Aquecimento global: hipótese ou fato? (Gilberto Cunha CNPT, cobre p16+p17)


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Publicado em: 29/02/1996

AQUECIMENTO GLOBAL: HIPÓTESE OU FATO?

Gilberto R. Cunha — Agrometeorologista do Centro Nacional de Pesquisa do Trigo (CNPT), Passo Fundo-RS.

Nos últimos tempos, a questão do aquecimento global tem sido o tema central de reuniões científicas e diplomáticas em todo o mundo. Dentre tantas, pode-se citar a Conferência Mundial do Clima (Genebra-1990), a ECO-92 (Rio de Janeiro-1992), o Congresso Brasileiro de Agrometeorologia (Porto Alegre-1993) e, recentemente, a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (Berlim-1995). Todavia, apesar do amplo espaço de mídia dedicado ao tema, a questão nem sempre é claramente colocada em uma forma isenta de paixões, livre de visões catastróficas e onde hipóteses científicas de hoje não sejam consideradas como fatos consumados.

O efeito estufa, geralmente apontado como o vilão da história, nada mais é do que uma propriedade da atmosfera que permite a passagem da radiação solar e aprisiona parte da radiação infravermelha emitida pela superfície da Terra. Em função dessa propriedade física, a temperatura média global do ar próximo à superfície é de 15°C; na sua ausência, seria de -18°C. Portanto, o efeito estufa é benéfico à vida no Planeta Terra como hoje se conhece. A questão preocupante é a intensificação do efeito estufa em relação aos seus níveis atuais.

O efeito estufa é ocasionado por alguns gases (gases de estufa): vapor d'água (H&sub2;O), gás carbônico (CO&sub2;), metano (CH&sub4;), ozônio (O&sub3;), óxido nitroso (N&sub2;O) e compostos de clorofluorcarbono (CFCs). O vapor d'água é o principal gás de estufa. O gás carbônico é o segundo em importância e o que mais tem causado polêmica, em função da sua taxa de crescimento de 0,5% ao ano e do seu tempo de vida na atmosfera de até 200 anos.

São fatos incontestáveis no último século e meio: o aumento da concentração de gás carbônico em 25% e um aumento da temperatura média global na faixa de 0,3 a 0,6°C. Porém, as simulações com modelos GCM (General Circulation Models), na condição de duplicação de CO&sub2; em relação ao nível atual, têm apontado para incremento na temperatura média do globo entre 1,5 e 4,5°C. Esses resultados têm sido a base das previsões catastróficas de expansão volumétrica das águas dos oceanos, de degelo de calotas polares e de aumento nos níveis dos mares de até 1,5 m.

Na comunidade científica existe consenso sobre as limitações das previsões de modelos GCM, que não simulam adequadamente dois mecanismos fundamentais de atenuação: a cobertura e tipos de nuvens e os componentes do ciclo hidrológico. Tampouco têm sido considerados aspectos da variabilidade natural do sistema climático: a circulação oceânica, a inércia térmica dos oceanos, o albedo planetário, as mudanças de parâmetros orbitais da Terra, a atividade solar (ciclos de 11 anos das manchas solares) e as erupções vulcânicas, como a do Pinatubo (Filipinas, junho 1991), que pela grande quantidade de aerossóis reduziu o balanço de radiação planetário na faixa de 40°N a 40°S de latitude, levando a um resfriamento planetário momentaneamente notado no inverno rigoroso de 1994 na América do Norte.

As questões levantadas têm sido a tônica das conferências do renomado cientista brasileiro L.C.B. Molion, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), deixando claro que a intensificação do efeito estufa ainda é uma hipótese científica e não um fato consumado, como muitos propalam. A necessidade de estabelecimento de protocolos de controle de emissões de gases de estufa é incontestável, pois testar a hipótese do efeito estufa intensificado em um experimento com o próprio Globo seria bastante arriscado. Hoje, a indagação do que ocorrerá com o aquecimento global, caso não haja controle nas emissões dos gases de estufa, não tem como escapar do lugar comum: quem viver, verá!

BOX — EL NIÑO: DE ONDE VEM E COMO SE PRODUZ

Manuel M. Ventre — Jornal ABC, Asunción, Paraguay.

Do mar. O mar é o regulador do clima do planeta, porque o intercâmbio do calor e do vapor d'água entre os oceanos e a atmosfera é o que o regula. A água cobre dois terços da superfície terrestre e absorve mais ou menos 75% da energia solar recebida em todo o mundo. O aquecimento das águas do Pacífico Oriental é o que origina El Niño, que acaba influindo enormemente nas correntes marítimas e transforma o clima em todo o mundo. Desde 1500, El Niño aconteceu cerca de 50 vezes (uma cada década). O nome foi dado pelos pescadores das costas peruanas porque o aumento repentino de temperatura ocorria perto do Natal, em que se comemora o nascimento do menino Jesus.

A última vez que El Niño esteve presente com grande intensidade foi nos anos de 1982 e 1983, e foi tão severo que causou desequilíbrios no sistema de chuvas com inundações. A região mais atingida foi o Cone Sul da América do Sul. Registraram-se aumentos de temperatura da superfície do mar de 5 a 8 graus acima do normal. Aconteceram distorções climáticas em todo o mundo, deixando mais de 1000 mortos e um dano global estimado em 9 bilhões de dólares. Implicações: longas secas na Austrália, Indonésia e Sul da África; diminuição das chuvas de monções na Índia; tufões em Taiti; chuvas torrenciais com inundações na América do Sul e na costa oeste dos Estados Unidos.

Artigo técnico. Gilberto R. Cunha (Agrometeorologista CNPT-Embrapa). Conferências: Mundial Clima Genebra-1990, ECO-92 Rio, Brasileiro Agrometeorologia Porto Alegre-1993, ONU Berlim-1995. Efeito estufa benéfico (15°C vs -18°C sem). Gases estufa: H2O (principal), CO2 (+0,5%/ano, 200 anos vida atm.), CH4, O3, N2O, CFCs. Fatos: aumento CO2 +25% no século, T global +0,3-0,6°C. Modelos GCM duplicação CO2: +1,5-4,5°C, mas limitações (nuvens, ciclo hidrológico). Variabilidade natural: circulação oceânica, inércia térmica, albedo, parâmetros orbitais, atividade solar (ciclos 11 anos), vulcões (Pinatubo Filipinas jun/1991 → resfriamento 40°N-40°S → inverno rigoroso 1994 América Norte). L.C.B. Molion (INPE): intensificação efeito estufa = hipótese científica. Box El Niño - DE ONDE VEM E COMO SE PRODUZ (Manuel M. Ventre, Jornal ABC Asunción Paraguay): mar regula clima, EN aconteceu ~50 vezes desde 1500 (1 por década). 1982/83 mais severo do século: +5-8°C águas Pacífico, +1000 mortos, US$9 bi prejuízos, secas Austrália+Indonésia+Sul África, redução monções Índia, tufões Taiti, inundações América Sul/costa oeste EUA.