para estudar triazinas, inibidores de ALS e inibidores de ACCase. Tabela com casos identificados (1993): Triazinas (atrazina) - 29 biótipos em 17 países; Bipiridílos (paraquat) - 16 em 9; Inibidores de ALS (clorosulfuron) - 8 em 4; Feniluréias (clorotoluron) - 6 em 3; Fenoxiácidos (MCPA, MCPP) - 6 em 5; Inibidores de ACCase (ciclofop-metil) - 4 em 5; Dinitroanilinas (trifluralina) - 3 em 2; outros menores; TOTAL: 113 biótipos.

MECANISMOS DE RESISTÊNCIA

1) Alteração no sítio de ação: a constituição de um elemento onde atua o herbicida pode sofrer pequena alteração; podem-se desenvolver isoenzimas. 2) Alteração na capacidade metabólica: um aumento na capacidade metabólica da planta pode determinar queda na eficiência. Geralmente regulada por diversos genes, o que diminui a chance de desenvolvimento de resistências. 3) Impedimento a que o herbicida atinja o sítio de ação: muitos herbicidas são inativados por se ligarem a compostos naturais das plantas, em processos de sequestração, como por exemplo ligação a proteínas e açúcares.

MEDIDAS PARA CONTROLAR A RESISTÊNCIA

Medidas culturais: limpar colheitadeiras que trabalham em áreas suspeitas; usar também métodos mecânicos; deixar gado pastar nas áreas colhidas; alternar culturas do mesmo período anual (no verão, alternar soja com milho). Alternância de herbicidas: em princípio não se deveria usar com exclusividade herbicidas com a mesma atuação por mais de dois anos consecutivos. Quando se detecta um problema, é imperativo intercalar uma forma de controle que não repita herbicidas que atuem de modo idêntico. Combinação de produtos: é interessante desde que eles atuem em sítios químicos diferentes e que ambos sejam eficientes contra a invasora. Dose de herbicidas: aplicar na dose máxima permitida vai eliminar um máximo de plantas; eventualmente podem sobreviver poucos indivíduos de biótipo resistente, cuja multiplicação tende a selecioná-los.

Extraído da publicação "Resistência de plantas a herbicidas". Exemplares completos podem ser solicitados ao autor Kurt Kissmann.

Artigo técnico longo 3 páginas extraído do livro 'Resistência de plantas à herbicidas' (Kissmann). Biodiversidade + seleção natural Darwin. Cronologia resistência: insetos a inseticidas anos 40 (hoje +500 espécies); fungos a fungicidas anos 50 (hoje +150 espécies); primeiro caso planta daninha Daucus sp. ao 2,4-D EUA fim anos 50; Senecio vulgaris/Chenopodium album/Amaranthus às triazinas EUA 1964. A partir de 1993 casos no Brasil. Tabela com 14 grupos químicos e 113 biotipos resistentes total (triazinas 29; bipiridilos 16; ALS 8; feniluréias 6; fenoxiácidos 6; ACCase 4; dinitroanilinas 3; amidas 2; triazóis 2; uracilos 2; carbamatos 2; piridazinas 1; nitrilas 1; organoarseniacais 1; não classificados 1). HRAC (Herbicide Resistance Action Commitee) do GIFAB, 3 subgrupos. 3 mecanismos: alteração sítio ação, capacidade metabólica, sequestração. Medidas: limpar colheitadeiras, métodos mecânicos, gado pasto, alternar culturas, alternância herbicidas (não usar mesma atuação >2 anos consecutivos), combinação produtos sítios diferentes, doses máximas.